K-Ximbinho ressurge em novo CD

O maestro e compositor Paulo Moura nuncase conformou com o ostracismo em que caiu a música de K-Ximbinho(apelido do saxofonista e clarinetista Sebastião Barros) apóssua morte, em 1980. Seu nome diz pouco aos freqüentadores derodas de choro ou salões de baile, mas pelo menos duas músicasdele, Sonoroso e Sempre são clássicos do gênero. Por isso, noinício do ano passado, Moura juntou-se ao gaitista MaurícioEinhorn, ao guitarrista Nelson Faria e ao baixista Tony Botelhoe gravou ao vivo, em shows no Teatro Leblon, o disco K-Ximbues,com temas do músico, seu mestre. "Pouca gente sabe, mas ele é um dos precursores dabossa nova, assim como João Donato e Johnny Alf, pois fazia essamistura de música brasileira com jazz, antes dos anos 50. Só queele escrevia arranjos e compunha choros para orquestra e, comofugia ao choro tradicional, causava um certo estranhamento",diz Moura, que conheceu K-Ximbinho nos anos 50, recém-chegado aoRio, e ia sempre vê-lo tocar na Rádio Nacional ou nas boatescariocas onde ele ganhava a vida. "Quis dar um acento maisjazzístico às composições dele e por isso dispensei a bateria,para evitar que ela estabelecesse o clima do disco. A guitarra eo baixo deram clareza e precisão ao ritmo e o Maurício Einhornpode tocar com mais delicadeza." Gênio - K-Ximbinho foi um daqueles gênios musicais quesurgem de vez em quando no Brasil. Ele nasceu em 1917, em Taipu,cidadezinha do interior do Rio Grande do Norte, e ainda meninotocava saxofone e clarineta na banda de música local. A cidadeficou pequena para seu talento e ainda adolescente foi viver demúsica em Natal, onde também seu talento transbordou e chegouaté João Pessoa. Lá, o maestro Severino Araújo era a estrela e oadmitiu na sua Orquestra Tabajara. Com 21 anos era um dostitulares do conjunto, mas no início dos anos 40 já estava noRio e, de cara, gravou com Francisco Alves. Apesar de bem-sucedido, era inquieto e rebelde, o quelhe trouxe problemas e glórias na carreira de instrumentista ecompositor. Severino Araújo, quando se mudou para o Rio, emmeados dos anos 40, não abria mão de sua clarineta na Tabajara,mas vivia às turras com ele. Ao mesmo tempo, K-Ximbinho foi umdos primeiros músicos populares a estudar com o professor alemãoH.J. Koellreuter, que seria mestre de metade dos músicosbrasileiros da época (Tom Jobim, Severino Araújo e Ary Barroso,além do próprio Paulo Moura), mas não fazia concessões."K-ximbinho era meio revoltado com o pouco-caso das pessoaspara com suas músicas e, de vez em quando, sumia por unstempos", conta Moura. "Mas era um bom companheiro, ótimapessoa." Suas composições não são tantas quanto as de outroschorões como Jacob do Bandolim ou Pixinguinha, mas sãofundamentais. Além dos clássicos do compositor, como Sempre eSonoroso (em arranjos que surpreendem por fugirem ao habitual emformações de choro), há a inédita Just Walking (e muito poucoconhecida, mesmo entre os cultores do gênero), VelhosCompanheiros e K-Ximbodega, homenagem ao saxofonista eclarinetista Zé Bodega, que veio para a Orquestra Tabajarasubstituir K-Ximbinho, mas tornou-se seu grande amigo. "Ele éirmão do Severino Araújo e um dos maiores instrumentistas queconheci. Os dois ficaram muito ligados, inclusive musicalmente" lembra Moura. "Quando cheguei ao Rio, ia aos lugares paraouvir um e, muitas vezes, quem tocava era o outro, ou então davapara ouvir os dois juntos, que era o melhor ainda." Com esse disco lançado, Moura deve entrar em estúdioainda neste semestre para gravar seu disco que sai até agostopelo selo Rádio MEC. Inicialmente, ele pretendia gravar sómúsicas de Radamés Gnattali, mas conseguiu mais recursos do queesperava e ampliou seus planos. "Vou gravar um disco orquestral com choros e samba numa linha que não é muito usual na músicabrasileira", adianta. "É um tipo de música com muitaimprovisação, que pouca gente toca, mas sempre agrada quem gostade jazz e música brasileira."

Agencia Estado,

06 de janeiro de 2003 | 17h30

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