REUTERS/Brendan McDermid
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K-pop: Conheça a fórmula do sucesso global

Refrões cativantes, uso inteligente das mídias e fãs dedicados tornaram o gênero sul-coreano um fenômeno

Marian Liu, Youjin Shin e Shelly Tan, The Washington Post

20 de julho de 2021 | 10h00


O K-pop - a música pop mainstream da Coreia do Sul - tem uma receita particular para criar sucessos globais. O ingrediente principal - o refrão que gruda nos ouvidos - vem combinado com um movimento de dança característico, depois tudo é embrulhado num vídeo espalhafatoso. Todo o pacote é pensado para as redes sociais, onde uma base de fãs dedicados dá vida própria à música.

Esse método, que se baseia na música pop, na cultura da internet e num treinamento intenso, ajudou a fazer do K-pop um fenômeno internacional.

Muitas canções K-pop seguem o estilo clássico de composição: uma introdução e um verso que faz a ponte para o refrão. Essas “músicas-chiclete” enfatizam sua capacidade de grudar nos ouvidos por meio de dispositivos como a repetição, disse Dal Yong Jin, professor da Simon Fraser University. Simplificando: “Sempre tem essa parte grudenta”, garantiu o fã Jason Nguyen. “Você simplesmente não consegue tirar a música da cabeça.” É o caso de Tell Me, do grupo Wonder Girls, que liderou as paradas musicais coreanas quando foi lançada em 2007. Os versos repetitivos e o ritmo animado fazem um grude incrivelmente cativante.

“A música-chiclete virou um dos tipos mais populares do K-pop”, afirmou Jin, acrescentando que as estrelas e ídolos do K-pop se concentraram nesse tipo de música porque é fácil de memorizar e dançar.



Outra canção muito popular, Sorry, Sorry, do Super Junior, de 2009, também repete frases em inglês e coreano, facilitando para as pessoas cantarem junto, mesmo quando elas não conhecem o idioma.

Vídeos musicais no YouTube também ajudaram o K-pop a atrair fãs do mundo todo. Nguyen tinha apenas 8 anos quando viu pela primeira vez o videoclipe de Gee e ficou instantaneamente vidrado. Ainda não existia o conceito de meme, mas o vídeo está cheio deles - o clipe toca o hit do grupo Girls’ Generation contra o pano de fundo de uma história na qual manequins de vitrine ganham vida.

Nguyen, que agora codirige um grupo de dança K-pop na Universidade de Washington, disse que a dança sincronizada do vídeo, as roupas coloridas e os cenários intrincados o atraíram. “Você não vê nada disso na música pop americana.”

O apelo visual dos clipes do K-pop é universal. A coreografia, em particular, pode transcender as barreiras culturais, e é por isso que a maioria dos vídeos de K-pop trazem um movimento de dança característico. Como a dança do caranguejo em Gee ou a dança Up & Down do EXID, esses movimentos - chamados de point dances - são intencionalmente fáceis de imitar.

Lia Kim, uma coreógrafa que trabalhou com grupos como Girls’ Generation e Wonder Girls, contou que as gravadoras sempre solicitam especificamente coreografias que sejam fáceis de seguir. A natureza universal das point dances também as deixa mais fáceis para que os fãs as compartilhem como desafios de dança nas redes sociais.

Sua explosão no Twitter e TikTok, e até no jogo Fortnite, ajudou a expandir ainda mais o alcance global do K-pop. Na verdade, o vídeo de pré-estreia do mais novo single do BTS, Permission to Dance, foi apresentado como um desafio de dança com linguagem de sinais para “dance”.



“As danças da moda são o que fazem do K-pop o que ele é”, analisou a coreógrafa Sienna Lalau, que trabalhou com BTS, Jennifer Lopez e Missy Elliott, “porque nos lembra que, na nossa era do ‘conteúdo é o rei’, o movimento é tão importante quanto a música, de certa forma”.

As gravadoras de K-pop encontraram maneiras inovadoras de promover seu conteúdo globalmente. Uma de suas estratégias de marketing é abrir mão dos direitos autorais e lançar músicas e álbuns no YouTube ao mesmo tempo que ficam disponíveis para compra, disse Jin.

Em 13 de julho, dos 10 videoclipes com mais visualizações nas primeiras 24 horas, 9 eram canções dos grupos de K-pop Blackpink e BTS. A única música que não era K-pop era ME!, de Taylor Swift, no oitavo lugar.

Outros estilos pop asiáticos, como o pop japonês, tentaram entrar nos mercados globais, mas, como Jin apontou, o K-pop teve sucesso por causa do seu sincronismo com a tecnologia. Hoje, cerca de 90% das visualizações de vídeos K-pop no YouTube vêm de fora da Coreia do Sul.

“O K-pop é muito experiente no uso das redes”, lembrou Sun Lee, chefe de parcerias musicais do YouTube na Coreia e na China.

Uma das primeiras canções K-pop a aparecer nos EUA foi Gangnam Style, do Psy, em 2012. Musicalmente, a canção seguia uma fórmula semelhante às canções anteriores, com suas letras cativantes, suas danças características e seu vídeo deliciosamente ridículo. Mas seu sucesso trazia outro ingrediente importante: as redes sociais.

“Aquele vídeo foi uma espécie de visão inicial de como viralizar no YouTube”, revelou Kevin Meenan, gerente de tendências musicais do YouTube, que descreveu o vídeo como uma “bola de neve” na plataforma.

 


Gangnam Style se tornou o primeiro vídeo a ultrapassar 1 bilhão de visualizações no YouTube e ainda é o quinto videoclipe mais visto na plataforma. A música atingiu o número 2 na parada Billboard Hot 100, fazendo de Psy o segundo artista K-pop a entrar na parada (Wonder Girls foi o primeiro, chegando ao 76.º lugar em 2008.) 

O sucesso do Gangnam Style foi alimentado, em parte, por celebridades como T-Pain e Britney Spears, que compartilharam o vídeo do YouTube no Twitter, gerando milhares de retuites cada um.

“A popularidade global de Gangnam Style em 2012 foi desencadeada pela exposição em duas grandes plataformas: YouTube e Twitter”, disse YeonJeong Kim, chefe de parcerias globais de K-pop e conteúdo coreano no Twitter. “Antes do Psy (...) era um processo muito difícil para os artistas K-pop entrarem nos Estados Unidos”.

A década de 2010 marcou o início do crescimento do K-pop e Twitter. Hoje, a comunidade de fãs #KpopTwitter é o maior grupo de interesse compartilhado na plataforma. Só em 2020, havia quase 6,7 bilhões de tweets relacionados ao K-pop em todo o mundo. Para colocar esse número em perspectiva, nos primeiros seis meses da pandemia, houve 28% mais tweets sobre K-pop do que sobre covid-19.

E o interesse vem crescendo. Este ano, os usuários do Twitter postaram mais 1,4 bilhão de tweets sobre K-pop, um aumento de 23% em relação a 2020.

“O Twitter vem sendo chamado de ‘terreno sagrado do K-pop’”, observou Kim, não apenas por causa da forma como os artistas se envolvem com seus fãs, mas também pela maneira como os fãs interagem entre si.

O BTS, o primeiro grupo de K-pop a ser indicado para um Grammy, teve um grande impacto no crescimento do K-pop no Twitter, avaliou Kim. O grupo começou a tuitar antes de sua estreia oficial e usou a plataforma para ter conversas mais próximas com os fãs. Essa abordagem era inovadora em 2012, mas agora se tornou uma fórmula de sucesso para novos ídolos.

“Artistas como The Boyz, Stray Kids, Ateez, Tomorrow x Together (...) estão avançando para os palcos globais mais rapidamente do que as gerações anteriores”, ressaltou Kim, acrescentando que plataformas digitais como o Twitter desempenham um papel significativo no crescimento de novos fandoms.

Conforme os fãs usam as redes para vislumbrar a vida pessoal das estrelas do K-pop, eles se sentem mais conectados - e mais leais - a esses artistas, o que aumenta ainda mais o engajamento.

 



Os fãs coordenam o uso de hashtags específicas - uma tática chamada “ataque total” - para apoiar os artistas e espalhar a cultura do fandom. Por meio desses “ataques”, eles divulgam informações sobre tudo, desde o streaming de um vídeo no YouTube até participação em votações e comemorações de prêmios.

“Os fãs de K-pop são um dos maiores, mais organizados e mais rápidos grupos da internet”, informou David Kim, que tem um canal no YouTube que analisa a influência do K-pop. “Quando eles têm um objetivo comum a atingir (...) eles concentram seu poder de fogo até atingir o objetivo.”

Em maio, os fãs usaram esse poder de fogo para promover o último sucesso do BTS, Butter. O single teve mais de 108 milhões de visualizações no YouTube nas primeiras 24 horas, impulsionado em grande parte por conversas no Twitter. De acordo com YeonJeong Kim, do Twitter, os fãs tuitaram sobre o single mais de 31 milhões de vezes no dia do lançamento.

A música, que é inteiramente em inglês, subiu rapidamente para o primeiro lugar nas paradas Hot 100 e Global 200 da Billboard, marcando o quarto hit do BTS em nove meses e estabelecendo o septeto no mesmo plano internacional de artistas como Beatles, Jackson 5 e Justin Timberlake.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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