Jussara Silveira lança o CD <i>Entre o Amor e o Mar</i>

Mineira do sertão criada na Bahia eradicada no Rio, Jussara Silveira sabe hoje da necessidade vitalde estar perto do mar. Foi por isso, aliás, que a maranhenseRita Ribeiro se mudou para a capital fluminense depois dedecolar na carreira em São Paulo. Embora distintos, os novostrabalhos das duas cantoras convergem na evocação da rainha daságuas, Iemanjá, presente nas canções de Dorival Caymmi. Umterceiro vértice é o já comentado e bem-sucedido projeto deMaria Bethânia Dentro do Mar Tem Rio. Em seu quinto álbum, Entre o Amor e o Mar (MaiangaDiscos), imersa em contemplação, Jussara reflete sobre asrelações humanas numa região abstrata e infinda sugerida notítulo. Ao mesmo tempo é seu trabalho mais pessoal, "embora nãosinta ou viva exatamente o que diz a letra de cada canção",ressalva a cantora. "É também um olhar sobre o outro." Do ponto de vista estético, ela, que não faz nadafortuito, traça um roteiro que parte de voz e piano; na escalaseguinte acrescenta as cordas de uma harpa, que abre caminhopara o violão; e este depois se junta ao som de um banda deguitarra, baixo e bateria. Assim permanece na plataforma nuclear de onde, então, faz o caminho de volta descrevendo um círculo.Esse movimento sonoro acompanha o mapa autoral das canções, numpercurso de ida e retorno entre São Paulo e Bahia. Há paradas migratórias no Rio, onde também vivem osgaúchos Adriana Calcanhotto e Paulo Neves. São eles os autoresdas faixas centrais do CD, que se contrapõem, não por acaso.Enquanto Meu Coração Só (arranjada como se fosse para RobertoCarlos cantar) é uma reflexão sombria à beira-mar, À Contraluz (de Neves) é "solar, libertadora". "Tem uma coisa no roteiro eno encadeamento das canções que vão se complementando", dizJussara. "À Contraluz é como se fosse o próximo milagre sedando." Entre os compositores paulistas figuram Guilherme Wisnik Péricles Cavalcanti, Itamar Assumpção (1949-2003), Rômulo Fróes Ná Ozzetti e Luiz Tatit. Da praia baiana, comparecem o citadoCaymmi (a quem Jussara já dedicou um belo e exclusivo álbum),Roque Ferreira, Quito Ribeiro, Péri, Paquito; além do violonistae produtor do CD Luiz Brasil, com quem ela dividiu o trabalhoanterior, Nobreza (2005).Predominância de canções inéditas Há uma predominância de canções inéditas, uma consagrada(Morena do Mar, de Caymmi) e outra pouco conhecida, Oferenda(Itamar), que vincadas pela personalidade da cantora ressoamcomo novas. Jussara encontrou o eixo que procurava para oprojeto num encontro com Ná Ozzetti em Salvador, quando conheceua canção que deu título ao CD. Mas partiu de Guilherme Wisnik(co-autor com Vadim Nikitim da linda canção Só, que abre odisco) a frase-síntese de seu desígnio: "A nossa existência éinseparável do mar." "Não era para ser um disco temático, até porque é muitocomum falar de amor na canção brasileira", diz Jussara. "Mas,assim como o mar, é um tema atual e vasto." Esse atributo deamplidão associado à solidão interiorana na música de Wisnikencontra paralelo na obra de Guimarães Rosa, na qual o autor seinspirou e, curiosamente, remete a cantora a sua origem mineira.Sua vista, no entanto, também mira o além-mar. A densidade sem drama e a sutileza características davoz de Jussara novamente cruzam com o despojamento dos arranjosde Luiz Brasil, mas em padrão distinto de Nobreza. Apesar davariedade de estilos dos compositores, ela imprime naturalidadetanto no suingue do Recôncavo presente na Chula Cortada (RoqueFerreira), como na estrutura fragmentada da Oferenda deItamar; no balanço prazeroso da sinuosa Braço de Mar (QuitoRibeiro); nos diálogos fluentes com o piano de Marcelo Jeneci ecom o violão de Arthur Nestrovski no intimismo de Só e Rainha do Mar, respectivamente. Nos shows que planeja realizar no início de 2007,Jussara vai incluir o fado Barco Negro (Caco Velho/Pirati),clássico do repertório de Amália Rodrigues, que ganhou osubtítulo Mãe Preta no Brasil. Depois de enfrentar uma sériede obstáculos tentando a liberação do título original, Jussaradecidiu deixá-la de fora do CD, embora a tenha gravado. É umacanção simbólica da relação entre amor, mar, drama e ausênciaque abrilhantaria o conceito do álbum.

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