Junio Barreto, a nova refinaria do samba

Junio Barreto representa a nova refinaria do samba. Com um ótimo disco de estréia, que leva seu nome, ele vem fazendo um show que já virou cult em São Paulo. Agora canta no Blen Blen nas quartas-feiras de agosto, acompanhado de uma superbanda de seis músicos, incluindo a percussionista Simone Soul. Esse pernambucano de Caruaru, radicado em São Paulo há sete anos, acaba de ficar 25 semanas consecutivas no Grazie a Dio. Também ocupa lugar de destaque já freqüentado por Chico César, Lenine e Zeca Baleiro, entre as musas da MPB: Gal Costa canta Santana no CD que sai em setembro. O misterioso segundo álbum de Maria Rita também deve trazer alguma composição dele. Luciana Andrade (ex-Rouge) e Céu já reservaram espaço para ele. A pioneira e conterrânea Mônica Feijó volta a gravá-lo em novo CD. Em parceria com Vanessa da Mata, Junio está compondo para Maria Bethânia e recebeu pedidos de músicas de Ana Carolina e Daniela Mercury, entre outras. Grandes momentos do disco, como Qual É Mago, Se Vai Cair Deita de Vez, Amigos Bons e Oiê, se amplificam no palco e movem a platéia, num misto de samba, rock, soul, bossa nova e candomblé, além de porções de maracatu, aboio e drum´n´bass. O coquetel sonoro pode parecer confuso, mas resulta em suingueira irresistível. E Junio acerta a mão na receita com o suporte profissional de Alfredo Bello (baixo, moog, programações), que produziu seu disco. Além das canções de seu CD, no show ele mostra a inédita A Quem Glória Possa Ser, que estará em seu segundo disco, e recria obras-primas de Chico Buarque (Essa Moça Tá Diferente), Monsueto (A Fonte Secou e Me Deixa em Paz), Nelson Cavaquinho (Juízo Final), Geraldo Pereira (Sem Compromisso), Silas de Oliveira (Meu Drama). É tudo samba fino de autores que estão entre suas influências. E outras podem entrar no roteiro a qualquer momento. São canções que ele cresceu ouvindo no rádio do pai. Ainda moleque, Junio costumava subir no telhado da casa, onde improvisou uma antena para captar sons de outras bandas da Terra: Turquia, Japão, Arábia Saudita, Estados Unidos. Elogiado por conterrâneos ilustres, como Lenine e Lula Queiroga, Junio mantém contato direto com suas origens e assina parcerias com Otto e Ortinho, outro nome da nova geração a merecer crédito imediato. Sem saber tocar nenhum instrumento, como sua nova parceira Vanessa da Mata, Junio demora tempo para compor uma canção. Anota versos e idéias de letras, que surgem de ler e observar o cotidiano, e quando tem algo delineado repassa para músicos amigos darem formas sonoras. Sua maior preocupação é com as letras. Para isso lê muito, principalmente literatura brasileira e latino-americana: João Guimarães Rosa, Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto, Mário Vargas Llosa, Gabriel García Márquez. "Para escrever é necessário ler", alerta. Qual É Mago, de letra nostálgica, é sobre "qualquer saudade de qualquer situação", diz ele. A porção de melancolia presente no disco também ganha relevo na única faixa não assinada por Junio, a sublime A Mesma Rosa Amarela, de Capiba e Carlos Pena Filho, que ele valoriza com seu belo timbre. Um dos fatores que fazem de seu trabalho algo incomum, aliás, é o fato de ter uma pegada firme no ritmo sem perder a ternura jamais. Junio Barreto - Blen Blen (580 lug. R. Inácio Pereira da Rocha, 520, Pinheiros, 3815-4999. Quartas-feiras, 23h. R$ 25. Até 31/8

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