Juliane Banse interpreta composições míticas de Strauss

"E minha alma, desprotegida, vai agoraflutuar livre, para viver no círculo mágico da noite profunda."Foi nos anos 40 que o compositor Richard Strauss começou atrabalhar em canções a partir deste e de outros textos do poetaalemão Herman Hesse. A princípio escritas para sereminterpretadas individualmente, elas foram reunidas em um cicloapós a morte do compositor. Nasciam assim as Quatro ÚltimasCanções, que se transformaram em obras míticas dentro dorepertório das grandes sopranos do século 20. Razões paratamanho fascínio? "São peças extremamente especiais, a união dostextos com a música fala direto aos nossos corações", diz asoprano alemã Juliane Banse, que as interpreta quinta, sexta esábado na Sala São Paulo ao lado da Osesp e sob regência deChristoph Poppen. "São as últimas obras escritas por Strauss que nelas, nos faz olhar nos olhos da morte, mas sem que tenhamosmedo dela", diz o maestro.Destaque da geração Juliane, aos 37 anos, é uma das mais destacadas sopranosde sua geração. A pouca idade nada tem a ver com o currículo quejá conta com gravações preciosas de canções de Schumann eSchubert, além de óperas de Mozart, Wagner e Strauss. "Desde quecomecei a cantar imaginava o dia em que interpretaria essascanções", diz ela. "Mexe muito comigo saber que Strauss asescreveu pouco antes de morrer e que, ainda assim, elastransmitem tanta paz. Depois de compor peças fortes, agressivasaté, como Electra, ele volta a uma linguagem totalmenteromântica", afirma. Mas, Juliane ainda não gravouessas canções.Aluna da meio-soprano alemã BrigitteFassbaender, Juliane herdou da mestra o carinho com o repertóriode canções. "Sempre quis ir de um gênero a outro, das cançõespara a ópera, os oratórios e assim por diante. Mas ela fez comque, desde cedo, eu me dedicasse às canções e as interpretassesempre que possível. Foi o melhor que me poderia ter acontecido.Canto de tudo, mas acabei desenvolvendo uma relação especial comas canções."Marca da época Juliane diz conhecer muitas das gravações da obra - enão são poucas as sopranos que se arriscaram a gravar ao longoda segunda metade do século 20. Cita nomes como Lucia Popp, SenaJurinac, Elisabeth Schwarzkopf. Mas alerta que, na busca por suavisão da obra, não adianta querer copiar o que as grandesintérpretes fizeram, o que é mais comum do que se pode imaginar."Cada época tem um gosto especial, uma marca. Os cantoreslíricos de hoje são diferentes daqueles de 50 anos atrás. Avisão da música mudou: a indústria de gravações criou no públicoum nível muito alto de expectativa. E hoje você precisa estarmuito mais preparado. Mas a técnica, o fraseado, o cuidado com avoz ao longo da carreira, enfim, o básico - tudo isso podemosaprender com o exemplo das gerações mais antigas. É uma condiçãonecessária, acredito, para que cada um possa encontrar a própriamaneira de interpretar determinada obra."Strauss e Mahler O programa dos concertos desta semana da Osesp coloca aolado das canções de Strauss a Sinfonia n.º 5 de Gustav Mahler.Unir os dois autores é, antes de mais nada, fazer justiçahistórica. Os dois atuaram na passagem do século 19 para o 20.Foi um momento de mudanças sociais, econômicas, políticas. O ecodelas, em partituras, foi a passagem do romantismo para avanguarda que virou de cabeça para baixo, nas primeiras décadasdo século 20, a nossa percepção da música. Strauss e Mahler, porseus vínculos com a música do passado e pela tentativa deindicar novos caminhos, são o elo entre as duas épocas. Não poracaso, o "fim" é uma constante em suas obras. E, daí para apresença da morte, é um pulo. "O período em que viveram émarcado por emoções muito fortes e concretas", diz o maestroPoppen. "E, no caso destas duas obras, a morte desempenha umpapel fundamental. Strauss se aproxima do próprio fim de maneiramuito tocante, repleta de paz. A música se molda à poesia damaneira mais perfeita, combinando as belas linhas vocais a umaorquestração sinfônica. Mahler era mais irônico, cínico talvez.Mas na Sinfonia n.º 5 ele também sugere, o que é pouco usual emsua obra, um caminho que parte da escuridão em direção à luz."´Morte em Veneza´ Escrita entre 1902 e 1904, a sinfonia tem um dos trechosmais famosos do autor, o Adagietto, usado na trilha do filmeMorte em Veneza, que o cineasta italiano Luchino Viscontidirigiu a partir do livro de mesmo nome do escritor alemãoThomas Mann. "A sinfonia começa com uma marcha fúnebre que nosleva aos mais escuros e tristes recantos da emoção humana. Etermina com a mais alegre expressão de felicidade que podemosimaginar musicalmente. Entre os dois extremos, temos 70 minutosde música que nos põem em contato com quase toda emoção possívelE a conclusão parece ser a de que é importante ter consciênciada beleza da vida apesar da iminente presença da morte",completa Poppen. Juliane Banse. Sala São Paulo (1.501 lugares). Praça JúlioPrestes, s/n.º, (11) 3337-5414, metrô Luz. 5.ª e 6.ª, 21 h; sáb. 16h30. R$ 25 a R$ 89

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