EFE/Esteban Garay
EFE/Esteban Garay

Julian Casablancas vem ao Brasil sem o Strokes para se divertir e confundir

Acompanhado do projeto com a banda The Voidz, com o qual tocou no Lollapalooza de 2014, músico leva as guitarras por viagens jazzísticas

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2017 | 06h00

Julian Casablancas sorria, lá do alto do palco, enquanto o público, embaixo, sob o sol, encarava o vocalista do The Strokes com um sinal de interrogação em vez das habituais expressões de alegria. Ao lado do vocalista não havia nenhum outro integrante da banda de Nova York que comandou a última revolução das guitarras na virada do século. Jules Fernando Casablancas estava rodeado de seus novos parceiros, o grupo The Voidz, e o som produzido por eles no palco estava a quilômetros de hits perfeitos para pistas indies até hoje, como Last Nite e Reptilla. Era confuso. E isso divertia o roqueiro à beça.

“É um dos meus momentos favoritos de um show”, disse ele, depois da apresentação naquele Lollapalooza 2014, no fim da noite de sábado, à reportagem, ao explicar o sorriso que não conseguia disfarçar – seja durante a performance, iniciada às 18h, ou seja depois dela, como na entrevista, realizada um par de horas depois. “Gosto de ver as pessoas tentando entender o que está acontecendo no palco.” 

O Strokes se tornou pop. A guitarra entrou na moda. As jaquetas de couro, os cabelos com aspecto ensebado e as calças jeans justas, por vezes rasgadas, se tornaram parte do “look do dia” daqueles entendidos nas tendências fashion. O Voidz é a resposta de Casablancas a tudo. É antimoda, é antifashionismo, é antipop. É, essencialmente, um grito. De liberdade, de provocação, de petulância. Como se o rock star de outrora, berrasse, ao microfone: “É a mim que vocês querem? Então, fiquem com isso”. 

É tudo o oposto – e, acredite, é proposital. As roupas são largas e sobrepostas de forma desleixada, provocadora. Os tênis agora são mais próprios para uma partida de basquete, com canos altos e largos, do que para uma apresentação. Os cabelos estão cada vez mais mal cortados – às vezes, a impressão é a de que um aparador de grama talvez fosse capaz de fazer um trabalho melhor. 

É compreensível, a combinação toda parece confusa. Mas é, acima de tudo, divertida. Porque Casablancas poderia se deitar no berço de ouro que sempre teve – é filho de John Casablancas, o fundador da agência de modelos Elite Models, morto em 2013 – e que aumentou graças ao sucesso do Strokes. Preferiu criar uma nova persona artística, uma nova forma de compor, rodeou-se de novos amigos. Tudo no oposto, embora ainda guiado pela mesma força da guitarra. 

O Voidz é arrojado no discurso. Com ele, Casablancas não fala mais sobre as noitadas, sobre ressacas e relacionamentos falidos. Sua mira agora aponta para o consumismo, a modernidade e a fragilidade das pontes construídas entre as pessoas. Busca referências oitentistas para seus videoclipes – que parecem perfeitos para serem assistidos em aparelhos de VHS, se hoje eles fossem encontrados com facilidade. De alguma forma, ele soa nostálgico. De um tempo pré-Strokes, de uma época com mais brilho, com bolas de espelho no teto das boates e toneladas de sintetizadores nas canções de Tyranny, o disco de estreia do Voidz, lançado naquele mesmo ano de 2014. 

E, vamos combinar, Julian Casablancas nunca foi um bom showman. Sua força não estava nas apresentações ao vivo. Com o Strokes, as luzes costumam ser tão escuras e ele se mantém tão escondido atrás do microfone e debaixo de um boné de caminhoneiro e de uma franja, que é quase impossível vê-lo. Com o Voidz, dispensou até os óculos escuros. Encarou a plateia de rosto exposto. E sorriu, sorriu um bocado. Isso, talvez, tenha um valor maior, não? 

CASABLANCAS + THE VOIDZ

Cine Joia. Pr. Carlos Gomes, 82, tel. 3101-1305. 4ª (18), 22h15.  

R$ 160. Com Rey Pila (20h45) e  

Promiseland (21h30)

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