Marcos Hermes
Marcos Hermes

Júlia Vargas rompe o círculo vicioso do canto brasileiro moderno

Apontada por Milton Nascimento, Ivan Lins e Ney Matogrosso como uma das promessas da nova música brasileira, cantora de Cabo Frio (RJ) chega ao terceiro disco, 'Pop Banana', deixando de ser uma promessa e materializando-se como uma viabilidade da grande voz

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2017 | 05h54

Uma voz sai da terra pisoteada por padrões estabelecidos e timbres reprocessados e desponta como uma ilha no oceano. Júlia Vargas é seu nome. Olhos claros, cabelos loiros, 1,65 metro, 29 anos, nascida em Cabo Frio (RJ), suas vitórias vinham como se a preparassem para algo maior. Ivan Lins abriu as portas de casa presenteando-a com uma música inédita, gravada em 2012. Milton Nascimento a colocou para cantar a seu lado na turnê Travessia e, com ele e o rapper Criolo, nos shows de Linha de Frente. Ney Matogrosso foi para o estúdio dividir vozes na inédita Pedra Dura. Ainda assim, seriam todos meros padrinhos se um passo maior não fosse dado depois de seu primeiro disco. Júlia Vargas era ainda apenas uma possibilidade.

Pop Banana a torna real. Um álbum de alta produção e arranjos cuidadosos, guiado por um raro canto grande em um mundo de vozes em fio, com brilho e domínio das muitas cantoras que parecem viver ali. A direção musical e a produção são suas. Além de dividir o tango estilizado Pedra Dura com Ney, Pedro Luís canta em Pulmão. Entre suas escolhas estão João Bosco e Aldir Blanc (Cumadre), Jorge Mautner e Nelson Jacobina (Samba Jambo) e Tom Zé (Mã). Os novos cariocas são Claos Mózi (que assina três canções), os irmãos de Julia, Ivo Vargas e André Vargas (Pedra Dura), Carlos Posada (Pulmão), Vitor Lobo (Eva Maria, com Mózi) e Marcos Mesmo (A Vida Não É Sopa).

Da bailarina dos pas de deux pelo Teatro Municipal do Rio e pela companhia de Deborah Colker ao lançamento de seu segundo e mais orientador disco solo, com um próximo show marcado para 18 de julho, no Sesc Copacabana, Júlia Vargas construiu sua personalidade musical com rapidez. Ainda não era essa a Júlia de 2012, quando começou a chamar atenção dos círculos de seu meio, descobrindo em seu garimpo, por exemplo, a cantora e compositora paraibana Cátia de França. Memórias de berço indicam que a música veio antes, apesar de sua realização na dança ser quase definitiva. “Minha mãe era regente de coro e usava os filhos de cobaia. Íamos aos corais em que ela trabalhava como uma espécie de coro de reforço. Foi assim que eu aprendi.”

O canto tomou a dianteira pelas mãos do irmão, também intérprete, Ivo Vargas. “Eu comecei a ir aos bares para vê-lo e passei a participar de seus shows. Vieram os convites. Abri um espetáculo do Geraldo Carneiro e acabei entrando em coletivos, como a companhia de Oswaldo Montenegro.” Foi tudo rápido. Segura da própria voz, encarou um teste para entrar no grupo Nó Cego e acabou admitida no ato, desde que seguisse as orientações do músico Rodrigo Garcia. “Ele me disse que eu já estava na banda, mas que deveria pensar seriamente em fazer meu disco próprio.” Foi o que a levou ao primeiro álbum.

Foi também Rodrigo a ponte para que Júlia chegasse a outro ponto importante, as parcerias com o cantor Chico Chico, filho de Cássia Eller. A união rendeu muitos shows e o lançamento de um selo próprio, o Porangareté, que lança Pop Banana em parceria com a Biscoito Fino. Chico Chico foi um parceiro fiel, mas que eclipsava Júlia mesmo à sua revelia. Àquela época, jornalistas de música queriam saber mais sobre o filho recluso de Cássia Eller. As luzes chegavam a Júlia apenas de forma rebatida.

Era o caminho certo tomando forma. Com palcos rodados o suficiente para saber o que queria, a cantora desenhou seu projeto de voo solo e chamou a responsabilidade para o próprio microfone. Concebeu uma base fixa que entendeu como a espinha dorsal de seu disco, com Gabriel Barbosa na bateria, João Bittencourt revezando acordeom e piano e Marcos Luz no baixo. Os outros músicos seriam convidados especiais. Vieram nomes como o trompetista José Arimatéa, o rabequeiro Beto Lemos e o percussionista Marcos Suzano. “Eu buscava referências do Brasil e de sons que ouvia em casa desde sempre. Minha mãe apresentou os tropicalistas todos e senti a música africana que vinha da família negra de meus pais. Miriam Makeba (cantora sul-africana) se tornou minha diva maior.” Surge então na conversa um nome de passagem, aquele que cantora alguma quer citar sob pena de se ver comparada ou criar falsas expectativas. “Eu cantava as músicas de Elis com meu irmão, que fazia a voz do Milton Nascimento.”

Não há argumento capaz de amparar comparações entre as duas cantoras, por mais que Ivan Lins diga ser Júlia uma das fortes esperanças da boa música brasileira e Milton incensá-la como poucas vezes fez na vida, mas um contexto em comum pode ser mencionado. A música brasileira vivia dias de vozes para dentro quando a gaúcha chegou ao Rio de Janeiro, em 1964. Sua imagem em cena, como se revivesse a então ultrapassada Era do Rádio desde a chegada da bossa nova, causou espanto e escárnio antes da louvação.

O mundo é hoje muito mais pulverizado para se ter apenas uma corrente vigente em qualquer esfera artística, mas a reprodução do canto pequeno, de extensão limitada em poucas oitavas e que opera em zonas de conforto previsíveis, se tornou um forte paradigma. Grande parte das cantoras deixou, ou jamais experimentou, o ato de se arremessar nas angústias ou nos êxtases da alma que elas mesmas evocam porque aprenderam a cantar assim. O menos é mais, ou o chamado minimalismo, como se valesse para toda interpretação, se tornou regra e pariu uma ou duas gerações de cantos envernizados. É isso o que Júlia consegue quebrar com sua música – mas que comentários como esse em jornais não contaminem sua humildade. “Eu gostei muito do que ouvi de minha mãe. Depois de escutar o disco, ela me disse que eu havia conseguido traduzir todas as vozes que eu havia escutado na vida.” 

 

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