Leo Aversa
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Joyce Moreno reafirma talento à prova do tempo em álbum primoroso

'Palavra e Som' traz, em 13 canções, a levada rítmica arrebatadora da mão direita e a concepção harmônica em plena forma da esquerda

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2017 | 06h30

Havia algo naquela mão direita que não poderia ser de Joyce. Afinal, observavam os músicos da época, mulheres não tocavam assim. Mas mulheres também não compunham assim e, quando o faziam, jamais usavam o feminino assim. Ainda supondo que usassem, poucas desafiavam os homens com tanta audácia, mais ou menos assim: “Oh venha me aprender / ser tudo o que já sou / Fazer o que faço no mesmo espaço em que você me achou / Cuidar do nosso lar, criar os bacuris / Botar cama e mesa, mas que beleza, venha ser feliz / Por mim já sei fazer o seu papel de cor / Já ganho o pão nosso de cada dia com o meu suor”.

Os versos são de 1981, da canção Meio a Meio, muito antes das correntes de afirmação ganhar as ruas. Joyce Moreno já havia estabelecido seu espaço desde 1968, ao lançar o primeiro disco, e se fortalecido em 1979, quando Essa Mulher, parceria com Ana Terra, foi gravada por Elis Regina. Seu novo disco, Palavra e Som, retoma o tema em momento oportuno em duas canções, mas é bem mais do que isso. O primeiro álbum autoral depois de Tudo, de 2014, reapresenta os dons de mãos direita e esquerda que fazem de Joyce um raro caso de inspiração de matriz bossa-novista contínua e inoxidável. Aos 69 anos, ela cria com esse frescor: “Ouve o silêncio do amor / Tão ensurdecedor / Que explode, cala, arrebenta / E a alma assustada nem tenta / Entrar nas masmorras do amor / Pedindo em seu favor / Que venha a revolução”.

Os versos agora são de 2017, de O Amor É o Lobo do Amor, de tons mais carregados que Joyce usa para falar do abuso doméstico. “Eu sou uma feminista da velha guarda”, ela diz. “Mas não gosto do anglicismo ‘empoderar’.” 

A bela O Poeta Nasce Torto foi o encontro com o parceiro que ela nunca teve. Torquato Neto, morto em 1972, deixou anotações que revelavam sua vontade de trabalhar com Joyce. Ao revirar o material do poeta para um documentário, o cineasta Marcos Fernando encontrou uma lista de projetos escrita por Torquato. Dentre tarefas como fazer músicas para outros intérpretes, havia o desejo de compor um “rancho com Joyce”. “Acho que ele pensou em uma marcha rancho.” A letra que ganhou seus acordes é uma carta poema escrita a Ronaldo Bastos, em 1969.

Joyce assume letra e música em quase todas as 13 canções. Além de O Poeta, há parcerias em Dia Lindo (com João Cavalcanti, do grupo Casuarina) e Casa da Flor (com Paulo César Pinheiro). Dia Lindo tem a voz de violoncelo de Dori Caymmi, com a alma deitada em cada nota, e a bossa jazz Mingus, Miles e Coltrane é sua bem-humorada declaração de identidade, a revelação das fontes que se liquidificaram aos sambas de Noel e às harmonias de Tom para formar sua personalidade: o baixista Charles Mingus, o trompetista Miles Davis e o saxofonista John Coltrane. Aqui, uma boa chance de saber de Joyce de onde vem a levada de sua mão direita, da qual tanto se fala e se ouve em Palavra e Som. “É coisa do meu professor, Jodacil Damaceno, que também deu aulas a Guinga e Rosinha de Valença. Ele fazia a gente usar dedos que normalmente não usamos na direita, como o anelar e o médio. Por ele, eu teria virado uma violonista clássica.”

Mais tarde, Joyce escreveu ao repórter que tinha uma roseira na mão direita. Fez silêncio e voltou logo depois, para desfazer a curiosidade jornalística enviando um áudio de sua voz cantando uma canção popular: “A mão direita tem uma roseira, a mão direita tem uma roseira / Que dá flor na primavera, que dá flor na primavera”.

‘Sinto como se fizesse propaganda enganosa do meu próprio país’

Homenageada no mundo, Joyce Moreno diz sentir-se como se cantasse um país que, na prática, não existe

Um estranho sentimento de que algo não está certo. Muito estranho, mas é o que Joyce pensa quando é homenageada no exterior como uma das artistas que melhor divulga a imagem de seu país no mundo. “É como diz o Dori Caymmi, me sinto como se estivesse fazendo propaganda enganosa”, ela diz. “Cantamos um Brasil que não existe.”

Sem uma agenda regular de shows em seu próprio país, Joyce segue recebendo homenagens que a reconhecem como uma das maiores criadoras da música moderna. Em 2004, recebeu nos Estados Unidos o Lifetime Achievement International Press Award, concedido justamente a quem divulga a boa imagem do país no exterior. Antes disso, em 2001, havia recebido a chave da cidade de Johnstown, na Pensilvânia, entregue pelo próprio prefeito. Mais recentemente, em 2015, foi homenageada pela Câmara dos Vereadores de Boston e pela Assembleia do Estado de Massachusetts durante viagem para falar aos estudantes de música da Berklee College of Music.

No próximo mês, ela segue para o maior festival da Dinamarca, o Copenhagen Jazz Festival, e, em agosto, dedica-se a uma longa turnê nos Estados Unidos, que começa em Seattle e termina no Blue Note de Nova York. De lá, embarca para uma séries de shows no Japão. E está tranquila. Em 2016, a embaixadora cruzou o Atlântico sete vezes entre fevereiro e dezembro

 

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