Joyce e João Donato juntos no Mistura Fina

Joyce e João Donato se conhecem desde os anos 60. Ela conta que resolveu fazer música por ouvi-lo (e a Tom Jobim). Ele lembra que alguém lhe deu um disco de Joyce. "Achei bonito, moderno, sofisticado", diz. Os dois foram apresentados nos anos 80, mas só viraram cúmplices no ano passado, quando Joyce gravou Tudo Bonito, tendo-o como convidado especial. Em retribuição, o pianista a convidou para participar de seu show na Blue Note, de Nova York, em julho. A troca de gentilezas continua sexta e sábado, com a apresentação dos dois, no Mistura Fina, casa debruçada sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul."Agora é o contrário, ele é meu convidado. Começo com minha banda, tocando músicas do Astronauta, disco meu lançado aqui antes de Tudo Bonito, e o Donato entra na segunda parte, quando fazemos algumas músicas dele", adianta Joyce. "Essa nossa parceria já vinha sendo ensaiada havia muitos anos e, apesar de termos personalidades musicais bem diferentes, deu certo. Ele tem um suingue mais latino, minimalista, enquanto eu sou o que as pessoas estão chamando de hard bossa. Mas o Donato também gosta muito de centrar, ou seja, segurar a harmonia quando toca com outras pessoas."Mas Donato não gosta de acompanhar outros músicos ou cantoras, a não ser em casos especiais. E, no entanto, rasga seda para Joyce. "Gosto do jeito como ela toca violão, com um espírito jazzístico, improvisado, que é raro entre os brasileiros. Quando tocamos juntos, é uma das poucas vezes em que piano e violão combinam", diz ele. "Nossos estilos são diferentes, mas não conflitantes, antagônicos; andamos na mesma direção." O fato de ter influenciado Joyce não é muito levado em conta por Donato. Não por modéstia, até porque ele já ouviu isso de medalhões da música brasileira, como Ivan Lins e César Camargo Mariano. "É natural que umas pessoas tenham ascendência sobre as outras. Minha música, por exemplo, tem muito de Jobim e Johnny Alf. Nos anos 50, a gente convivia muito, trocávamos idéias o tempo todo e um acabava assimilando o pensamento do outro", conta Donato. "Algumas vezes, essa influência era declarada, a gente compunha no estilo do outro, de propósito. Mas pode também surgir naturalmente, sem sentir." Quando se conheceram, nos anos 80, Joyce e Donato logo fizeram uma música, Prossiga, que ela gravou em Tudo Bonito. A parceria, no entanto, não foi adiante, e mesmo essa música ficou esquecida. Nenhum dos dois a gravou. Só no ano passado, quando a filha de Joyce, Ana, a incluiu num disco para mercado japonês, os dois se lembraram. "Sempre ficamos nos admirando, de longe, mas nossas agendas não se acertavam", explica Joyce. "Esse show de agora dura só dois dias porque temos outros compromissos. Em abril, devemos ir para São Paulo, mas não teremos condição de tocar juntos de novo até lá."Ao menos, tem muita gente torcendo para que eles se aproximem, toquem mais vezes. O disco Tudo Bonito surgiu por insistência do produtor japonês Kazuo Yoshida. Foi gravado no Rio, no fim do primeiro semestre do ano passado, e lançado no Japão e Estados Unidos em julho, na época em que João Donato convidou Joyce para participar de seu show na Blue Note. Quando Almir Chediak lançou o song book de Donato, Joyce fez um arranjo para Sambou, Sambou, sucesso dele dos anos 60, e, em dezembro do ano passado, na entrega do Prêmio Shell de Música Popular Brasileira, ganho por ele, o melhor momento do show foi quando Joyce cantou Bananeira e Lugar Comum (ambas de João Donato e Gilberto Gil).Agora, o Mistura Fina está abarrotado de reservas para os dois dias do show, apesar de eles se apresentarem com freqüência no Rio. A dúvida é saber qual dois dois atrai mais público. Joyce e João Donato trocam gentilezas até para responder a essa questão maliciosa. "Somos nós dois, juntos. O público vai lá para ver a combinação de nossas músicas", afirma Joyce. Donato dá uma gargalhada e não se faz de rogado: "É ela, com certeza, quem atrai mais gente para nosso show."

Agencia Estado,

25 de janeiro de 2001 | 17h24

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