Daniela Souza/ Estadão
Daniela Souza/ Estadão

Jovens e suas loucuras pelos ídolos

Chico Buarque agradeceu 'forcinha' de fãs

Renato Vieira, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2014 | 10h25

Eu tinha 24 anos, havia acabado de ser demitido do primeiro emprego e procurava um rumo na vida. Acho que minha idade naquela época era suficiente para saber - ou pelo menos achar que sabe - o que realmente vale a pena. Naquele 14 de novembro de 2011, 21h, saí de casa para comprar um ingresso que me consumiria pelo menos doze horas de fila, já que a bilheteria do Palácio das Artes, no centro de Belo Horizonte, abria a partir das 10h do dia 15. Não era um show qualquer. Era uma apresentação de Chico Buarque. Ele estrearia sua nova turnê na capital mineira.

Havia precedentes para que eu tomasse essa decisão, junto com minha amiga Alice (saudade, garota). Em 2006, ficamos de 8 às 18h na bilheteria do mesmo local para comprar ingressos da turnê anterior de Chico, Carioca. Havia três guichês funcionando, um deles apenas para idosos. Muita gente começou a furar fila, e os mais espertos abordavam senhores na rua para lhes comprar um ingresso. A malandragem pode ter morrido na Lapa, mas naquele dia ela estava vivíssima. O sol me tostou e eu consegui uma entrada para a periferia do teatro.

Na turnê Chico decidimos que tudo ia ser diferente. Meus pais protestaram um pouco, alguns amigos acharam que eu havia pirado, "não precisa disso tudo". Eu e Alice chegamos. Já havia 40 pessoas lá. Parecia festa. Gente tocando violão e dançando. Presenciei situações hilárias. Lembro-me de uma delas perfeitamente. Um mendigo bêbado chegou para a moça do lado e perguntou que fila era aquela. A moça respondeu, dizendo que as pessoas esperavam a bilheteria abrir para comprar os ingressos do Chico e ele disse: "Não sabia que o Chico Buarque já estava merecendo filas igual às da Ivete Sangalo no Mineirão. Ela vai cantar com ele, né?".

Nunca me esqueci das pessoas que estavam ali, apesar de não me lembrar do nome de algumas . Fiquei bem próximo da Alice (homônima da minha amiga), da Bruna, da Lorena, do Flávio. Este teve uma ideia. No dia do show, iriamos fazer uma "abertura", indo pra frente do palco e cantando antes do Chico. Fiquei com vergonha, mas fui. Quando há 20 pessoas pagando mico uma a mais não faz diferença.

Houve o show, fomos tietar os músicos. E eu achei que Chico tinha que saber que a gente existia. Propus fazer uma carta e deixar no hotel onde os músicos estavam, em frente ao Palácio. Escrevi, todos aprovaram e assinaram. Deixei um e-mail, vai que teria uma resposta. E teve. Quase um mês depois, ele respondeu, dizendo que tinha ficado comovido com nosso "show", além de ter citado nominalmente os signatários, mandando beijos e abraços.

Valeu a pena ter feito tudo isso. É algo que não posso fazer mais hoje, não só por conta da falta de tempo e de morar em outra cidade, mas também pelo profissionalismo. O "encontro" com Chico aconteceu antes de que eu achasse o rumo na vida e no qual pretendo permanecer. Ao mesmo tempo em que não entendo como fãs acampam há um mês para ficar perto de Demi Lovato, penso pela cabeça delas que pode ser a chance de elas ficaram perto de quem admiram. E talvez isso só aconteça uma vez.

Tudo o que sabemos sobre:
Chico Buarque

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.