Arquivo/Estadão
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Jovem Guarda, aos 50 anos, ainda espera pela absolvição

Ainda considerado por muitos como um subproduto de 'alienados' da década de 1960, gênero que comemora 50 anos hoje começa a ser reavaliado

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2015 | 03h00

Na fila da absolvição há 50 anos, a Jovem Guarda deve ser a próxima a ser atendida. Os injustiçados pela história, vítimas de contextos que o tempo desbota até que se tornem irrelevantes, já foram absolvidos de seja lá o que podem ter feito artistas em carne e osso ou em memória, como Wilson Simonal, Odair José, Wando, Sidney Magal, Ronnie Von e Guilherme Arantes. Outros, como os sertanejos, os sambistas românticos e mesmo a cena da axé baiana dos anos 1990, andam com o processo para os pedidos de perdão e a subsequente purificação de suas almas aberto.

A Jovem Guarda é um caso ainda mais sério por se tratar de um coletivo vítima de genocídio cultural praticado pela crítica, pelos acadêmicos e pela própria classe artística. Em anos de regime ditatorial e de afirmação de uma linguagem musical brasileira dominante e contestadora, todos foram dormir de cabeça quente na noite de 22 de agosto de 1965 – há exatos 50 anos – dia em que a TV Record anunciou a estreia do Programa Jovem Guarda.

O auditório da Record, na Rua da Consolação, sediou o escândalo. Erasmo Carlos, chamado para apresentar o programa, disse que só toparia se a direção trouxesse também um amigo seu do Rio de Janeiro, um cara calmo, mas muito bacana, chamado Roberto. As mulheres ao lado dos homens eram praxe nas receitas de sucesso dos programas de auditório, a exemplo do que Elis Regina fazia no Fino da Bossa com Jair Rodrigues. Assim, depois de algumas tentativas que incluíram até a comportada Celly Campello, chegou-se ao nome de Wanderlea.

Dois ou três programas depois e a terra já tremia. Um recorde de audiência colocava três milhões de pessoas na frente dos televisores em dias de programa. Botas, jaquetas, saias e bonecas passaram a ser comercializadas em escala industrial com o selo JG. As maiores vendagens de discos eram atingidas desde a chegada das companhias ao Brasil. E começou então o bombardeio das forças aliadas.

Uma passeata saiu pelas ruas de São Paulo, pedindo o fim das guitarras elétricas na música brasileira. À frente, de braços dados, iam Gilberto Gil, Edu Lobo, MPB4 e Elis Regina. Os “alienígenas” tinham de ser combatidos. A música que faziam era qualificada de “lixo importado dos Estados Unidos”, as letras eram “vazias” e a atitude, indesculpavelmente alienante.

Como uma verdade encravada na história a golpes de marreta, tais acusações se cristalizaram por anos, até que os próprios artistas começaram a se defender, algo que nunca fizeram na época, e suas histórias passaram a ser reavaliadas. “Não acho que eram alienados até porque falavam com um público muito jovem. Eles cantavam para uma plateia com crianças de 12, 13, 15 anos, pessoas que não viam o Jornal Nacional, que não tinham internet, que eram muito mais ingênuas do que os adolescentes de hoje”, diz Marcelo Fróes, produtor e autor do livro Jovem Guarda em Ritmo de Aventura, lançado em 2004.

“A ditadura que vivíamos era dentro de nossas casas. Não éramos politizados, como uma criança não poderia ser”, disse Wanderlea em entrevista ao Estado, em março de 2014. Erasmo, também em entrevista ao Estado, analisou o perfil dos artistas: “Ao contrário do público e dos cantores da MPB, muitos deles universitários, filhos da alta sociedade, com pedigree, nós da Jovem Guarda não tínhamos escolaridade nenhuma. Minha mãe veio grávida da Bahia até o Rio sozinha. O único jornal que havia em casa era o Jornal dos Sports”. Quer dizer então que vocês eram mesmo alienados? “Depende do que você chama de alienado. Podemos ter contribuído para a liberdade dos jovens mais do que muitos cantores da MPB. Caetano Veloso já disse que Quero Que Vá Tudo pro Inferno fez mais pelo País do que qualquer canção de protesto daquela época.” 

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