GUALTER NAVES | LIGHT PRESS
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Jota Quest lança ‘Pancadélico’, o oitavo e festivo disco da carreira

Prestes a completar 20 anos de carreira, banda mineira deixa a simplicidade nortear as suas composições

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

20 Novembro 2015 | 04h00

BELO HORIZONTE - Rogério Flausino, vocalista do Jota Quest, se encosta em um banco vermelho, logo à entrada do estúdio no qual ele e banda conceberam Pancadélico, o oitavo disco de uma carreira prestes a completar duas décadas de existência. De olho no smartphone, ri sem parar. Na tela, o vídeo mostra um homem, talvez bêbado, cambaleando ao som de um berimbau de capoeira. “Isso aqui é o dia inteiro”, diz ele, entre as gargalhadas. 

O estúdio e quartel-general construído pelo grupo em 2007, no Belvedere, tranquilo bairro da zona sul de Belo Horizonte, é próximo da casa de cada um dos cinco integrantes da banda, mas eles vão chegando aos poucos. Começaram nesta semana a divulgação massiva do novo disco, trabalho lançado oficialmente nesta sexta, 20, embora o primeiro single, Blecaute, já pudesse ser ouvido desde a sexta da semana passada, com participações de Anitta e do fenomenal guitarrista Nile Rodgers (cujo currículo vai desde o Chic a Madonna e David Bowie). 

Quando enfim se senta para o papo com o Estado, Flausino já está acompanhado por Marco Tulio Lara (guitarra) e Paulinho Fonseca (bateria). Márcio Buzelin (teclados) e PJ (baixo), restante do quinteto, aparecem na sala do estúdio pouco tempo depois. “Banda grande, né? Juntar cinco pessoas no mesmo lugar é difícil”, brinca o vocalista. 

Desde o álbum La Plata, lançado em 2008, o Jota Quest grava seus discos no próprio estúdio. Há a facilidade de se trabalhar próximo de casa – principalmente para uma banda como a mineira, cuja agenda de shows inclui apresentações em praticamente todos os fins de semana. “Gravávamos La Plata enquanto os pedreiros passavam para lá e para cá”, lembra Flausino. “Todo mundo mora por aqui, é muito mais fácil”, explica Fonseca. Flausino completa: “Até já pensamos em fazer um retiro em algum lugar, para gravar. Mas, sabe como é, não deu tempo”. Lara complementa: “É, vai falar para as nossas esposas que vamos passar um mês na praia, fazendo um retiro com a banda”. Todos riem. O clima festeiro do novo disco, assumidamente black e pop, é um reflexo da relação dos cinco. 

Curiosamente, foi o álbum que inaugurou um hiato de cinco anos sem discos de inéditas, o maior da história da banda, só interrompido por Funky Funky Boom Boom, de 2013. “Tentamos gravar, mas naquela época não deu liga”, diz o guitarrista, sobre a época. O Jota Quest comemorou os 15 anos de carreira, então, com uma coletânea, chamada Quinze. “E ficamos comemorando esses 15 anos por dois”, brinca o vocalista. Funky Funky Boom Boom inaugurou uma nova fase do grupo, prolífera, cujo novo fruto foi gravado de forma rápida, em poucos dias no estúdio da banda. 

Não havia pressa, contudo, como a experiência de tentar gravar o sucessor de La Plata na marra mostrou. “Lembro que, no fim do ano, decidimos antecipar um pouco as coisas”, conta o vocalista. O plano era gravar Pancadélico no segundo semestre deste ano. O lançamento, quiçá, seria em 2016. “Ligamos para o Jerry (Barnes, produtor de ‘Funky Funky’ e do novo álbum). Perguntamos se ele poderia vir em março. Ele pode. E assim seguimos.” 

Diferentemente do antecessor, Pancadélico não teve bases criadas antes dos 10 dias do produtor em Belo Horizonte. Cerca de 80% do material do álbum foi criado ali, naquela primeira dezena de dias na companhia do produtor, na sala da mesa de som, a mesma usada para a entrevista. Barnes era rigoroso com o tempo no estúdio. Começavam às 14 h e trabalhavam até as 22 h. “Às vezes, virávamos a madrugada, em outras não”, relembra Buzelin. 

Pancadélico não tenta soar mais complexo do que é a essência do Jota Quest. “Tudo bateu certo. Fluiu muito bem. Quando as coisas acontecem assim, é tudo muito simples”, explica o baixista. Em tempos sombrios, no cenário nacional e internacional, a banda assume a função de trazer a leveza dos bailes black para o pop rock contemporâneo. “Nossa expectativa é ver as pessoas entendendo a nossa proposta. É um disco para divertir, entende? Não tem muito o que ficar pensando, não”, explica Flausino. “É para se jogar, mesmo.” 

Participações trazem tempero para a festa black 

A distância dos estúdios, em um intervalo entre 2008 a 2013, fez bem ao Jota Quest. Funky Funky Boom Boom interrompeu o silêncio – na sala de gravação –, já que a banda não deixou de fazer shows. Assumidamente cheio de groove, o álbum marcou um posicionamento da banda. A black music sempre esteve no restante dos álbuns, como o norte ou tempero perseguido pelo quinteto mineiro. Desde 2013, contudo, ficou escancarada. 

São liberdades de uma banda, prestes a completar 20 anos de carreira. Pancadélico, nome adotado em uma referência ao icônico grupo de funk Funkadelic, do genial George Clinton, é mais um passo em direção ao posto de maior representante do gênero no País, na atualidade. Soa contemporâneo, mesmo que algumas referências já tenham mais de 40 anos. 

O Jota Quest não foge do pop, contudo. E, como integrante do pouco que restou de música mainstream após a crise da indústria, não faria sentido deixar o apelo radiofônico de lado. Anitta, maior nome da música popular hoje, participa do single sacolejante Blecaute. Ainda assim, na mesma faixa, traz sua grande referência: o Chic, banda emulada pelo Jota Quest quando nem sequer tinha repertório próprio, está em Pancadélico em carne e osso. Ou, neste caso, na guitarra do maior entendido quando o assunto é a disco music, Niles Rogders.

Há uma bela homenagem a Tim Maia, mestre do soul brasileiro, em Mares do Sul. À sua maneira, o Jota Quest segue seu caminho. E na linha evolutiva da black brasileira, Pancadélico faz por merecer seu espaço. 

 

* O REPÓRTER VIAJOU A COVITE DA BANDA 

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