Joshua Redman vem ao Brasil mostrar novo álbum

Joshua Redman está afônico. Parece William Hickey falando em A Honra do Poderoso Prizzi, com aquele aparelho angustiante nas cordas vocais. "Desculpe pela situação", explica-se o saxofonista em entrevista por telefone, como se necessitasse de um esforço sobre-humano para pronunciar cada palavra. Ele tinha programado quatro entrevistas para o Brasil na quinta-feira, para discorrer sobre seu novíssimo disco Passage of Time. Mas falou apenas com a reportagem, durante 20 minutos. Depois, cancelou as outras conversas."Passage of Time tem, de certa forma, o sentido de marcar a passagem desses meus dez anos de carreira, mas é principalmente a descrição de um sentimento musical", explica Redman, de 32 anos, ganhador de dois prêmios Grammy e já bem conhecido do público brasileiro. O saxofonista volta aos palcos nacionais no dia 18 de abril para apresentação única no Bourbon Street. Chega com seu grupo habitual - ele, mais Aaron Goldberg (piano), Reuben Rogers (baixo) e Gregory Hutchinson (bateria). "O Brasil é um lugar de muita espiritualidade, um lugar de gente muito apaixonada e especial", diz Redman, que promete tocar músicas do seu novo disco e mesclá-las a clássicos do jazz como de hábito.Agência Estado - "Passage of Time" é referência ao fato de você estar envelhecendo ou a chave de uma pesquisa musical?Joshua Redman - Na verdade, trata-se de uma alusão a um processo, à dinâmica de viajar durante um processo, de atravessar o tempo, flutuar em um não-espaço. É, principalmente, a descrição de um sentimento musical.A segunda música do seu novo disco, "Free Speech - Declaration", soa como uma base de bossa nova. Estou certo?Não penso que seja realmente uma bossa nova. É uma canção que parte de diferentes e conhecidas sensações para obter um determinado resultado.Nas faixas "Before", que abre o disco, e "After", que fecha, parece que você busca incorporar a improvisação ao processo de composição. É isso?Sim, esse é um ponto. Improvisação e composição estão estreitamente relacionadas, para mim. Penso que 99% da minha música parte da improvisação e o melhor improviso é aquele instantâneo. A composição já é um processo de contar histórias musicais, relacionar os sons. Nós atuamos nesse disco como improvisadores do jazz, que é o que somos, mas também como um grupo de jazz. Enquanto tocamos, fazemos música, e a música surge dessas conversações musicais, é dali que ela adquire sentimento, direção e propósito. De qualquer modo, penso que Before é mais improvisada, é uma série de fraseados de abertura, e After é uma canção inteira, integrada em cada aspecto.Qual a diferença entre tocar suas composições e recriar standards como "Summertime", como você fez na última vez que esteve aqui, no Free Jazz Festival?De certa maneira, não há diferenças. Em ambas, é preciso improvisar, buscar o ritmo do jazz. O espírito é o mesmo, mas nas composições originais é tudo muito mais pessoal, tudo veio de mim. Isso permite uma melhor compreensão dos temas e de mim mesmo, de certa forma, dos meus sentimentos. A única verdade de uma composição é sua articulação nos sentimentos do executante.Atribuem a você grande parte da popularização que o jazz ganhou nos anos 90. Você concorda com esse juízo?Digamos que eu tenho tido mais sorte do que muitos músicos de jazz, que têm grande talento e não conseguem espaço para mostrar seu trabalho. Eu tenho tido espaço e sucesso nos últimos dez anos. Mas não acho que minha música seja mais ou menos popular por causa disso. Por outro lado, acho bom que tenha alcançado ressonância nas grandes platéias, porque o sucesso que eu tive pode ter ajudado a aumentar o interesse pelo jazz.O que pretende tocar nesses shows no Brasil?Vou apresentar músicas do meu novo disco e standards, músicas mais conhecidas. Vou com o grupo habitual, com quem gravei o disco e que já toca comigo há três anos. Minha carreira se desenvolveu em parte em idas e vindas ao Brasil e gosto muito do público daí. É um lugar de muita espiritualidade, de muita paixão.Joshua Redman Quartet - Dia 18 de abril. De R$ 50 a R$ 95. Bourbon Street (R. dos Chanés,127, tel. 5561-1843).

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