José Muniz Neto, o rei do show biz

Há 23 anos, ele negocia shows. Foium dos primeiros a agenciar a vinda de bandas internacionais aoPaís, no rastro do primeiro Rock in Rio. Em 1986, trouxe BillyPaul. Em 1988, trouxe o Jethro Tull. Depois, uma cascata deconcertos: Deep Purple, Black Sabbath, Yes, Megadeth, Uriah Heep, Asia, Bon Jovi, AC/DC, UB40, Depeche Mode, Pet Shop Boys, OzzyOsbourne, Eric Clapton, Kiss, Slayer, Suicidal Tendencies, RedHot Chili Peppers, Rush. E musicais também: Tommy, Kingand I e Carmina Burana (100 mil pessoas na Praia deCopacabana).O curitibano José Muniz Neto, de 44 anos, é hoje o maisdestacado produtor de espetáculos no País, atuando como diretorartístico da empresa mexicana CIE (Corporación Interamericana deEntretenimiento). Muniz é o Mr. Show Biz. Batalhou em temposheróicos e chegou a contabilizar feitos memoráveis - como terconseguido fechar, em 26 de julho de 2000, depois de umanegociação de 8 horas em Londres, a vinda dos Três Tenores aoBrasil.Muniz ocupou um espaço que durante muitos anos foi usadopor velhos tubarões do show biz, a velha-guarda, como ManoelPoladian e Marcos Lázaro. Poladian encolheu suas atividades,direcionando-as para o show biz nacional. E Lázaro tirou o timede campo em meados dos anos 80.A história de sucesso desse produtor começou meio poracaso. Nos anos 70, vivia em Brasília e matava aulas na escolapara ouvir discos de classical rock, como os americanos rotulamo segmento. "A rigor, foi muito mais uma coisa de feeling; euachava que tinha muita gente, toda uma geração, que ficou semoportunidade de ver suas bandas preferidas porque elas jamaispassaram nem perto do Brasil", lembra.Em 1979, montou um point famoso na cidade, a lanchoneteGiraffa´s e, como não existisse um promotor de shows na capital,acabou assumindo a função. Realizava noitadas com artistasnacionais, como Fagner, Robertinho do Recife. Foi quando viu umshow do Genesis no Ginásio do Ibirapuera e vislumbrou um novocampo de atividades.Aí começava sua atividade internacional. Realizougrandes festivais, como o Ruffles Reggae Festival, o Skol Rock equatro edições do Philips Monster of Rock. Dessa bagagem deanfitrião, conta histórias engraçadíssimas. Por exemplo: elegeucomo O Esquisitão o cantor inglês Jon Anderson, do Yes. "Tive de montar uma espécie de tenda budista comdefumadores especiais dos anos não sei quantos para ele fazersua aproximação espiritual com o cosmos", diverte-se.O Chatodo Século foi Lou Reed, "um pé no saco, sempre de caraamarrada". E a entourage do grupo Red Hot Chili Peppers ganhouo título de Parente é Serpente: destruíram a decoração doscamarins para pregar tapetes persas nas paredes. Os MaisSimpáticos foram os coroas canadenses do Rush. "O Geddy Lee éum boa-praça e adora um bom vinho."A fase dos festivais associada a patrocinadores fixos parece teracabado, diz Muniz. "Você sabe: os festivais são decididosdentro da esfera de marketing das empresas, e as empresas sãocomo as prefeituras, sempre mudam os homens de decisão",comenta. "Como a gente sabe, um prefeito recém-eleito nuncatermina a obra do outro prefeito, mesmo que tenha sido boa."Hoje, diagnostica o promotor, qualquer showinternacional com menos de 80% da capacidade (do teatro ouestádio) preenchida é prejuízo na certa. Além disso, o produtorbrasileiro - que tem de investir 20% do valor do projeto emmídia - tem uma carga tributária sobre os concertosinternacionais que chega a 57%.De qualquer modo, e apesar das turbulências, Mr. ShowBiz não pára. Qual o segredo de Muniz? Não tem nada a ver comcritérios frios e objetivos, como pesquisas e projeçõesmercadológicas. Se me perdoam o clichê, ele confia na suaintuição. E apostou em tendências que pareciam obsoletas àquelaaltura. Quando organizou o primeiro Monsters of Rock, só comdinossauros do rock pesado, sofreu para encontrar umpatrocinador."Numa reunião do conselho da Philips, o presidente dagravadora (Maynard, que também era do conselho) foi o único avotar contra a realização do festival; ele preferia que a gentetrouxesse o Brian Adams", conta, com ar divertido. "Ele nãocompreendia que o rock, àquela altura, já passava a ter umstatus clássico, uma música baseada em standards - o mesmostatus de que desfrutavam outros artistas populares, como FrankSinatra, Tony Bennett, Elvis Presley", considera.Muniz aprendeu com a experiência, que ensinou tambémalgumas idiossincrasias do mercado nacional. Por exemplo: emborao Brasil já tenha sido o 6.º maior vendedor de discos do mundo,os artistas internacionais que fizeram os shows mais lucrativosno País tinham vendagens ínfimas. "O Jethro Tull, por exemplo,tem vendagem ali pela faixa de 10 mil discos e lotou todos osshows por onde passava."Houve também elementos deflagradores desse novointeresse, como o Rock in Rio, que contribuiu imensamente paratornar o Brasil parte da rota internacional. "Não considero o(Roberto) Medina um promotor de eventos, mas o Rock in Rio foium marco em termos de show business", avalia Muniz. "O Medinaganhou muitos artistas apenas apelando com o charme do Brasil,do Rio de Janeiro, e foi bem-sucedido quando isso erapossível."E teve a Mills & Niemeier, que fez os antigos festivaisHollywood Rock - que acabou com o desinteresse do patrocinador.Depois disso, as empresas globalizadas, como a americana ClearChannel e a mexicana CIE, passaram a mandar no mercadolatino-americano."Essas empresas introduziram um novoestilo", afirma Muniz. "Elas iam aos empresários dos artistase compravam a turnê mundialmente, oferecendo muito dinheiro." OU2, por exemplo, vendeu sua turnê mundial por US$ 105 milhões, oque fez seu concerto no Brasil - completamente atípico - um dosmais caros da história do show biz nacional."Hoje em dia, trazer um artista para tocar só no Brasilnão paga, não dá", diz Muniz. "O Red Hot Chili Peppers só veioporque fez show no México, Venezuela, Costa Rica, Chile e Brasil, senão não teríamos como pagar", diz ele.E a megabanda canadense Rush só fez show no Brasilporque o patrocinador, a cervejaria Kaiser, garantiu o custo daprodução, afirma. De outro modo, seria inviável. Ele mostra suascontas: uma banda como o Red Hot Chili Peppers faz ingressos nomundo todo com preços médios de US$ 35. No Brasil, o preço médiofoi de US$ 12,50 e ainda assim quase metade dos espectadorespagariam meia-entrada, por conta da lei que beneficiaestudantes."O governo faz caridade com o chapéu alheio", ataca oprodutor. "O que acaba acontecendo é que nós somos obrigados arepassar o preço para o espectador normal e, em vez de ter umingresso de R$ 50,00, temos um de R$ 70,00.""Os custos são de Primeiro Mundo, nossa rentabilidade éde Terceiro Mundo", reclama. "Você investe e não alcançaretorno maior do que 10%."No vácuo das crises todas do dólar, pouca gentesobreviveu incólume. Muniz avalia que a melhor fase dosespetáculos internacionais foi nos primeiros três anos do PlanoReal. "Com a paridade da moeda, tivemos um pouquinho mais defolga, fazendo propostas mais competitivas", contabiliza.Em 1997, veio a recessão e a ressaca do Plano Real. E aArgentina quebrou, o que complicou ainda mais a situação. "AArgentina sempre subsidiou as operações do Brasil", conta. "Osargentinos chegaram a fazer cinco shows dos Rolling Stones nosestádios, pagando 70% da conta - o Brasil entrava de troco naturnê."Sua projeção de futuro é cautelosa, mas não alarmista."Em 2003, nós seremos bastante conservadores", prevê. "Porexemplo: não faremos mais shows só para preencher a programaçãode uma casa, indo para o risco total", considerou. O perigo éficarem as grandes casas de espetáculos, como o Credicard Hall(coisa que já acontece atualmente com o Via Funchal, porexemplo), sem programação durante boa parte do ano.

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