Andrea Comas/Reuters
Andrea Comas/Reuters

Jorge Drexler, um milongueiro cool

Uruguaio ganhador de um Oscar lança no Via Funchal seu novo álbum, 'Amar La Trama'

23 Julho 2010 | 06h00

Jotabê Medeiros

 

SÃO PAULO - Ir por aí/Como em um filme de Eric Rohmer/Sem esperar que algo aconteça/Amar a trama, mais que o desenlace. A poesia limpa e inteligente das canções do cantor uruguaio Jorge Drexler desembarca nesta sexta, 23, no Via Funchal, às 22 horas.

 

som Ouça "Tres Mil Millones de Latidos"

 

 

Amar la Trama (WEA), o novo álbum do autor (que ganhou um Oscar em 2005), é o núcleo do show, e está pleno dessas pequenas surpresas líricas - seja na poesia ou na musicalidade. "Tem gente que é de um lugar/Não é meu caso/Eu estou aqui/De passagem", avisa o cantor, cujo estilo às vezes pode sugerir um híbrido de Caetano Veloso e Leonard Cohen (de quem, por sinal, ele gravou Dance Me to The End of Love). Não tem problema: ele ama ambos (e Chico, e Bethânia).

 

Na musicalidade do disco, entre milongas e baladas, é impossível não se encantar com o metatango Toque de Queda (que, no estúdio, ele gravou com a mulher, Leonor Watling, do grupo Marlango): "Uma língua estranha murmura seu preço/E outra língua paga, moeda a moeda/Cada trapezista solta seu trapézio/Na solidão do toque da queda".

 

Muitos metais (trompetes, trombones, saxofones) emolduram o som de Drexler, e ele adianta que esse arsenal será usado nas cerca de duas horas do show de hoje - além de marimbas, um theremin e percussão a granel. Tudo isso, no entanto, não conduz Drexler para o território dionisíaco de um, digamos assim, Manu Chao. Ele é o oposto disso, de tradição mais introspectiva e derramada, cujo extremo dramático se manifesta na canção Telón, quase doloresduranianamente encharcada de dor de cotovelo.

 

Drexler (que é formado em Medicina) se define como um "péssimo vendedor de discos", como colegas ilustres seus, mas o impacto dos seus discos é sempre muito grande. Até Amar la Trama, vinha flertando com a música eletrônica. Subitamente, voltou ao ponto de origem, abrindo mão do sistema de "corta e cola" da música eletrônica, fazendo tudo de novo de forma orgânica e testando as canções em jam sessions, com públicos distintos, em sessões abertas em Madri, onde vive há 16 anos.

 

Copa do Mundo. Longamente influenciado e amigo de protagonistas da MPB, ele dedica uma música, Aquiles, Por Su Talón és Aquiles, a Paulinho Moska. Para Drexler, não faz mais sentido no mundo atual a postura olímpica de alguns artistas, dissociada da realidade, alienada, fora do mundo. O futebol, segundo ele, foi um retrato dessa mudança na Copa do Mundo da África do Sul. "Vejo tudo isso como um sinal dos tempos: os que jogam pela beleza, pelo jogo de equipe, que estão de fora do populismo personalista, esses times ganharam. Triunfaram os que fizeram o seu trabalho em silêncio, centrado na estratégia, baseado na humildade e na razão", afirmou. "O futebol rock star morreu nesse mundial, todos os gigantescos times com seus megapatrocinadores falharam".

 

O álbum novo de Drexler, base do seu concerto, é construído em torno da ideia da viagem, da travessia, seja ela feita através de fronteiras ou internamente. Esse invólucro já começa na faixa de abertura, Tres Mil Millones de Latidos - que trata do número de batidas de coração de um ser humano que viva até a idade média de 80 anos. Ele já fez 25 shows desse disco. "Estou feliz com o resultado, é um show muito movimentado, muito mais alegre do que de costume", afirmou.

 

Ao levar o Oscar de melhor canção em 2005 (por Al Otro Lado del Río, tema de Diários de Motocicleta, de Walter Salles), Jorge Drexler quase foi cogitado de ser "limado" da festa em Hollywood (Banderas cantaria sua música). Mas o ator Gael García Bernal disse que não iria se não o levassem e ele foi escalado. Também foi o autor da recente versão em espanhol de Waka Waka, o hit de Shakira, a convite da colombiana (com quem o compositor frequentemente colabora). "Shakira é uma grande estrela pop e também uma grande trabalhadora, muito consciente", conta.

 

A parceria com Shakira é só uma faceta da versatilidade desse "milongueiro cool": seus temas já foram cantados por artistas como Omara Portuondo, Pablo Milanés, Ana Belén, Miguel Ríos e Ana Torroja, entre outros. Seu primeiro disco saiu em 1992. Ao lançar o segundo, Radar, em 1994, mudou-se para a Espanha, onde ganhou maior projeção.

 

Jorge Drexler - Via Funchal (3.075 lugares). Rua Funchal, 65,  Vila Olímpia, telefone: 2144-5444. Hoje, às 22 horas. Ingressos: R$ 70/ R$ 200.

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