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Jorge Ceruto faz junção de samba, blues e mambo em seu álbum de estreia

Cubano lança o independente 'Mambo que Sambo' no iTunes e na Amazon

Paula Carvalho, O Estado de S. Paulo

03 de dezembro de 2013 | 21h30

Quando veio de Cuba pela terceira vez para uma turnê no Brasil, em 24 de abril de 1998, o trompetista Jorge Luis Ceruto Echevarria não sabia que aquela seria a saída definitiva de seu país. Naquela época, tocava na banda Conexión Salsera, que aqui virou Conexión Cubana. O grupo tinha contrato de cinco anos com o Sesc de São Paulo. Dos US$ 5 mil que rendia cada show – e eram cerca de quatro por semana –, os instrumentistas só viam trocados. Eram pagos US$ 20 por dia para cada um dos oito integrantes.

O diretor da Conexión era chamado de “Gestapo”, pois ficava com todos os passaportes e vigiava tudo o que faziam. Só devolvia os documentos quando tinham de retornar a Cuba para não vencer o visto. Foi assim desde abril de 1997. No ano seguinte, porém, houve um imprevisto. No dia 12 de junho, Jorge encontrou no hotel em que estava hospedado um envelope com o seu passaporte e os de outros quatro músicos. O chefe voltou para casa com três pessoas da banda sem dar explicações, apenas com um bilhete pedindo que fizessem o mesmo.

Jorge ficou. Mais de 15 anos depois, lança agora pela Amazon e pelo iTunes seu primeiro disco, Jorge Ceruto y su Mambo que Sambo (US$ 9,90). Independente, com participações de João Donato e Zeca Baleiro, o álbum tem composições e produção assinadas por ele. O CD físico e os shows devem ficar para o ano que vem.

Ceruto, 42 anos, conviveu com a música desde pequeno, graças ao pai e ao avô maestros, e estudou durante a década de 1980 em escolas de arte de Guane, cidade de Pinar del Río, província de Cuba, onde cresceu. Não sabe utilizar qualquer software de música. Para fazer o disco, escreveu as partituras de todos os instrumentos.

A ideia é misturar mambo, samba e blues. “Assim que comecei a fazer o disco, fui para a Bahia e tive um encontro com Letieres (Leite, maestro da Orquestra Rumpilezz). Ficamos tocando e pensei em misturar os atabaques, instrumentos de tradição no Brasil, com os batá, de Cuba”, conta em entrevista ao Estado na sua produtora, no Butantã. Também incluiu elementos da música americana. “Essas três são algumas das músicas mais universais. Das que o fazem dançar ao ouvir. Dividi o arranjo para que grupos de instrumentos tocassem de formas diferentes. Se os trombones fazem um som mais malandro, do samba, o piano faz a base do jazz, e assim vai.”

O disco relembra também o abakuá, uma das origens da rumba, o tamanquinho, ritmo que veio da África e é muito usado na música baiana, e o bolero.

Até chegar à carreira solo, foi um longo caminho. Quando decidiu ficar no Brasil, em 1998, o País vivia os auges do axé na Bahia e do pagode em São Paulo. Ceruto não teve dificuldades em arranjar trabalho. Fez shows ciceroneado por Carlinhos Brown e participou de discos do Katinguelê e do Art Popular, além de tocar com o trombonista Bocato. Em 1999, entrou no Jota Quest como trompetista e arranjador e acompanhou a banda em sua época de maior sucesso. Nos últimos anos, trabalhou com Zeca Baleiro, Marina de La Riva e André Abujamra.

Em 2010, começaram as mudanças na carreira: de músico contratado, tornou-se um dos sócios do Funk Como Le Gusta, o que lhe permitiu fazer mais arranjos e composições. Sua visão do mercado de música foi amadurecendo. Passou a se sentir desrespeitado por alguns cantores com quem trabalhou. “Artistas davam entrevistas dizendo como tinham feito os arranjos do disco, mas, quando ensaiavam, não sabiam nada de música. Fiquei pensando que começa errado por nós, músicos, que nos preparamos e criamos para uma pessoa que não está nem aí subir ao palco para ganhar um prêmio”, diz.

Sobre o trabalho que lança agora, afirma que é o resultado de anos de trajetória. “Junto o que aprendi em Cuba e no Brasil e busco fazer uma música que não está fechada em um ritmo, uma língua ou um momento. É música e ponto.”

 

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