Leonardo Soares/Estadão
Leonardo Soares/Estadão

Jorge Ben Jor completa hoje, segundo suas contas, 70 anos de idade

Há controvérsias na idade do compositor, mas não importa.

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

22 Março 2015 | 03h00

Pelas contas do próprio Jorge Ben Jor, seu aniversário de 70 anos é neste domingo. Vinte e dois de março de 1945 é a data declarada de seu nascimento, embora existam documentos que registrem o ano de 1942. Seria assim três anos surrupiados do tempo, algo que não importa mais quando seus fãs só precisam de algo para reverenciá-lo. Não há disco novo, show novo nem biografias em vista. Apenas um passado que sustenta sua carreira sobre uma laje de aço. Ben Jor mudou a música brasileira quando resolveu imprimir um esquema novo de samba em 'Samba Esquema Novo', de 1973, a batida de violão mais demolidora desde 1959, quando João Gilberto lançou 'Chega de Saudade' construindo a Bossa Nova. "Depois que eu vi Jorge tocar, eu quis parar. Ele já tinha feito tudo o que eu havia imaginado fazer", disse Gilberto Gil.

A música brasileira já contava com o respeito do mundo antes de Jorge, mas jamais havia tido coragem de se levantar e seguir para a pista de dança. E foi este, para o pesquisador Zuza Homem de Mello, o grande feito do carioca de Madureira. "Basicamente, o grande trunfo de Jorge Ben é a levada do violão, caso único na música brasileira e razão dele se tornar o top da música dançante brasileira, junto com Tim Maia, claro. Falar em bailar no Brasil é com os dois, Jorge e Tim. E não tem mais ninguém."

O conceito de tempo de Jorge, aquele que pode roubar três anos da própria história para driblar o destino natural dos homens, desvirtuava-se também ao violão. Anos depois de consagrar seu sambalanço em discos dos anos 70, como 'A Tábua de Esmeralda' (1974) ou 'África Brasil' (1976), o que São Paulo chamaria à sua revelia de samba-rock, Jorge guarda ainda o título de último revolucionário da batida perfeita. É o que reforça o depoimento de Andre Midani, o ex-executivo de gravadoras, ex-presidente da Philips que tanto lançou discos do cantor. Afinal, qual o segredo de Jorge Ben? "Foi sua genialidade como poeta concretista desde os primeiros momentos de sua carreira: a frase 'chove chuva', por exemplo... O que mais pode chover se não for a chuva? Sua concepção rítmica foi revolucionária. Ele é capaz de enfiar qualquer verso a serviço de sua concepção rítmica: 'Chica da, Chica da, Chica da Silva'. E enfim, sua dignidade de ser solidário."

 

Há para muitos o Jorge AG e o Jorge DG, antes e depois da guitarra. Depois de fazer grandes discos centrados no violão, o instrumento ganhou protagonismo, Jorge aprendeu algumas escalas pentatônicas de blues e não largou mais sua Fender Telecaster. Marcelo Froes, pesquisador e proprietário do selo Discobertas, trabalhou o lançamento de uma caixa em 2014 que traz quatro álbuns lançados por Ben Jor entre 1989 e 1995, pela gravadora Warner. Ele pode falar sobre o assunto: "Acho que (a importância de Jorge) está na sua originalidade e na ascendência etíope (ele é filho de mãe africana). Ele gravou seus melhores discos de voz e violão, sozinho no estúdio, e depois o trio tinha que se encaixar. E, por último, os maestros entravam com as coberturas. Ouvi muito tape multicanal dele dos anos 60/70, 4 e 8 canais, e essa característica era interessante. Mas, no meio disso tudo, ele fez um intervalo pra tocar guitarra e acabou gravando um LP 'maldito' com os Fevers e que hoje é cult. Claro!", diz Froes, apontando para 'O Bidú - Silêncio no Brooklin', quinto álbum de Jorge, no qual é acompanhado pela banda The Fevers, lançado 1967.

Mesmo sem nenhum evento oficial para marcar a data, talvez porque muitos suspeitem de sua veracidade, Jorge Ben Jor não fica sem presente. Os cineastas franceses Benjamin Rassat e Vincent Moon estão finalizando uma saga em formato de documentário chamado 'Obá Obá Obá', uma captação de 10h30 sobre a influência da obra de Jorge na música brasileira, tempo que será dividido em dez episódios de 52 minutos cada e um último de 104 minutos. Talvez, enfim, algo que possa apresentar Jorge e sua obra com mais profundidade. Aos 70, 73 ou 112 anos, Jorge pode viver sobre a laje de seu passado, dançando ao som de 524 músicas, todas com a sua assinatura.Cinco clássicos para celebrar

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