Jordí Savall traz "Paraíso Perdido" a SP

Paraíso Perdido é o título do espetáculo que o grupo Hesperion XII apresenta hoje no Teatro Cultura Artística; e seu subtítulo é: A Monodia Medieval na Hespéria Mourisca, Judaica e Cristã: de Alfonso X à Diáspora.Falando ao Estado por telefone, seu diretor, o violista catalão Jordí Savall, justifica a escolha: "Usando instrumentos originais ou reconstituídos, o que queremos é reviver a rica fase de convivência cultural e de tolerância entre as línguas e religiões, que existiu desde o tempo das Cantigas de Santa Maria, até a fase da expulsão dos judeus da Península Ibérica. É muito importante lembrar que, desde a chegada dos mouros no século 6.º, templos como a Grande Mesquita de Córdoba serviam à adoração do deus único, fosse ele o dos muçulmanos, dos cristãos ou o dos judeus.""A época de ouro de Alfonso X, o Sábio, teve legislação muito rigorosa, que regulamentava a vida dessas comunidades, mas, sob certos aspectos, havia liberdade muito grande, sobretudo na área cultural, na poesia e, principalmente, na música", continua Savall. "Ali, não havia exatamente sincretismo, pois cada povo mantinha suas tradições de forma muito nítida; mas intersecções e influências recíprocas. A arte improvisatória da monodia ornamentada espanhola não existiria se não fosse a influência dos melismas de origem."Savall chama a atenção para o fato de que a Reconquista, o processo de retomada do território, "durou 700 anos e, se demorou tanto, é porque a cultura e os costumes mouriscos e judaicos estavam muito enraizados e, embora, do ponto de vista político, houvesse a necessidade de expulsão dos estrangeiros como uma forma de consolidação do Estado e afirmação da identidade espanhola, isso não correspondia exatamente aos sentimentos de um povo que convivia pacificamente - donde termos recorrido a essa idéia do paraíso perdido para falar de uma das fases artisticamente mais ricas da Idade Média européia".Gravadora - Jordí Savall fala também com entusiasmo do êxito do Alia Vox, o selo independente que fundou, três anos atrás, "para escapar dos problemas de uma época complicada, em que a concentração das empresas em grandes gravadoras, que têm preocupações essencialmente comerciais, criam dificuldades para quem quer trabalhar com um repertório específico e especializado. O próprio nome de nosso selo, que significa ´uma outra voz´, já mostra que queremos trabalhar com um produto personalizado, voltado para um tipo de música e público que não se encaixa nos objetivos das grandes marcas. Temos trabalhado com muita liberdade e resultados muito bons pois, nestes três anos, já lançamos 14 discos, dos quais vendemos 400 mil exemplares".Jordí Savall destaca os próximos títulos, previstos para lançamento em breve: "Um álbum intitulado El Testamiento de Bach, reunindo dois grandes monumentos da música, A Oferenda Musical e a Arte da Fuga, esta última instrumentada para quarteto de violas da gamba e sopros, a única gravação dessa peça feita com instrumentos originais. Um disco intitulado Ostinato, no qual fizemos peças curtas e muito conhecidas, Greensleaves, o Cânon de Pachelbel, além de galhardas, chaconas, ilustrando as diversas possibilidades de improvisação em cima do basso ostinato. E também Canciones de Cuna, em que Montserrat Figueras faz um panorama da canção de ninar do início da Idade Média ao fim do barroco." A soprano Montserrat Figueras, mulher de Savall, é a principal solista dos dois concertos da Cultura Artística (com promoção da Rádio Eldorado): Paraíso Perdido, hoje e quarta-feira; e, na terça, Raízes e Memória: da Espanha e da Itália Medievais ao Mediterrâneo Oriental. Jordí Savall e Hesperion XII. De hoje a quarta-feira, às 21 horas. De R$ 60,00 a R$ 120,00. Teatro Cultura Artística - Sala Esther Mesquita. Rua Nestor Pestana, 196, tel. 258-3616. Patrocínio: Bovespa, Telefônica e Votorantim.

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