WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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Jonathan Ferr traz o 'jazz livre de Madureira'

Contratado pela gravadora Som Livre, pianista influenciado pelas sonoridades do afrofuturismo de Sun Rá quer democratizar a música instrumental e livrá-la dos pensamentos elitistas

Julio Maria , O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 05h00

Jonathan Ferr acredita que sejam seus guias espirituais. Generosos seres de luz que o colocam nos lugares que muitos pianistas gostariam de estar, com pessoas que o apoiam e inspirações que o conduzem para uma musicalidade desbravadora. A explicação sensorial para o que tem acontecido em sua vida desde que começou a usar o que ouvia pelos ares do Morro da Congonha, uma comunidade no reverencial bairro de Madureira, zona norte do Rio, e criar uma música cheia de personalidade não deve ser desprezada. Mas, mais do que uma proposta com cruzamentos que começam a levar seu jazz a lugares especiais, Ferr entende que não é só a música o que está em jogo.

Aos 32 anos, com um primeiro álbum lançado em 2019, Trilogia do Amor, e uma ficha de atuações que inclui o show de abertura para o saxofonista californiano Kamasi Washington no Circo Voador, em março de 2019, a apresentação anterior à de Hermeto Pascoal, no Marien Calixte Jazz Music Festival, em Vitória, em outubro do mesmo ano, e uma das atrações do recente Rio Montreux Jazz Festival, em outubro, Ferr acaba de assinar com a gravadora Som Livre para lançar seu segundo trabalho. Uma conquista rápida num tempo em que gravadoras não contratam ninguém, sobretudo se esse alguém tocar música instrumental. Seu lançamento vai começar com a divulgação do single Saturno, que Ferr fez em homenagem a Sun Rá, o lendário organista do Alabama e pai do afrofuturismo que acreditava que a população negra não pertencia ao planeta Terra, mas havia chegado do espaço. Em dezembro, sai sua segunda faixa autoral, Esperança.

São temas que já frequentaram seu repertório, mas que serão agora produzidos com as benesses de uma companhia de discos, algo que a geração de Ferr não se lembrava de que ainda existia. “Creio que as pessoas (da gravadora) me viram quando abri o show do Kamasi, no Circo Voador”, conta. Sobre a liberdade de criação, ele diz: “Eles querem o som que estou fazendo, garantiram que terei liberdade.” E nada funcionaria sem liberdade. Faixas como Bike, Luv Is The Way, Borboletas e Sonhos, as últimas três lançadas em Trilogia do Amor, chegam muitas vezes com linhas melódicas redondas e soando como se fossem cantadas. Seu pensamento é de uma música contemporânea sem hermetismos, com climas de neo soul, hip hop e recursos do fusion setentista como, por exemplo, quando toca Luv Is The Way.

Um primeiro single de Jonathan Ferr saiu em 2013, Vem Dançar, quando ele tinha 25 anos e começava a dar forma aos sons que criavam sua identidade. E talvez seja essa a palavra mais sensível ao momento de Ferr. Ao pensar em identidade, ele se apresenta com um visual arrojado, trabalhado pela estilista Denise Salles, e atua em plataformas para lançar singles, investe em boas fotos, cuida das redes sociais e produz bons clipes, tudo de que os jazzistas brasileiros parecem correr por entenderem que nada deva se sobrepor à música. E eles estão certos. Mas Ferr entra no vácuo aberto pelo temor que sempre tiveram de vender a alma às superficialidades do pop e firma sua presença no instrumental de uma forma que sua música se comunique também pela imagem. 

“Sinto que o pessoal do instrumental está muito focado nos temas. Claro que é importante, mas acho que vai além.” Seu maior exemplo da força de uma estética está no dia em que o pai o deixou escolher um disco de vinil. Ferr escolheu a capa mais bonita da loja, mas se decepcionou com o que ouviu no LP.

Então não deve ser o caso de vender-se pela capa, e não parece ser o que quer fazer. Sua fala tem sinceridade, carisma e uma história de vida que começa em Madureira, bairro romanceado por Arlindo Cruz em Meu Lugar e espalhado entre três escolas de samba, centenas de rodas, um Jongo da Serrinha e um baile charm realizado aos sábados, há 25 anos. Tudo o que poder fazer alguém grande suficiente para entender que só o visual não vai segurá-lo. 

Ferr tem um caminho a percorrer. Sua identidade está em formação e a linguagem que propõe pode se desenvolver muito se a técnica for mais depurada. “As composições têm suingue, algo superimportante para o que ele faz, e o fato de abrir a música para o cuidado com figurino e com os clipes vai lhe dar visibilidade. Só sinto que tenha ainda algo a desenvolver”, diz a cantora e saxofonista e Fernanda Porto.

O idealizador e curador do Rio Montreux Jazz Festival, Marco Mazzola, que escalou Jonathan para uma das noites do festival, produtor de discos de quase toda a música brasileira dos anos de 1970 e responsável pela noite brasileira no festival de Montreux, na Suíça, vê um Jonathan Ferr audacioso e cheio de frescor, mas em um ponto que pode torná-lo vulnerável. “Se ele acreditar que é um gênio, pode parar de se desenvolver, de estudar, e colocar seu futuro a perder. Já vi isso acontecer algumas vezes.” 

Quem conhece Jonathan e tem com ele laços de amizade o vê como um acontecimento. “Apesar de acharmos que o instrumental não se comunica, essa ideia é quebrada em um show do Jonathan”, diz a cantora Tassia Reis. “Ele consegue estabelecer essa conexão com as pessoas.” Mahmundi, cantora e dona de um dos trabalhos mais criativos de sua geração, diz que o show de Montreux foi a “comprovação de que ele está pronto paro ser conhecido pelo mundo. Um instrumental pop e acessível.” Outra cantora, Paula Lima, diz que Jonathan é “um pianista genial, urbano, negro e fazendo jazz para todos.”

O jazz chegou ao menino filho de mãe dona de casa e pai metalúrgico quando ele fez 18 anos e ouviu A Love Supreme, de John Coltrane, mostrado por um professor no Conservatório Villa-Lobos, onde começou a cursar música com uma bolsa de estudos. Antes, veio o piano de Pedrinho Mattar, morto de 2007. Jonathan sentava-se com a mãe e os irmãos na sala para assistirem ao programa Pianíssimo, que Pedrinho apresentava na Rede Vida tocando standards de jazz. 

Por mais que sua música não traga sinais de brasilidade, ao menos das brasilidades mais aparentes que os tempos tornaram uma espécie de pedágio obrigatório a quem decide tocar jazz no Brasil – como a reprodução de fragmentos rítmicos de maracatu, baião e samba feito mesmo por quem não vive esses gêneros –, Jonathan trilha uma escola mais colada aos jazzistas norte-americanos. Ele tem o afrofuturismo de Sun Ra, o piano de Robert Glasper e as visões de Kamasi Washington como alguns faróis, mas diz não ter medo do pop e quer fazer as pessoas perderem o medo do jazz. Um legado legítimo de quem carrega a gene de um lugar chamado Madureira.

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