Javier Etxezarreta/EFE
Javier Etxezarreta/EFE

Johnny Winter, sobrevivente de blues, vem a SP

Guitarrista texano que namorou Janis Joplin e afundou nas drogas é reverenciado por revistas de rock mundiais

18 de maio de 2010 | 17h29

Julio Maria - O Estado de S. Paulo

 

SÃO PAULO - "Esqueça, ele não vem. Ele está mal, não enxerga mais, não dá um passo sem a ajuda de um amigo. As drogas acabaram com suas vias respiratórias e o coração só bate porque está acostumado a fazer isso há 66 anos." Querer saber das chances de Johnny Winter pisar no Brasil, por muito tempo, foi algo como perguntar a Paul McCartney se ele toparia refazer os Beatles com Noel Gallagher no lugar de John Lennon. Os olhares em volta eram aterradores. Quem dizia conhecer a história da lenda do tornado texano, a guitarra mais rápida do Sul, o albino possuído, jurava que Winter estava acabado. E então, eis que alguma coisa acontece no coração de John Dawson Winter III.

 

Winter fará um show no sábado, no Via Funchal. É o que a casa anuncia e o próprio músico confirma ao Estado, em entrevista por e-mail. Há dois anos, uma apresentação no mesmo local foi cancelada por motivos de saúde. A primeira pergunta, então, é inevitável: Senhor Winter, como está sua saúde agora? "Eu não poderia estar melhor. Parei de beber e de usar coisas que me faziam mal. Isso me fez passar por uma transformação. Minha voz e meu jeito de tocar estavam sendo afetados por esse lixo. Minha vida está mudando para melhor."

 

Falar com Johnny Winter, ainda que por e-mail, é como falar com um garoto que acabou de tirar uma música de Muddy Waters na guitarra. Se suas palavras se converterem em ações, o público terá ali um homem distante das ruínas. "Vou usar muito slide (efeito típico dos bluesmen) em minha guitarra Firebird para tocar músicas de vários discos. E incluí ainda um segundo guitarrista fantástico na banda, chamado Paul Nelson."

 

Já era tempo de boas notícias. Johnny Winter, depois de dias sinistros, estabeleceu para si uma média de 100 a 120 shows por ano. "Isso dá um equilíbrio entre minha vida pessoal e a estrada." Os discos que tocam em sua casa ainda são de Robert Johnson, T-Bone Walker, Muddy Waters e BB King. "Foi com eles que criei meu estilo." E o que sua família acha disso tudo, sua mulher, seus filhos, seus netos? "Sou casado, mas não tenho filhos. Eu e minha mulher só temos um gato", fala, acrescentando ao final um espirituoso "risos".

 

As coisas nem sempre foram tão bucólicas, a ponto de uma biografia tornar-se inevitável. Raisin" Cain: The Wild and Raucous Story of Johnny Winter (algo como A Selvagem e Desordeira História de Johnny Winter), de Mary Lou Sullivan, é lançada agora nos Estados Unidos, sem data de chegada ao Brasil. Quatrocentas páginas e 56 fotos repassam a infância sob o racismo do Mississippi, a chegada ao Texas e a descoberta de seu albinismo. A antológica apresentação no Woodstock de 1969, seu romance com Janis Joplin e os dias mais cruéis em que seu cérebro foi devastado pela heroína.

 

Problema. O mundo sempre esteve de ponta-cabeça para Johnny Winter. O pai, prefeito de uma cidade do Mississippi, desprezava tudo o que os negros faziam. Os brancos olhavam o rapaz de pele estranha e o consideravam tudo, menos um branco legítimo. Sem lugar no mundo, Winter escondeu-se atrás de uma guitarra, e seus dedos começaram a ficar rápidos. "Não podia praticar esportes por causa dos problemas na visão e, assim, fui me alienando das pessoas. Sabe, você só precisa de um bom problema para se tornar um astro", disse, em entrevista de 1979.

 

Os espaços que Johnny Winter costuma deixar para os improvisos são generosos e sua estratégia parece ditada aos músicos mais ou menos assim: "O começo e o fim serão em alta voltagem. Mas fiquem atentos, que uma hora eu aperto o detonador." Se o blues corre o risco de sumir do mapa, já que só sobraram na estrada BB King, Buddy Guy e o próprio Winter, o texano responde. "O blues sempre estará por perto, não há perigo de desaparecer. Não importa que música você toque, ela sempre terá um pouco de blues."

Quem é Johnny Winter

John Dawson Winter III, o Johnny Winter, nasceu no Mississippi mas foi criado no Texas. Começou a carreira ainda garoto, ao lado do irmão saxofonista Edgar Winter. Seu primeiro disco, chamado School Day Blues, foi lançado quando ele tinha apenas 15 anos. Uma de suas primeiras bandas foi formada com o baterista Uncle Joe Turner e o baixista Tommy Shannon, mais tarde braço direito de outro texano lendário, Stevie Ray Vaughan.

Gravação com Hendrix

Há um boato que afirma: Winter gravou versões de Woke up this Morning e Found Myself Dead com Jimi Hendrix e Jim Morrison. Não é verdade. O próprio Winter se pronuncia sobre isso no site da casa que vai trazê-lo: "Eu nunca conheci Jim Morrison! Tenho certeza de que não toquei com Jim Morrison em nada! Eu não sei como esse boato começou."

Grammy na estante

Na estante de Johnny Winter contam dois prêmios Grammy Awards pelos álbuns que gravou com Muddy Waters, Hard Again e I"m Ready. Gravar com Waters era um sonho desde a adolescência de Winter.

Entre os mais mais

A revista Rolling Stone dos Estados Unidos o elegeu um dos "100 Melhores Guitarristas do Mundo".

Queridinho das capas

As revistas de rock mundiais sempre reverenciaram Winter. A primeira edição da Guitar World, de 1980, traz o texano na capa. Outras homenagens viriam naquela década. Em 1988, ele passou a fazer parte da Fundação Blues Hall of Fame. A banda Smashing Pumpkins resolveu fazer uma homenagem a Johnny Winter com a música Tribute to Johnny.

Johnny Winter - Via Funchal. Rua Funchal, 65. Informações pelo 2144-5444. Sáb. (22),

às 22 horas. Ingressos: de R$ 140 a R$ 250. Abertura da banda brasileira CC&A



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