WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Johnny Depp guitarrista só existe porque existe rock and roll

Mesmo tocando apenas como se fizesse figuração, ator cai nas graças de um gênero criado para os piratas e outros aventureiros

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2015 | 22h53

Mais do que absolver os aventureiros, o rock and roll foi feito para eles. E Johnny Depp é um deles. Nada de seus dedos sai com muita leveza e seus solos são fragmentados em partículas de esforço, como um tímido tentando entrar na conversa dos grandes falando baixinho. A experiência nos sets de Hollywood não se converte em intimidade com o palco. Depp acerta e erra de cabeça baixa, dá as costas para a plateia e tenta emplacar um solo que se destaque na massa de dois e às vezes três outros guitarristas, sendo o primeiro deles sempre Joe Perry, do Aerosmith. Se estivesse em um trio de blues ou em um quarteto de jazz, Johnny Depp não sobreviveria a esta noite. Mas o rock and roll estava ali para abraçá-lo.

Depp não faz solos, mas bases. Acordes e alguns riffs. Em 'Whole Lotta Love', do Led Zeppelin, fez seu voo mais arriscado com algumas intervenções de bottleneck, o tubo de acrílico criado pelos bluesman dos anos 30 que cria o efeito chamado slide. É difícil tocar aquilo, um vacilo e a pecinha para na casa errada. Ele acerta mas não faz uma melodia, apenas frases de improviso, o que lhe dá muito mais liberdade. Joe Perry, a seu lado, olha e aprova. Afinal, Depp tem o bom senso de não usar sua guitarra muito alta.

Hugh Laurie, o sempre Dr House, estudou mais para fazer a mesma migração. Aprendeu piano, fez dois belos discos de blues e subiu ao palco preparado. Até porque o blues não ofereceria a outra face se ele lhe desse um tapa desses. Hoje, já diz que pensa em deixar a carreira de ator para viver apenas de música, sentado sobre sua fortuna de R$ 88 milhões que House lhe garantiu. Woody Allen chega a ser um caso à parte. Seu clarinete no jazz dos anos 30, que toca ao lado de uma big band com toda emoção em um pub de Manhattan, é culto, rico e quente. Música para ele é uma carreira paralela e o alimento que o leva a fazer um filme como 'Meia Noite em Paris'.

Ao contrário da dramaturgia, onde você tem que ser alguém que não é o tempo todo, na música você só tem chances se for mais de você mesmo. Wagner Moura diz ter vivido uma noite inesquecível quando cantou as músicas do Legião Urbana ao lado de Marcelo Bonfá e Dado Villa Lobos, os legiões originais. Inesquecível para ele e traumas incuráveis para boa parte dos fãs que respeitam a obra de Renato Russo. Visivelmente embriagado pela emoção de estar ali diante de uma multidão, Wagner pulava saindo dos tons, gritando notas na trave, descontrolando-se na euforia. Vivia um personagem perfeito para estar na plateia, não no palco.

Alice Cooper deu entrevistas dizendo que Johnhy Depp é um grande guitarrista. Gentilezas que só queriam fazer o amigo estar seguro diante do que seria a maior plateia de sua vida. Como o pirata Jack Sparrow, Depp tentou contrabandear o carisma de seus personagens para criar o guitarrista. As meninas guitaram e ele saiu aplaudido. Sorte que o rock and roll estava ali para abraçá-lo.

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