Divulgação/Arquivo/AE
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Johnny Alf disse adeus à boemia e embarcou para o interior

Compôs a balada 'Eu e a Brisa', cantada por Márcia, durante turnês por cidades do interior de São Paulo

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo,

04 de março de 2010 | 19h49

Em 1965, Alf tomou uma atitude radical, trocando as boates enfumaçadas pelo ar sereno do campo. Passou um bom tempo excursionando por cidades do interior de São Paulo e isso o influenciou a escrever canções com a atmosfera de Eu e a Brisa. Interpretada pela cantora Márcia, no III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, de São Paulo, a balada foi desclassificada nas eliminatórias, chegou a ser vaiada mas depois passaria a tocar muito no rádio, tornando-se o maior sucesso da carreira do compositor.

 

No delicioso samba-jazz Céu Alegre, Alf entregava a nova ficha: "Boemia, você vai me perder/ Sol do dia eu lhe quero agradecer/ Entreguei ao tempo o tema triste da cidade longe/ Despedi a Lua que me olhou de lado e se foi zangada / E a melancolia de um lamento que era a voz do mundo / Se entrosou na noite e sumiu-se à vista da manhã chegada/ E é assim que eu quero acontecer/ Céu alegre afastou o meu sofrer".

 

Foi durante o período em que Alf conseguia finalmente combater uma tristeza latente. Determinado a procurar ferramentas para o auto conhecimento, encontrou apoio no espiritismo. "Entre uma e outra passagem nas boates tive muitos altos e baixos, cheguei até a dormir na areia, desorientado", lembrou Alf. "Nesses momentos, principalmente os piores, comecei a sondar mais os meus sonhos e, levado por amigos, a frequentar sessões espíritas. A princípio, desacreditando", disse.

 

Mais tarde, um guia o aconselhou a ler sobre espiritismo e um outro "praticamente desvendou a chave de tudo", quando lhe perguntou onde andava sua mãe. "Era um problema que eu trazia reprimido desde o início da carreira, e ele foi direto ao assunto, sem perguntar mais. Descobriu, entre outras coisas, que ela tinha me feito, por engano, um 'batismo de esquerda', isto é tinha me levado na quimbanda, onde reinam os maus espíritos, e eu estava sob influência deles."

 

A ajuda espiritual deu novo ânimo a Alf e ele iniciou um ciclo mais alegre, que se refletiu nas composições. Nos anos 70, Alf gravou apenas três álbuns (veja discografia completa no quadro), enfatizando a face iluminada em Ele É Johnny Alf (1971), com canções como Garota da Minha Cidade e Eu e o Crepúsculo. Em Nós (1974) gravou inéditas e exclusivas de Gilberto Gil (Músico Simples), Egberto Gismonti e Paulo César Pinheiro (Saudações), Gonzaguinha (É Um Cravo e Tem Espinho), Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza (Um Gosto de Fim), Márcio Borges e Milton Nascimento (Outros Povos), além de cinco temas próprios. Vale lembrar que esses discos todos saíram em CD, mas lamentavelmente estão fora de catálogo.

 

Vivendo de shows em que interpretava seus temas mais conhecidos, ele passou os anos 80 enfurnado em seu apartamento na Mooca. Afastado dos discos desde 1978, quando lançou Desbunde Total, Alf voltou a gravar em 1990, ao lado de convidados como Chico Buarque, Caetano Veloso, Zizi Possi, Gal Costa, Gilberto Gil e outros no álbum Nós. No fim da década, em 1999, foi contemplado com o Prêmio Shell de Música por sua obra. Na hora dos agradecimentos, disse o seguinte: "Ao público que sempre prestigiou minha música sofisticada e pouco comercial". Em 2005, lançou seu último CD, Mais Um Som, o primeiro de canções inéditas em 28 anos.

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