John Neschling rege Nona de Mahler no Municipal

Maestro fala sobre relação com o autor: "Nunca me senti tão bem com outro compositor"

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

06 de fevereiro de 2015 | 17h16

O maestro John Neschling faz neste fim de semana seus primeiros concertos do ano à frente da Orquestra Sinfônica Municipal. O programa será apresentado sábado (20h) e domingo (17h), no Teatro Municipal e tem uma obra-chave do repertório sinfônico - e da carreira do maestro: a Nona Sinfonia de Gustav Mahler. "Nunca me senti tão bem com outro compositor", diz ele, na entrevista a seguir. "Mahler é minha família, é a casa da minha avó, em Viena, que nunca conheci."

Sua trajetória como regente está bastante associada à obra de Mahler. O sr. poderia falar um pouco de seus primeiros contato com a Nona Sinfonia? Qual o impacto que a audição da peça e, mais tarde, o trabalho com ela provocou?

A primeira vez que ouvi a integral das sinfonias de Mahler foi em meados dos anos 60, quando, pela primeira vez, Viena apresentou as 9 sinfonias num ciclo com grandes regentes. Para mim, foi a descoberta de um mundo que era meu e que eu não conhecia. A partir daí ocupei-me de Mahler sem cessar. Tive uma experiência pessoal com a Nona regida por Leonard Bernstein, em um concerto que dividi com ele, e regi a Nona pela primeira vez em Lisboa nos fins dos anos 60. Nunca me senti tão bem com outro compositor.

Como o senhor definiria a obra de Mahler no contexto produção da passagem do século 19 para o 20? Em que sentido ela é síntese do romantismo - ou seria melhor falar em prenúncio da modernidade?

Mahler é um marco na história da música e, a meu ver, não é nem síntese nem prenúncio. Wagner tem em si muito mais o germe do século XX do que Mahler. Este tem a sua estética ligada estritamente ao seu tempo, um tratamento harmônico que leva essa matéria ao seu paroxismo, uma polifonia e uma independência entre as vozes que nâo tem precedentes nem seguidores à altura. Talvez Richard Strauss tenha, a seu modo, levado a escrita orquestral a esse ponto culminante do artesanato.  Mahler é um pós moderno extemporâneo, que surgiu antes mesmo do modernismo.

À obra de Mahler, em especial no caso de peças emblemáticas como a Nona Sinfonia, costuma-se acoplar uma série de ideias e imagens extramusicais. Como lidar com esse universo na hora de criar a interpretação da peça?

Mahler me faz assistir a um filme na minha cabeça, a história do fim do século XIX, Viena, Loos, Otto Wagner, Josef Roth, Stefan Zweig, Lueger e a ascenção do antisemitismo, Grinzing, Freud, Klimmt, enfim, o desespero de um vienense que é amado e odiado em Viena, como todos somos. Mas na hora de reger, atenho-me à partitura como um ator ao texto da peça. Sou diretor e ator ao mesmo tempo, subjugado pela grandeza da obra, mas co-autor, como se cada nota fosse de minha autoria, entendendo perfeitamente cada suspiro e cada berro de desespero. Enfim, para mim, Mahler é música e texto, som e imagem indivisíveis e inseparáveis. Mahler é minha família, é a casa da minha avó, em Viena, que nunca conheci.

ORQUESTRA SINFÔNICA MUNICIPAL E JOHN NESCHLING

Teatro Municipal de São Paulo. Pça. Ramos de Azevedo, s/nº, telefone: 3053-2100

De R$ 20 a R$ 70. Sábado, 20h; domingo, 17h.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.