Arquivo/Estadão
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Jobim 90 anos: O grande encontro com Elis Regina

Roberto de Oliveira, produtor e empresário de Elis nos anos 70, escreve suas memórias sobre a gravação de 'Elis & Tom', gravado nos Estados Unidos em 1974. A pedido do Estado, as cantoras Ná Ozzetti e Patricia Bastos e o violonista Dante Ozzetti interpretam uma versão inédita de 'Águas de Março' para homenagear o 'maestro soberano' que faria 90 anos na próxima quarta-feira

Roberto de Oliveira, ESPECIAL PARA O ESTADO

23 Janeiro 2017 | 17h01

Tom Jobim era muito seletivo quando escolhia intérpretes para suas canções. “Eu não gosto destas mulheres que cantam com o útero”, costumava brincar. Decididamente, este não era o caso de Elis. Quando cantava, ela era toda sensibilidade e sentimento. Dizia: “Não é a voz que canta”. Estava coberta de razão.

E, afinal, por que os dois demoraram tanto para se encontrar? Até então, o encontro parecia improvável. Mas, segundo o produtor Nelson Motta, seria inevitável: a música Só Tinha de Ser com Você era um prenúncio. Uma hora, tinha que acontecer.

Eu tinha 25 anos, era produtor de TV e shows e havia acabado de lançar o Circuito Universitário, que Elis queria muito fazer. Ela me procurou e me convidou para ser seu empresário. Aceitei no ato. “Não quero mais ser vendida como um saco de batatas”, reclamou. 

Elis vivia um momento crítico na carreira. Fazia grande sucesso, era talentosíssima, mas estava com o prestígio em baixa. Sofria um crescente preconceito vindo de alguns setores da imprensa, da intelectualidade e do mundo acadêmico, que não a perdoavam por ter cantado nas Olimpíadas do Exército. Elis não apoiava a ditadura, mas havia participado daquele evento um pouco por medo de retaliação e muito por inabilidade dos empresários da época, que negociaram o contrato sem medir consequências. 

O resultado foi devastador. Henfil atirava em sua direção nas páginas do Pasquim, colegas à esquerda viravam o rosto. Conversamos bastante e decidimos por um reposicionamento. As principais decisões: mais cuidado com as palavras nas declarações que fazia, dedicação prioritária aos shows do Circuito Universitário e produção de um projeto em parceria com um artista de prestígio, para deixar claro que fazia parte do primeiro time.

Logo depois, um convite da gravadora Phonogram veio a calhar na direção dos nossos planos. Andre Midani, diretor-geral, e Roberto Menescal, diretor artístico, fizeram uma deferência pouco comum naqueles tempos: para comemorar os 10 anos de gravadora, ela poderia fazer um disco especial, da maneira que bem entendesse. Não dariam nenhum palpite. Confiavam, sabiam que faria coisa boa. 

Propus que o projeto fosse um encontro, como pretendíamos, e sugeri o nome do Tom. Tinha tudo a ver. Ele vivia fora do Brasil, não se envolvia muito com política e não participava do bullying que crescia para cima de Elis. E ela já havia gravado Águas de Março, a obra-prima do compositor. Eles se completavam. Elis precisava de mais prestígio, algo que Tom tinha de sobra, e ele se ressentia um pouco de não ser tão popular no seu próprio país. Resolvemos gravar em Los Angeles, pela qualidade técnica e também pelo fato de Tom estar morando lá. Aloysio de Oliveira, que vivia e trabalhava na América há muitos anos e já havia feito muita coisa com Tom, foi escolhido unanimemente para ser o produtor. 

Em fevereiro de 1974, desembarcamos em Los Angeles, naquele inverno meio carioca da Califórnia. Começava ali a nascer o disco Elis & Tom, que viria a ser uma das mais importantes obras da música brasileira, com reconhecimento internacional. Tom gostava de se referir à cidade pelo nome histórico: El Pueblo de Santa Maria, la Reina de Los Angeles del Rio Porciuncula. Se divertia bastante com isso, nunca usava a sigla L.A., como os demais.

Quanto mais se aproximava o momento de entrarem no estúdio, mais aquele cruzamento de duas carreiras distintas parecia lógico. Fazia sentido de forma harmoniosa e coerente. Há quem ache que eles viveram ali o ápice de suas carreiras. 

Havia no ar a percepção de que vivenciávamos um momento histórico para a música do Brasil, mas não sobrava muito tempo. César trabalhava furiosamente nos arranjos, sob a marcação cerrada do Tom. Elis aguardava ansiosa a hora de soltar a voz, (me lembro dela roendo as unhas o tempo todo) e o jovem engenheiro Humberto Gatica, posteriormente ganhador de oito Grammys internacionais, preparava o estúdio da MGM para o grande momento.

Ao mesmo tempo, surgiram vários problemas, recorrentes em gravações, mas ao final tudo se ajeitava. Elis se incomodava com certo jogo de sedução de Tom, achou que lembrava Ronaldo Bôscoli, falou em voltar ao Brasil, mas desistiu. Tom não queria o piano elétrico do César, depois aceitou. Ao final, o clima entre eles já estava ótimo. A banda, reforçada por Oscar Castro Neves, que também vivia na cidade, era formada pelos não menos talentosos Hélio Delmiro (guitarra), Paulo Braga (bateria), Luizão Maia (baixo) e Chico Batera (percussão), todos sob o comando de César Mariano. Um timaço. A orquestra, com um time fantástico de cordas e flautas de L.A., era regida pelo maestro Bill Hitchcock. No estúdio, uma romaria de músicos, produtores e compositores, entrando e saindo o tempo todo. Alguns já conheciam Tom, mas queriam ver de perto a cantora brasileira de que tanto se falava. Me lembro de ver Johnny Mandel, autor de The Shadow of Your Smile, em choro discreto num canto escuro da sala de controle enquanto Elis cantava Por Toda a Minha Vida. Eumir Deodato, Flora Purim e Airto Moreira, também morando por lá havia muito tempo, pareciam matar toda a saudade do Brasil que traziam na alma. 

O disco recebeu muita influência do LP histórico da cantora lírica Lenita Bruno, com arranjos de Leo Peracchi, gravado em 1959, Por Toda a Minha Vida, com obras de Tom e Vinicius. Um trabalho irrepreensível que todos adoravam. Lenita cantava lindamente, e o seu disco está na gênese do Elis & Tom. 

Montei uma equipe de filmagem mesclada com brasileiros que estavam por lá e americanos, e registramos tudo em filme. Foram captadas cinco horas de imagens em super 16mm. O Jom Tob Azulay, o Jomico, era diplomata, cônsul adjunto na cidade, louco por cinema e participava de um grupo de documentaristas. Fez som direto e filmava tudo que acontecia, junto com Fernando Duarte, grande diretor de fotografia brasileiro, que estava passando um tempo por lá e também se integrou ao time. Christopher Gray, cameraman, e Alan Barker, que fornecia os equipamentos e pré-editava o material, completavam o time. No Brasil, transferimos tudo para vídeo quadruplex e fizemos uma edição resumida para promover o disco, roteirizada por Silvio Lancelotti. Foi exibida na época pela Band minha parceira neste e em tantos outros projetos, sempre com o apoio de João Saad e Cláudio Petraglia. Guardo desde então o material original em filme, que vamos lançar em breve numa versão integral.

O resultado, quase todos conhecem. Um disco que virou referência e está em todas as listas do que se fez de melhor no Brasil. Tom continuou em Los Angeles por mais algum tempo e só veio fazer quatro shows de lançamento do disco, em São Paulo e Rio. No Rio, o show foi no teatro do Hotel Nacional, em São Conrado, projetado por Oscar Niemeyer, grande amigo de Tom.

Elis voltou ao Brasil no dia 17 de março de 1974, dia em que completava 29 anos. Fui ao aeroporto me despedir de César e do querido João Marcello, que alegrou tanto nossa passagem por lá. Ao abraçá-los, senti que uma sensação única nos possuía, só permitida àqueles que conseguem uma vitória importante na vida. 

Quando retornei ao Brasil, dois meses depois, encontrei uma Elis revigorada, otimista e de bem com a vida. Continuamos amigos até o final de seus dias. Gravamos Me Deixas Louca e Trem Azul um mês antes de sua morte, para um especial que dirigi para a TV Record. Nunca a vi cantando tão bem. Quanto a Tom, gravamos pela última vez nos jardins do Palácio do Itamaraty, no Rio, num encontro lindo com Milton Nascimento, exibido pela Band.

Sonho em ver um dia no calçadão em frente ao Hotel Nacional, agora revigorado, Elis e Tom retratados na forma daquelas simpáticas esculturas que alegram alguns lugares do Rio, lembrando a histórica imagem deles cantando Águas de Março. E, ao lado, Oscar Niemeyer assistindo à performance. Seria uma justa homenagem a pessoas que ajudaram a fazer valer a pena a existência do século 20.

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