João Rabello, filho de peixe em trabalho autoral

O violonista João Rabello, de 25 anos,vem de uma linhagem de músicos. De um lado, é filho de Paulinhoda Viola e neto do chorão Cesar Faria, do lendário grupo Épocade Ouro. Do outro, cresceu sob as influências dos Rabellos. Alémde se tornar um bom instrumentista, João é um rapaz perspicaz:não caiu na cilada de ficar na cola da carreira de um ou deoutro. Decidiu que seria solista e que teria um trabalho autoral "consistente." Seu primeiro CD-solo, Roendo as Unhas (VR6Instrumental), contextualiza essa vontade de ser conhecidosimplesmente como João Rabello, o violonista - e não como ofilho de Paulinho, ou o neto de Cesar, ou o sobrinho de RaphaelRabello. Na hora da escolha do repertório, fez um apanhando depeças, eruditas e populares, que resumissem todas as fases deseu trabalho e que, de certa forma, não fossem tão conhecidas.Sem querer, contou também um pouco da trajetória recente doviolão - mesmo sendo um recorte restrito dessa história.Peças clássicas incluídas Incluiu peças clássicas, como La Catedral (de AgustínBarrios, composta em 1921), e populares, como Inspiração (deGaroto) e as do pai. Uma delas, Roendo as Unhas, composta porPaulinho em 1973, tem razão de dar título a esse álbum deestréia, diz João: "Foi a primeira que aprendi a tocar. Tem umabase simples, de quatro acordes." Já algumas peças de RadamésGnattali lá estão por influência de Raphael, uma figuradeterminante na vida do João músico. A essas regravações, que ocupam grande parte do CD, ojovem violonista quis emprestar uma interpretação própria,coerente com aquela sua preocupação em construir um trabalho"consistente". Ainda dentro dessa premissa, expôs discretamenteseu lado compositor, em três peças: Leme, Rubro e Sarau para Cesar - esta, uma parceira com o pai, que rendeu homenagema Cesar Faria. "Partiu de uma idéia simples minha e meu pai fezalgumas mudanças. Começamos a trabalhar juntos", conta ele. Maso registro de Sarau se deve à urgência de João, uma vez que seuparceiro é famoso por demorar até anos para finalizar uma música Perfeccionista, Paulinho nunca escondeu que, quanto maisdebruçado sobre uma música, mais quer aprimorá-la. E nisso, láse vão anos. Para não correr esse risco, João tratou de gravá-laLogo. Paulinho no cavaquinho Além de co-autor de Sarau para Cesar, Paulinho assumiuo cavaquinho dela. E só. João preferiu que o pai nãointerferisse no processo do disco, para que não acabasse ficandocom a cara de um álbum de Paulinho da Viola. O pai respeitou avontade do filho e só apareceu no estúdio para gravar. Paulinhonunca foi mesmo de interferir na carreira de João, a não serpara lhe dar conselhos. "Quando era criança, meu pai e meu avôeram de deixar violão solto pela casa", lembra João, que sócomeçou a estudar o instrumento mesmo aos 13 anos. Nos últimosdois anos, acompanhou o grupo de Paulinho, a princípio parafazer o segundo violão, ao lado do avô, mas depois assumiu olugar dele. Mas nunca foi segredo que o filho iria seguircarreira-solo. Mesmo assim, Paulinho pediu para que elecontinuasse no grupo. "Enquanto não interferir na carreira, vouficar. É um prazer imenso tocar com ele."

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