João Nogueira mudou o canto do samba

João tinha planos de gravar novo disco, ao vivo, em São Paulo, na casa de espetáculos Tom Brasil. Estava com viagem marcada para cá: viria ainda nesta semana para montar o show que resultaria no CD, mesmo que estivesse com dificuldades de locomoção e de equilibrar-se, em função do último derrame. Na madrugada de domingo para segunda-feira, sentiu-se mal. Ângela, sua mulher, ainda tentou levá-lo a um hospital, mas não houve tempo. O corpo foi velado no Cemitério São João Batista, na zona sul carioca, e deveria ser sepultado lá, às 17 horas.João Batista Nogueira Júnior nasceu no subúrbio do Méier no dia 12 de novembro de 1941. Seu pai era advogado e músico, tendo chegado a tocar em regionais importantes como a de Rogério Guimarães. Aprendeu a tocar violão de ouvido e começou a compor aos 15 anos, em parceria com sua irmã, Gisa Nogueira. Pouco mais tarde, passou a frequentar o bloco carnavalesco Labareda do Méier, que chegou a dirigir e para o qual compunha. Um dos integrantes do bloco era Airton Silva, filho do saxofonista Moacir Silva, que dirigia a gravadora Copacabana. Apresentado a Silva, Nogueira conseguiu gravar seu primeiro samba, Espera, ó, Nega, em 1968, acompanhado por um conjunto de samba que não tinha nome e depois seria conhecido como Nosso Samba. Outro filho de gente famosa entrou em sua vida para ajudá-lo: o compositor Paulo Valdez, filho de Elisete Cardoso, passou a freqüentar o bloco do Méier, ouviu João, encantou-se com suas belas melodias, levou-as para que a mãe as ouvisse e Elisete gravou, em 1970, Corrente de Aço. Era um aval de muito peso: Elisete estava no auge, era uma das grandes damas da canção popular. Nogueira pôde convidar o radialista Adelzon Alves, o grande porta-voz do mundo do samba para ser seu produtor. O resultado foi um disco precioso, Quem Samba Fica, que foi lançado em 1971. Lugar assegurado no clube dos grandes compositores, João Nogueira começou a ser gravado pelos principais intérpretes - entre eles, e principalmente, Clara Nunes, que, naquele mesmo ano, lançou Meu Lema, de João e Gisa Nogueira, e Morrendo de Verso em Verso. Ainda em 1971, Nogueira venceu um concurso de sambas da Portela (com Sonho de Bamba) e passou a integrar a ala de compositores da escola. No ano seguinte, lançaria num compacto (disco de 33 rotações por minuto com uma faixa só de cada lado) a música que virou seu prefixo: Espelho, com letra com Paulo César Pinheiro (que se tornaria seu principal parceiro) é um samba em tom menor, triste, lento, denso, quase falado. É um samba de recordações dolorosas, do filho que tem saudade do pai morto. Com Espelho, Nogueira mostrou uma face que até então havia ficado em segundo plano - a do cantor. Ele foi o maior cantor moderno do samba. Tinha uma maneira especial de dividir as frases musicais dentro do compasso, puxando a síncope para trás, atrasando as entradas. Ninguém havia cantado daquela forma. Nogueira virou marca. Lançou 18 discos-solo e participou de outros tantos. O segundo elepê saiu em 1974, E lá Vou Eu, e, no ano seguinte, saiu Vem Quem Tem, uma tomada de posição que destacou dois números: Mineira (com Paulo César Pinheiro, uma homenagem à cantora mineira Clara Nunes, mulher do letrista) e Chorando pelos Dedos (com Cláudio Jorge). Em seguida, Nogueira viajaria pelo Brasil dividindo o palco com Cartola, pelo Projeto Pixinguinha, da Funarte. Lançou, em seguida, o elepê Espelho (a música só estava disponível naquele compacto já citado) e, em 1978, Vida Boêmia, do qual participava o jornalista Sérgio Cabral. Os discos eram cada vez melhores e esse foi o melhor tempo do artista João Nogueira. Em 1979, com Alcione, Martinho da Vila, Beth Carvalho e outros grandes, fundou o Clube do Samba, que presidia. O nome Clube do Samba também batizou um de seus discos, mas talvez sua obra-prima seja o elepê que lançou logo em seguida, em 1981: Wilson, Geraldo e Noel, em que rendia tributo a Wilson Batista, Geraldo Pereira e Noel Rosa, para ele (e para quem entende de samba) a trindade fundamental do gênero. A política da indústria fonográfica escondeu o samba, nos anos 80, mas João Nogueira continuou fazendo discos excelentes - e, com Clara Nunes, a quem voltaria a homenagear, ele era o grande defensor do gênero. O tema de Espelho voltaria a ser abordado em Além do Espelho, disco de 1992 que reuniu algumas parcerias de João e Paulo César Pinheiro. Dois anos depois sairia outro disco com a obra deles dois, Parceria, esse gravado ao vivo. João cantou na Ópera do Malandro, de Chico Buarque, montou grandes espetáculos (como Carioca, Suburbano, Mulato e Malandro, de 1979), compôs alguns dos mais belos sambas de todos os tempos - seu O Poder da Criação é uma obra-prima. Ele gostava de cantar O Poder da Criação (a letra é de Paulo César Pinheiro) à capela, empregando toda a paixão interpretativa. Invariavelmente, quando ele terminava, havia gente chorando na platéia. Mas o pagode dos anos 90 ameaçava tirar o compositor de cena. Em 1998, ele cedeu e gravou música do Raça Negra no irregular CD João de Todos os Sambas. Sua última participação num disco foi no trabalho coletivo Esquina Carioca, que dividiu com Luiz Carlos da Vila, Beth Carvalho, Moacyr Luz, Walter Alfaiate e Dona Ivone Lara.

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