João Gilberto volta ao palco do Carnegie Hall, em Nova York

'O Pato', 'Samba de Uma Nota Só', e mais 20 canções fizeram do teatro um templo da música popular brasileira

Tonica Chagas, especial para O Estado,

23 de junho de 2008 | 15h38

Como fizeram 46 anos atrás, no fim de semana João Gilberto e Sérgio Mendes transformaram o Carnegie Hall, em Nova York, num grande templo de música popular brasileira. Em novembro de 1962, naquela mesma casa - e, então, com Tom Jobim, Carlos Lyra, Luiz Bonfá, o conjunto de Oscar Castro Neves, Agostinho dos Santos, o violonista Bola Sete, Carmen Costa e mais uma dezena de artistas -, eles participaram de um show histórico que lançou a bossa nova nos Estados Unidos. Desta vez, como nomes consagrados internacionalmente há quase meio século, eles participaram do 250 JVC Jazz Festival.   Veja também: Especial 50 anos da Bossa Nova    No sábado, 21, a batucada multinacional de Sérgio Mendes embalou a casa com o show Nouveau Bossa, uma jornada desde os seus primeiros sucessos internacionais, na década de 60, até a investida que ele deu no hip-hop com seus dois últimos discos - o mais recente, Enchantment (Encanto), lançado nos EUA há duas semanas. No domingo, o show de João Gilberto foi o primeiro dos oito que ele deve fazer este ano comemorando os 50 anos da bossa nova. A data é marcada pela gravação que João fez de Chega de Saudade e Brigas Nunca Mais, em 1958, num disco 78rpm que é o divisor da história da MPB.   Hino   Sozinho com seu violão acústico, João fez o público que lotou os 2.800 lugares do grande auditório da casa se comportar com o mesmo respeito devido a solos eruditos ou cerimônias religiosas. Não houve sinais daquele João Gilberto que deixa todo mundo de cabelo em pé por causa de sua fama de perfeccionista, que é capaz de sair do palco se achar que alguma coisa não está do jeito que gosta. Só depois de uma hora de show, depois da décima música, ele murmurou um pedido de desculpas para se queixar que havia "um ventinho" em cima da sua cabeça. O ar condicionado o fez reclamar mais duas vezes, bem baixinho. Mas só isso.   Foram 20 canções em português, além da italiana Estate, de Bruno Martini e Bruno Brighetti, e Eclipse, do cubano Ernesto Lecuona. De Doralice a O Pato, de Samba de Uma Nota Só a Samba do Avião, de Lígia (que cantou sem pronunciar o nome dela) a Desafinado, João enfeitiçou o público majoritariamente norte-americano por duas horas.   Cada canção, repetida várias vezes como um mantra, foi interpretada pelo João introspectivo de sempre, que só levantou os olhos para a platéia ao sair do palco, aplaudido de pé. Ao voltar para o bis, ele mostrou que a sutileza da bossa nova, da qual é pai e papa, pode fazer até hino patriótico soar como música de ninar. Antes de encerrar a noite com Garota de Ipanema, ele surpreendeu o público com Deus Salve a América, versão brasileira de God Bless America, composta por Irving Berlin em 1918. A música é considerada um hino não oficial dos EUA e foi cantada por muitos pracinhas brasileiros na Segunda Guerra Mundial. Com João, ela ganhou bim bom.   Sérgio Mendes   Antecedido pela apresentação da música "afropéia" do grupo Zap Mama, da congolesa Marie Daulne, o show de Sérgio Mendes, no sábado, foi uma reprise dos sucessos internacionais dele. Nos EUA, onde ele vive há cerca de 40 anos, Sérgio é sinônimo de bossa nova, mesmo que puristas torçam o nariz para a tradução que ele faz do gênero mais reconhecido de MPB. Liderando uma banda com seis músicos e três vocalistas, Sérgio tinha na platéia um público fã das interpretações que deu a canções de duplas como Jobim e Vinícius, João Donato e Guarabira, Dori Caymmi e Nelson Motta.   Mas até os "estrangeiros" não parecem ter gostado da guinada dele para o hip-hop, iniciada no disco Timeless (2006) com a parceria de will.i.am, do grupo Black Eyed Peas, e repetida em Enchantment. No show, as versões de A Rã, de João Donato, e The Look of Love (um dos hits de Sérgio Mendes e Brasil 66) tiveram a participação do rapper H2O. Não houve vaia, mas muitos cinqüentões levantaram as mãos e botaram o polegar para baixo. A redenção veio no bis, quando o público levantou para dançar com Mas Que Nada (Jorge Ben) e Tristeza (Haroldo Lobo e Niltinho).   Mendes vai fazer turnê por mais cinco cidades americanas, além de Toronto, Milão e Roterdã. Após cinco anos fora dos palcos brasileiros, João Gilberto deve comemorar os 50 anos da bossa nova com quatro shows dentro da programação Itaúbrasil (dias 14 e 15 de agosto, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo; dia 24 de agosto, no Teatro Municipal, no Rio; e dia 5 de setembro, no Teatro Castro Alves, em Salvador). Em novembro, canta no Japão.

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