ANA CAROLINA FERNANDES/ESTADÃO
ANA CAROLINA FERNANDES/ESTADÃO

João Gilberto vai ganhar nova biografia

No dia em que se completa um ano sem o 'Bruxo de Juazeiro', Zuza Homem de Mello fala ao 'Estado' sobre o livro que prepara para lançar pela Editora 34

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2020 | 05h00

João Gilberto se foi há um ano, 365 dias nos quais o mundo que existia do lado de fora de sua visionária quarentena só tem confirmado os desprezos por tudo o que não fosse seu quarto e seu violão. Imunizado de todos os vírus aos 88 anos, quando morreu de tanto viver um tempo que ele mesmo construiu e de tanto morrer nas ambições de quem o rodeava, João deu os últimos sinais do que seria o mundo sem ele um dia depois de sua partida, quando jornalistas pediram ao presidente Jair Bolsonaro para dizer algo sobre seu silenciamento. “Uma pessoa conhecida... Nossos sentimentos à família.”

Ainda uma terra a ser explorada, a história de João Gilberto, que curiosamente nunca teve uma biografia de fato, está agora nas mãos do jornalista e escritor Zuza Homem de Mello. Ao lado da mulher e revisora de sua obra, Ercília, Zuza, 86 anos, ergueu as mangas e foi a campo quando isso ainda era possível (e ao telefone quando deixou de ser) para fazer crescer um livro que já havia escrito sobre o cantor e compositor de Juazeiro da Bahia. 

Um primeiro perfil de João Gilberto, feito para uma série da Publifolha, editora do Grupo Folha, havia sido lançado em 2001 e chegou a ficar esgotado depois de ganhar comentários elogiosos sobre suas abordagens à harmonia e ao violão do compositor. Em 2018, Zuza quis ampliar o que já havia feito, falou com Paulo Malta, da Editora 34, e ganhou carta branca. Aí, a história fez seu trabalho, ganhou vida e se apossou do autor. O que era um pocket book ganhou uma média de 40 entrevistas a mais e se tornou um livro de dimensões bem maiores com a história abrindo novas portas. A obra não terminou ainda. Ela tem dez capítulos prontos, em revisão, com previsão de chegar até o 15º e sair até o final do ano.

O pesquisador acredita iluminar com suas descobertas, que diz já ter dado força para que a obra se tornasse um outro livro com relação ao de 2001, preservando apenas alguns trechos, épocas da vida de João ainda pouco esmiuçadas, como suas fases em Juazeiro da Bahia, de onde sai aos 18 anos, Porto Alegre, para onde vai depois de uma primeira temporada no Rio, pré-bossa nova, e Diamantina, em Minas Gerais. Um manancial inesgotável de boatarias às vezes tão cativantes que, por anos, fizeram menos importante a própria constatação da verdade, a vida de João é uma sedutora perfídia aos biógrafos que se atrevem a checá-la. E Zuza, como mostra a imagem que construiu em várias de suas publicações, é desses. Seu caminho é menos da história saborosa que ele gostaria de contar, ainda que não fosse exatamente a real, e mais o da história que, sedutora ou não, sua apuração conseguiu comprovar. “Todo mundo quer saber a história do gato que pulou da janela por não aguentar mais João ensaiar a mesma música. Eu não caio nessa. Minha proposta não foi a de fazer um livro de anedotas, que até pode existir, mas não quis as fofocas. Só vou publicar aquilo que consegui confirmar.”

Quando fez uma recente viagem aos Estados Unidos, Zuza aproveitou para entrevistar jazzistas norte-americanos que pudessem falar, pela visão do exterior, o efeito João Gilberto no jazz. Sua constatação vai além do suposto. “Foi uma verdadeira invasão da bossa nova nos Estados Unidos. E isso antes mesmo do show do Carnegie Hall existir”, diz Zuza, referindo-se ao memorável episódio em que um coletivo de bossa novistas se apresentou na casa de shows de Nova York, em 1962. As particularidades que envolvem a expressão “violão do João”, muitas vezes reproduzida de forma mecânica e genérica, é outro mergulho de sua apuração. Sem didatismo técnico, explica o que faz o acento daquela levada e seus acordes terem fundado uma musicalidade nova a partir de 1959. “Há pessoas que até hoje acreditam que João cantava as mesmas coisas. E isso, às vezes, parte da própria imprensa”, diz, com relações às surpresas em sua apuração.

Se biografias são como pedras nas quais se escolhe pisar para se chegar ao outro lado do rio, quais as pedras que Zuza escolheu? “Escolho aquilo que, de fato, conta na vida de uma pessoa, algo que aprendi fazendo a Enciclopédia da Música Brasileira nos anos 1970, com o Antonio Houaiss. Ele dizia que o maior nome da música teria de ter a biografia mais comprida. Só os fatos interessavam.” O fato de não ter a improvável história do gato – uma das melhores verdades que se esqueceram de acontecer – não quer dizer que seu livro não tenha bom humor, algo quase impossível ao se retratar João. E mais um detalhe. Além de apurar com entrevistas e ir aos arquivos, acessando artigos de publicações internacionais, Zuza faz algo do qual muitos biógrafos se esquecem, como se seus ofícios fossem apenas braçais: parar de escrever, sentar-se diante de u LP e ouvir seu biografado cantar. Ao falar do dia em que chorou ouvindo o álbum Amoroso, que João lançou em 1977, Zuza Homem de Mello chora mais uma vez.

 

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