Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Velório marca último adeus a João Gilberto

Família, colegas músicos e fãs de várias partes do mundo prestaram homenagens ao compositor no Rio

Roberta Jansen, O Estado de S. Paulo, com AP

07 de julho de 2019 | 13h35
Atualizado 08 de julho de 2019 | 17h32

Rio – O corpo do cantor e compositor João Gilberto foi velado nesta segunda-feira, 8, entre as 9h e as 14h, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O velório foi aberto ao público, enquanto o enterro, previsto para as 16h, no cemitério Parque da Colina, em Niterói, deve ser restrito à família.

João Marcelo Gilberto, filho do cantor e compositor João Gilberto, não compareceu ao velório. Segundo seu advogado, Gustavo Miranda, ele mora em Nova Jersey, nos Estados Unidos, e “está em processo de renovação de visto, além de passar por questões de saúde”. Já a filha do cantor, Bebel Gilberto chegou ao Rio, vinda dos EUA, no início da tarde de domingo.

João Gilberto morreu em seu apartamento, no sábado, no bairro do Leblon, na zona sul da cidade do Rio. Ele estava com 88 anos e passava por problemas de saúde. A causa da morte ainda não foi divulgada.

Despedidas

A cantora Adriana Calcanhotto passou pelo Theatro Municipal. Visivelmente emocionada, agradeceu ao músico por tudo o que ele fez pela música brasileira. "Foi muito profundo", disse. "Pela síntese que fez do samba, pela batida de seu violão."

O cantor e compositor Jards Macalé e a atriz Glória Pires também estiveram no velório. As filhas do cantor, Bebel Gilberto e Luísa, também estavam presentes, bem como a ex-mulher Claudia Faissol e a viúva Maria do Céu Harris. 

Uma pequena orquestra de cordas e um coral apresentaram versões de Chega de Saudade, uma das canções mais célebres na voz de João Gilberto, nas escadas do Theatro, e fãs de várias partes do mundo prestaram seus tributos.

“A música dele me lembra dos meus anos de adolescência”, disse Graciela de la Torre, fã argentina de 67 anos. “Aquele tom macio e rítmico é tão bonito. Nós dançávamos com os nossos namorados essas músicas.”

O alemão Josef Fitz, também presente no velório, disse que a arte de Gilberto “era emocionante. Era um tipo especial e novo de música”.

Jader Cruz, um carioca de 77 anos, contou que ouve as canções de João Gilberto desde que tinha 16. “Ele vai permanecer vivo dentro de nós, não vai morrer, sua música não vai desaparecer”, disse Cruz. “Ele deixou uma marca com aquela força que ele tinha, aquele amor e doçura quando tocava, isso é inesquecível.”

Últimos anos 

Os últimos anos de vida do cantor e compositor João Gilberto, morto neste sábado, 6, no Rio de Janeiro, foram marcados por disputas entre seus familiares, problemas de saúde e dívidas que chegaram a R$ 9 milhões.

Dois de seus três filhos, João Marcelo e Bebel Gilberto, travaram guerra judicial contra Claudia Faissol, mãe de sua filha mais nova. Na Justiça, Bebel pediu em 2017 a interdição do pai para que ele não fosse induzido a assinar documentos com força legal sem saber o que estava fazendo.

Em 2013, o banco Opportunity comprou 60% dos direitos sobre os quatro primeiros discos do cantor, considerados alguns dos mais importantes da música brasileira. Na época, João Marcelo acusou Claudia de receber por fora algo entre 5% e 10% desse montante.

Em 2017, João Gilberto foi interditado judicialmente por Bebel, que afirmou que seu pai estaria passando por “absoluta penúria financeira”. Nesse mesmo ano, o Estado tentou encontrar o músico em sua residência, em um prédio que fica a dois quarteirões da praia, mas nem mesmo os moradores sabiam de sua situação. “Você está aqui procurando o João Gilberto? Desiste! Nunca ouvi nem um violãozinho e moro há 30 anos no prédio”, contou uma moradora.

João Gilberto morreu aos 88 anos, recluso e sem ter visto a guerra travada entre seus familiares ter sido pacificada.

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