João Gilberto mostra o ‘novo caminho’ a Gil

Ao lançar 'Gilbertos Samba', o baiano fala de seu interesse pelas harmonias e de como reencontrou a voz

Entrevista com

Gilberto Gil

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

16 de julho de 2014 | 02h00

Atualizada às 10:43

Gilberto Gil ainda olha para o sujeito que o acompanha há seis décadas como um misterioso objeto de seis cordas. Presente do imigrante italiano Romeo Di Giorgio, feito especialmente para o encaixe de seus dedos longos e arqueados, o violão de Gil tem trabalhado mais desde que seu dono resolveu dar uma passada pela escola de João Gilberto. Gil estudou e reestudou harmonias para fazer Gilbertos Samba, o disco que dedica à obra do pai da bossa nova. Agora, ele faz shows em São Paulo, a partir de sexta, 18, no novo Theatro NET - a apresentação que estava prevista para esta quarta-feira, 16, para convidados, foi adiado para o dia 21.

Gil fala ao Estado, por telefone, de como a visita à obra de João o faz inaugurar um novo momento em sua carreira, tanto com relação ao seu instrumento, historicamente mais percussivo do que harmônico, quanto com relação à sua voz, cada vez mais delicada com o passar dos anos. Aos 72, diz o que viu e sentiu ao assistir a 12 jogos da Copa do Mundo nos estádios, incluindo o Massacre do Mineirão que esfriou sua alma. De quem foi a culpa do fracasso? “Eu achava o tempo todo que eu era o culpado.” Mais Gil, impossível.

Quando você toca Desafinado, ouve-se um ruído quase experimental na guitarra do Pedro Sá. Ser produzido por jovens como Moreno Veloso e Bem Gil é algo que moderniza sua linguagem?

Eu tenho 72 anos, comecei a fazer música há mais de 50 e de lá pra cá tanta coisa surgiu, experimentalismos, elementos da música de concerto, da música eletroacústica, das experiências de Beatles com George Martin. Quando chamo Bem e Moreno para produzir, isso tudo está em perspectiva também. Embora eu pudesse ficar satisfeito só com o meu violão, tocado no sofá de casa, e com a reprodução do espírito de João na minha emissão mais simples, tento incorporar esses panoramas que esses meninos foram trazendo ao longo do tempo.

Sempre vi você como um filho direto de Luiz Gonzaga e Caetano como um dos herdeiros de João Gilberto. Quando você visita Gonzaga, é o filho indo ver o pai. Agora, na casa de João, seria o sobrinho visitando um tio?

É, mas a gente não pode se esquecer de que João é isso também. João é de Juazeiro, a película da célula de João é toda nordestina. Ele é como eu, sertanejo. Passei a infância no sertão da Bahia, envolvido pela sanfona, pelos folguedos juninos, por essa música nordestina. João é isso também, embora ele tenha se expressado através de uma suavidade diferente que vem do cool jazz.

E o violão? Essa relação da harmonização estudada de João não é novidade para você, que sempre teve mais o ritmo, o jeito percussivo de tocar, na base do seu trabalho?

É isso mesmo. E é este o interesse mais recente que acrescentei ao meu trabalho. A descoberta dos acordes, das dissonâncias no encadeamento da razão harmônica. Passei a primeira parte da minha vida tributando a isso mesmo que você falou, à rítmica, à herança dos batuques africanos. Esse interesse maior com o modo de harmonizar, isso é dos últimos anos. E é uma coisa que desemboca no interesse de revisitar as matrizes de João.

Curioso pensar que você ajudou a criar a Tropicália e fez rock and roll nos anos 80 e nos anos 90 para voltar ao violão mais solitário...

É a velhice (risos). Isso vem com a maturidade, com a idade, com a decantação...

E como é sua relação com o violão?

É diária. Só nesse mês que passou, o abandonei porque estava de férias vendo os jogos, férias inclusive do violão. Mas ele é presença diária, toco todos os dias, viajo com ele para qualquer lugar, mesmo na época do Ministério da Cultura (de quando foi ministro) ele ficava comigo no quarto, em Brasília.

Quem é o seu violão?

Eu tenho alguns, mas o que toco agora é um que o velho Romeo Di Giorgio (italiano que fundou a empresa Di Giorgio) fez especialmente para mim, quando ele já tinha quase 90 anos.

E quando toca em casa, você toca o quê?

Eu faço muito improviso, gosto de tocar aleatoriamente para estimular a aproximação das ideias novas, dos caminhos inéditos, e faço muito isso. É assim que surge o gosto pela composição.

Muita gente se preocupou com sua voz, percebendo sua dificuldade em atingir algumas notas.

A idade leva a desgastes e à acomodação da voz também. Eu acho que, em discos anteriores, como o Banda Larga Cordel, senti muito esse desgaste. E nesse, o Gilbertos Samba, não me parece mais o desgaste, mas a acomodação desse desgaste a uma nova possibilidade de cantar.

Mas quando você sai desse campo seguro, você sente?

Sim, claro. Já necessito de tonalidades mais baixas, da emissão mais suave, deixar um pouco o rock e o pop. E, aí sim, encontro exatamente no João uma certa comodidade, uma possibilidade de continuar emitindo com beleza.

Mas a vida não é só João. Fazer um show seu está mais difícil por causa da voz?

Não muito porque eu venho, ao longo dos últimos dez anos, depois que eu tive os calos nas cordas, tentando me adaptar mesmo ao repertório elétrico, mais rock, mais pop, já venho me redomesticando para adequá-lo à minha voz. Então, eu não tenho sofrido tanto. Mesmo com canções como Palco, Realce, Refavela e Refazenda, isso tudo, eu já venho fazendo de forma mais cômoda, com tonalidades mais baixas, diminuindo a intensidade do sopro, da emissão de ar, da relação do ar com a corda vocal.

O novo disco traz um vibrato seu diferente em músicas como Desafinado, mais grave, de menos ondulações....

Não sei, bacana você dizer isso, o que coincide com aquela coisa que disse: finalmente, descubro uma adequação mais bem constituída com relação ao desgaste da voz, à idade, como se fosse possível recuperar uma certa beleza na minha corda velha (risos).

A gente sabe do que se trata, mas ainda é muito difícil para quem não estava vivo em 1959 entender o exato impacto da tal batida do violão de João...

Para você ter uma ideia, eu a ouvi e, a partir desse dia, quis tocar violão. Antes, tocava sanfona e vibrafone em um conjunto de bairro. Com a chegada da bossa, de Chega de Saudade e Desafinado, resolvi tocar violão. Pedi a minha mãe que me desse dinheiro para comprar um. Comprei também dois métodos, um do Canhoto e outro do Bandeirante, e fui, sozinho, aprendendo a tocar. Foi um impacto enorme descobrir como aquele modo de acentuação do samba encontrava uma novidade na maneira de o João fazer. Mas foram duas as batidas que, para mim, se tornaram fundamentais, que eu levaria para a vida toda: a batida do João Gilberto e a batida do Jorge Ben.

Uma a antítese da outra.

Exatamente (risos).

Você disse que o violão ficou de folga enquanto a bola rolava. Assistiu a muitos jogos da Copa?

Muitos pela TV e fui a 12 nos estádios. Vi cinco do Brasil, três da Alemanha, dois da França, dois da Bélgica... Fui a Fortaleza, Itaquerão, Mineirão duas vezes... Viajei, me hospedei em pousadas, lugares dos mais simples. Para o Itaquerão, fui de metrô (risos).

Então você está habilitado para responder a isso: o que foi esta Seleção Brasileira?

Olha, a coisa que mais salta aos olhos e ao meu sentimento é a extrema pressão que a Seleção sofreu para ganhar a Copa. Jogar em casa, o hexa, esse foi um impacto enorme para os meninos. Se eu estivesse no lugar deles, teria me abalado também. Isso, além das questões técnicas e táticas. Havia uma defasagem mesmo do padrão brasileiro de jogar com relação ao padrão alemão, belga, francês, holandês, esse futebol extremamente solidário e altamente técnico na concepção do jogo coletivo.

Você tem a visão de quem sofreu pressões na vida. Mas, indo ao ponto, a culpa é do Felipão?

Não, eu achava o tempo todo que eu era o culpado.

Você?

Sim. Porque é assim que eu sou. Eu via e pensava, ‘meu Deus do céu, eu não estou conseguindo’. De alguma maneira, eu precisava ser o culpado. Talvez por ter sido condescendente demais, por não ter visto antes a obsolescência do modelo, por ter ainda essa esperança de querer ganhar a qualquer custo. Na saída, no Mineirão, uma menina me disse “Você é pé-frio”. E eu respondi: “Sim, eu sou. Mas você também é”. A culpa é de todos nós.

GILBERTO GIL

Theatro NET. Rua Olimpíadas, 360, Shopping Vila Olímpia, 4003-1212. 6ª e sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 50/ R$ 200.

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