João Gilberto faz temporada lotada em São Paulo

Gosto não se discute. Muito menos genialidade. João Gilberto está no segundo item. A volta do músico ao País, e a São Paulo, depois de um giro comentado por Montreal, Montreaux e Paris foi comemorado com três noites de show com a casa Tom Brasil lotada e com direito a bolo e velinha no palco para celebrar também os recém completados 70 anos. A primeira apresentação, na sexta-feira, era para ser um reencontro pacífico com a cidade. João reclamou do som da casa já na segunda música da noite. Primeiro, queixou-se de "um vento" que estava vindo de cima. Depois, que não ouvia a própria voz. Por fim, que estava como um surdo no palco, sem retorno de som. Interrompeu as canções até uma hora do começo do espetáculo. Perguntou se estava "bom para vocês aí" num determinado momento. Da platéia, ouviram-se inúmeros "ótimo", "maravilhoso", mas ele não se deu por satisfeito. "Bom, aqui não tá". Havia de fato um problema de equilíbrio sonoro entre instrumento e voz, e também de volume. O cantor, embora demonstrando irritação desde o começo do espetáculo, evitou o confronto com o público. Num determinado momento, o cantor esqueceu a rabujice e passou a desfilar um repertório belíssimo, que incluiu Estate, Desafinado, Doralice, Saudosa Maloca, Chega de Saudade, Garota de Ipanema e até sua versão muito particular do Hino Nacional. Ao final, tinha atravessado quase três horas no palco, atendendo a pedidos do público - até de manifestantes que, um tanto quanto grosseiros, pediam aos gritos músicas quase clichês de seu repertório. Também nomeou - ao fim de uma cancäo na qual falava da impossibilidade de ser feliz com determinada mulher, por não amá-la - a tal musa à qual se referia. "Gilda", disse, com um sorriso tímido. No segundo e terceiro dia de show o problema do som já havia sido solucionado. O "vento" que o atrapalhara na sexta dera lugar ao calor. No domingo, no intervalo entre as músicas, parou, limpou o suor do rosto e avisou "está quente, mas por favor não manda esse vento aqui no palco não". Bem humorado, João mostrou porque dez entre dez músicos experientes o reverenciam acima do bem e do mal. Claramente emocionado, depois de repetir várias vezes a música Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa, disse: "São Paulo de minha vida". Assoprou a vela do bolo trazido pela produção do espetáculo, teceu comentários a respeito da simplicidade da letra do samba de Adoniran ("O Joca só fala uma vez" - "Além de ser um palacete, veja só, é um palacete assobradado") e tocou o samba mais um par de vezes exigindo da platéia que cantasse em seu lugar. João mostrou que Adoniran está para São Paulo assim como Dorival Caymmi está para a Bahia. O repertório do sábado e do domingo ainda incluiu músicas como O Pato, Bim Bom, Milagre, Pra que discutir com Madame, Insensatez, Foi a Noite, A Felicidade, uma versão especialíssima de Lígia, Wave, Corcovado e Eclipse.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.