João Gilberto faz curta temporada em SP

A cadeira e o banquinho para apoiar a perna direita não podem estar nem mais alto, nem mais baixo. A caixa de som deve ser da marca Mayer. Microfones para violão e voz, AKG. Ar condicionado, desligado. Iluminação, sem exageros. Jornalistas, longe. A garçons, fotógrafos, seguranças e qualquer um da platéia, o mesmo. Que não cometam a infelicidade de romper o silêncio que a música produzir.Quando o automóvel de João Gilberto parar em frente ao discreto portão de serviços do Tom Brasil para os shows que fará na casa, de sexta a domingo, uma reunião entre os funcionários responsáveis por som, luz e serviço de bar já terá sido realizada. O espaço em que o baiano se apresenta pela oitava vez desde que o inaugurou, em 1995, tenta chegar à perfeição sempre que o tem como convidado.João Gilberto fará o mesmo concerto que levou recentemente ao Carnegie Hall de Nova York para celebrar os 40 anos da antológica apresentação de 1962, responsável pela internacionalização da bossa nova. Ainda que seu repertório seja mutável e nunca divulgado, sabe-se que fará homenagens a Dorival Caymmi, Tom Jobim, Custódio Mesquita, Pixinguinha, Ary Barroso...O homem que o traz a São Paulo com uma freqüência de fazer inveja a mega empresários do showbiz é Paulo Amorim, um dos sócios do Tom Brasil. Amorim, casado com a cantora Jane Duboc, se diz felizardo por ter estabelecido durante estes anos "um bom grau de amizade por telefone" com seu ídolo. "Nossa amizade é algo muito louco, como tudo é muito louco na vida de João."O fato de ter o músico como residente é festejado com discrição. "Não posso usar João para enaltecer a casa. Não seria justo. Percebo que ele se sente respeitado por nós."Músico não faz passagem de som As voltas constantes fizeram o Tom Brasil ficar expert em João Gilberto. Seu roteiro é conhecido por lá. Ele chegará minutos antes do show. Não aparecerá para passar o som, tarefa que pode ficar a cargo de algum artista - Toquinho e Jane Duboc já desempenharam a função para o amigo, gentilmente.João subirá ao palco e fará uma hora e dez minutos de show concentrado. Entre a segunda e a terceira música, ou a terceira e a quarta, dirá que algo não está bom - ou o som do violão, ou algum ruído na platéia. Quando sentir que sua missão está cumprida, restando meia hora para o final, começará a tocar o que a platéia quiser ouvir. Fará piadas, brincará com o público.O show terminado, João desce as escadas de trás do palco e entra no carro rumo ao hotel. Às 2h da manhã, o celular de Amorim poderá tocar. "Ele sempre liga para falar ou que a noite foi maravilhosa, ou que o som não estava bom. Ficamos horas conversando."João Gilberto. Sexta e sábado, às 22h. Domingo, às 20h. Tom Brasil (Rua das Olimpíadas, 66. Tel. 3845-2326) Ingressos: de R$ 50 a R$ 100.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.