Eduardo Nicolau/Estadão
Eduardo Nicolau/Estadão

João Gilberto está no centro de uma disputa familiar que virou caso de Justiça

No prédio em que mora, no Leblon, cantor e compositor permanece uma sombra

Julio Maria e Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2017 | 06h04

RIO - O mundo de João Gilberto está em crise. Aos 86 anos, o homem que colocou o Brasil no mapa apenas com um violão a partir de 1959, com o álbum Chega de Saudade, não deve saber ao certo o que se passa da porta para fora de seu apartamento do Leblon, um universo com o qual ele rompeu há quase dez anos, quando fez sua última aparição pública. Se estiver disposto a ouvir, as notícias não são boas: seus filhos João Marcelo e Bebel Gilberto estão em guerra contra Claudia Faissol, a mãe de sua filha mais nova. Na Justiça, Bebel pediu a interdição do pai para que ele não seja induzido a assinar documentos com força legal sem saber o que está fazendo.

O alvo tem endereço certo, Claudia Faissol. Bebel e João enxergam em Claudia um perigo constante ao lado do pai. Em entrevista ao jornal O Globo, em julho, João disse que a jornalista que se aproximou de seu pai para fazer um documentário e acabou sedimentando um relacionamento estaria se aproveitando “de uma pessoa idosa”, que não teria “total habilidade para compreender contratos complexos”. Ele a acusou de estar envolvida em uma transação paralela à que vendeu obras de João ao Banco Opportunity

Em 2013, o banco comprou 60% dos direitos sobre os quatro primeiros discos do cantor, considerados alguns dos mais importantes da música brasileira. João acusou Claudia de receber por fora algo entre 5% e 10% do valor. “Ela é uma criminosa e continua a roubar do meu pai”, disse João Marcelo. “Se as finanças do meu pai não estivessem um circo, ele estaria cheio de dinheiro.”

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O Estado procurou João Marcelo por meio de sua mulher, Adriana. Ela disse que ele não quer se pronunciar neste momento, mas que reafirma o que disse na entrevista ao Globo. Claudia Faissol não respondeu aos e-mails nem às tentativas de ligação da reportagem até o fechamento desta edição. Bebel Gilberto também prefere restringir, neste momento, sua atuação na Justiça. “Ela vai provar tudo, e só depois vai falar com os jornalistas”, disse uma influente amiga, que prefere não se identificar.

João Gilberto vive em “absoluta penúria financeira”, corre risco de despejo e apresenta quadro de confusão mental já há alguns anos, segundo sua filha Bebel Gilberto, que conseguiu na Justiça sua interdição e se tornou sua curadora. Declarado incapaz, ele não poderá assinar contratos nem movimentar sua conta bancária, por exemplo.

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A iniciativa de Bebel, que mora em Nova York e veio ao Rio prestar assistência ao pai, foi para resguardá-lo financeiramente, como diz nota enviada à imprensa pela advogada Simone Kamenetz.

A interdição e a curatela, relativamente comuns em casos de idosos com saúde precária ou dificuldades mentais, foram concedidas depois que Bebel comprovou ao juízo que João não compreende as consequências de seus chamados “atos civis” e das decisões que toma em sua vida.

“João já vem apresentando, há alguns anos, um quadro confusional, que não o permite compreender com clareza e exatidão os atos jurídicos que lhe são solicitados por terceiros, resultando numa situação atual de absoluta penúria financeira, apesar de ser titular de direitos autorais que deveriam lhe garantir mais que sua subsistência por toda a sua vida”, informa a nota.

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A família acredita que ele tenha sido manipulado para assumir compromissos que não poderia honrar. Na nota que divulgou, a advogada de Bebel não nomeia quem seriam, mas as discordâncias da família com Claudia Faissol, mãe de Luiza, caçula de João, de 11 anos, são notórias. Claudia desligou o telefone e não respondeu às solicitações de entrevista do Estado.

O cantor responde a processos por não ter comparecido a compromissos profissionais “contratados por terceiros em seu nome, o que acarretou em condenações indenizatórias em valores superiores à sua baixa renda”, ainda de acordo com a nota. Entre eles, estaria a turnê de 2011, ano em que João se tornou octogenário.

O projeto era ousado. Incluía interpretações de canções que João nunca havia tocado e cantado, e a transmissão do espetáculo ao vivo, via satélite - um roteiro difícil de imaginar em se tratando de João e sua obsessão pela perfeição. O cancelamento foi atribuído pelos produtores a duas hérnias que ele tinha na coluna, que doíam quando fazia shows, por causa da posição do instrumento junto ao corpo.

Hoje, João não está doente, mas fragilizado pela idade. Sebastião Alves, gerente de seu restaurante predileto, o velho Degrau, a menos de 200 metros de seu prédio, falou com ele ao telefone na semana passada. “Ele estava bem, fez seu pedido e conversou comigo. Mas a idade chega para todo mundo, né?”, disse Alves, que o atende desde 1976, sempre pelo telefone. Só esteve com ele pessoalmente uma vez. Nunca foi a um show. “Sou evangélico e só de casa para o trabalho e a igreja. Mas ele é um cliente preferencial. No sistema, não coloco seu nome e o telefone, só ‘JG’”, contou, sabedor de sua opção pela reclusão.

No prédio em que João mora, na Rua Carlos Góis, a uma quadra e meia da praia, não há quem o tenha visto no elevador. “Você está aqui procurando o João Gilberto? Desiste! Nunca ouvi nem um violãozinho e moro há 30 anos no prédio”, avisa logo uma moradora que passeia com seu cachorro, ao avistar a reportagem. “João Gilberto aqui só no CD”, brinca uma senhora que sai para caminhar à beira-mar.

No apart-hotel da Rua Almirante Guilhelm, perto dali, em que morou no passado, a resposta é a mesma. Quando se pergunta por João Gilberto... “O João Gilberto da bossa nova? Saiu daqui tem tempo, e mesmo quando estava não dava as caras”, atestou um dos porteiros.

Mãe de Bebel, a cantora Miúcha, que se casou com João nos anos 1960 e é a única pessoa ligada a ele a dar entrevistas - embora prefira ser sucinta, em respeito à personalidade dele, disse que não sabia da interdição até ver a notícia na imprensa. “Bebel está tentando ajudar João. Ele se meteu em muita confusão, negócios errados, mas não sei detalhes sobre isso. Ela está tentando arrumar a vida dele”, resumiu Miúcha. “Espero que fique tudo bem com ele."

A voz e o violão do Brasil não são ouvidos ao vivo desde os shows por ocasião dos 50 anos da bossa nova, em 2008. Há dois anos, fotos de um João mais magro e de pijama, ao lado de Bebel e de Miúcha, foram compartilhadas pela filha no Facebook. 

O silêncio em torno de João parece um pacto. Amigos mais próximos, antigos confessionários das madrugadas telefônicas com João, apenas lamentam. “Eu não gostaria de falar nada nesse momento, acho isso tudo muito triste”, lamentou o compositor Jards Macalé.

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