João Gilberto é destaque do fim de semana em SP

João Gilberto fez 70 anos em junho. Estava viajando. Um circuito internacional que incluiu os festivais de Montreal (Canadá), Montreaux (Suíça) e apresentações em Paris. Não comemorou a data redonda no Brasil. Vai fazê-lo agora, na Tom Brasil, onde canta de sexta-feira a domingo. Ao mesmo tempo, festeja os seis anos de existência da casa de espetáculos - da qual fez o show de inauguração.Quem viu João em outros palcos sabe: em nenhum ele parece estar tão à vontade quanto no que ocupa neste fim de semana. Ali, por algum motivo misterioso - fala-se, afinal, de João Gilberto -, estabelece-se uma comunhão perfeita entre cantor e público. Ele chega mesmo a pedir que a platéia lhe faça coro, o que poderia sugerir o sacrilégio dos sacrilégios. Deixa que a platéia cante a parte principal da música e faz contracantos. E volta para sessões de bis que às vezes são mais longas do que o show formal.Ele nunca antecipa o repertório de suas apresentações. Decide o que vai cantar no último momento - peças do repertório que estuda obsessivamente, todos os dias e noites da vida inteira. Não deixará de fora Jobim, Caymmi, Geraldo Pereira, Herivelto, que nunca deixa de cantar. Mas pode sacar do fundo do baú um Custódio Mesquita esquecido, um Sinval Silva menos conhecido. Seja como for, cada interpretação de João Gilberto é nova: uma síncope, uma ênfase, uma divisão sutil e surpreendente. João é um dos grandes gênios da música popular do mundo. Privilégio é vê-lo e ouvi-lo.Novos discos - Outros veteranos estão na agenda de shows da cidade. Amanhã e sábado, na Choperia do Sesc Pompéia, apresentam-se os compositores e cantores Guilherme de Brito e Casquinha. Vêm promover o lançamento de seus discos, editados por uma gravadora nova, que tem sede em São Paulo, a Lua Discos: Samba Guardado, de Guilherme, e Casquinha da Portela.Guilherme, nascido em Vila Isabel, em 1922, é mais conhecido, parceiro constante de Nélson Cavaquinho em A Flor e o Espinho, Pranto do Poeta, Quando Eu me Chamar Saudade, Folhas Secas e outras obras-primas. Gravou apenas um disco, antes, nos anos 80. Neste segundo, deu ao mundo parcerias inéditas com o parceiro Nélson Cavaquinho, com Nelson Sargento e ainda um samba - Maria - de que assina letra e música.Baluarte - Casquinha, nascido também em 1922, no subúrbio carioca de Osvaldo Cruz, batizado Oto Henrique Trept, é um dos baluartes da gloriosa Portela, parceiro histórico de Candeia e Argemiro, parceiro também de Paulinho da Viola em Recado ("Leva o recado/ Pra quem me deu tanto dissabor..."), uma das figuras mais importantes do samba do Rio de Janeiro. Casquinha da Portela é seu primeiro disco-solo. Como o de Guilherme de Brito, foi produzido pelo compositor e cantor Moacyr Luz.E, por falar em veteranos, Dona Ivone Lara também está em cena, no fim de semana. Canta, só no sábado, no Teatro Crowne Plaza, tendo como convidada a cantora paulista Carmem Queiroz, as duas acompanhadas pelo excelente Quinteto em Branco e Preto. O espetáculo faz parte do projeto Samba em Sampa, idealizado pelo ator Sérgio Mamberti, que, até o mês que vem, juntará em cena um sambista do Rio e outro daqui.Carmem Queiroz estreou no disco no ano passado, com Leite Preto (CPC-Umes), recebendo de Beth Carvalho o seguinte comentário: "Carminha é uma deusa negra de voz magnífica e sensibilidade à flor da pele. O Brasil ganha uma grande cantora e um grande caráter." E de Nelson Sargento: "Na sua interpretação ímpar, temos a sensação de que a música flutua num céu azul."Inéditas - São opiniões difíceis de discutir, pois não? E Dona Ivone Lara, que neste mês faz 81 anos, aproveita a oportunidade para lançar seu novo disco, Nasci pra Sonhar e Cantar, o primeiro com músicas inéditas que grava em muitos anos. Nascida no bairro de Botafogo - o único da zona sul do Rio que tem tradição do samba, já que de lá são também Mauro Duarte, Paulinho da Viola e outros bambas -, Dona Ivone foi mulher pioneira a integrar uma ala de compositores de escola de samba - o Império Serrano -, compôs mais de 300 músicas e tem inúmeros sucessos - basta lembrar Sonho Meu (com Délcio Carvalho) ou Mas Quem Disse Que Eu te Esqueço? (com Hermínio Bello de Carvalho).Quarto livro - E Martinho da Vila, o mais novo dessa turma toda, excetuada Carminha Queiroz (Martinho José Ferreira nasceu em Duas Barras, Estado do Rio, em 1938), promove dois lançamentos, com samba de mesa que começa às 18 horas de domingo na Fnac: autografa o disco Martinho da Vila, da Roça e da Cidade (Sony Music), o melhor que realizou nos últimos dez anos, e o livro Ópera Negra (Global Editora), seu quarto título, ficção que fala de um mundo sem racismo. Um sonho recorrente, de que sua grande música desde sempre tratou.João Gilberto. Sexta e sábado,às 22 horas; e domingo, às 20 horas. De R$ 30,00 a R$ 90,00. Tom Brasil. Rua das Olimpíadas, 66,tel. (11) 3845-2326. Até domingo. Patrocínio: Volkswagen e Ourocard / Mastercard.Guilherme de Brito e Casquinha. Sexta e sábado, às 21 horas. De R$ 5,00 a R$ 10,00 (sexta) e de R$ 6,00 a R$ 12,00 (sábado) . Choperia do Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700.Dona Ivone Lara. Sábado, às 21 horas. R$ 20,00. Teatro Crowne Plaza. Rua Frei Caneca, 1.360, tel. (11) 289-0985. Patrocínio: Imprensa Oficial do Estado Martinho da Vila. Lançamento do CD Martinho da Vila, da Roça e da Cidade; e do livro Ópera Negra, editora Global, 96 páginas, R$ 15,00. Sábado, às 18 horas. Entrada franca. Fnac. Avenida Pedroso de Morais, 858, tel. (11) 3097-0022.

Agencia Estado,

16 de agosto de 2001 | 17h16

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.