João Gilberto compensa atraso e faz bis com 10 músicas

Cantor se desculpou por atraso, homenageou dono do hotel Maksoud Plaza e mandou um "São Paulo, I love you"

Jotabê Medeiros, Lauro Lisboa Garcia e Livia Deodato,

15 de agosto de 2008 | 00h24

Fotos: Eduardo Nicolau/AE SÃO PAULO - João Gilberto foi generoso com o público paulista que foi assistir ao seu concorrido show na noite desta quinta-feira, 14, no Auditório Ibirapuera. Sem fazer nenhuma reclamação do som ou do ar-condicionado, o cantor e violonista ícone da Bossa Nova compensou o longo atraso de mais de uma hora e meia do início da apresentação com um bis de 10 músicas. Foram 30 canções ao todo. A última delas, Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinícius de Morais. João pediu desculpas pelo atraso e se justificou com o cansaço da viagem de volta de Nova York, onde esteve recentemente. O pedido de desculpas foi aceito com aplausos.  Um momento inusitado do show foi a homenagem que fez a Henry Maksoud, dono do Hotel Maksoud Plaza. "Ele inventou um hotel... é o castelo da hospitalidade. É tão lindo, aquela varanda...", divagou o baiano, que volta a se apresentar nesta sexta-feira, 15, no Auditório Ibirapuera. Às 21h45 - 45 minutos após o horário marcado para começar o show de João Gilberto - o crítico musical Zuza Homem de Mello foi ao microfone do auditório do Ibirapuera e disse: "como vocês podem imaginar, vamos ter de esperar mais um pouquinho. O timing do artista é o seu violão. O que eu posso dizer é que o avião já decolou, já aterrissou e ele já está a caminho."       A expectativa do público era grande - e da imprensa ainda maior. Passava das 22 horas, quando alguns repórteres e cerca de 25 fotógrafos começaram a se aglomerar na entrada lateral do Auditório Ibirapuera, cujo acesso é voltado para a Avenida Pedro Álvares Cabral. Onde estaria João Gilberto?     Às 22h10, a equipe do Auditório Ibirapuera veio pedir organização para a imprensa: que se formasse uma fila lateral para não atrapalhar a entrada de João Gilberto. Dois minutos depois e lá estava ele descendo do carro, cabisbaixo, sem dar uma palavra. E um mundo de fotógrafos disputando centenas de flashes.   Monique Gardenberg, da Dueto, a produtora do show de João Gilberto, justificou o  atraso. Informou à reportagem que o cantor havia desembargado e já estava próximo do  Parque Ibirapuera. "É o tempo dele, não há a menor maneira de contrariar", disse. Já no elevador do prédio, ela confirmou. "Agora está tudo bem. "Perguntada por que a cadeira que o artista iria usar no show ainda não estava no palco, disse: "Ele quer testar antes."   Lá fora, havia uma certa confusão com gente chorando porque seus nomes não estavam   na lista de convidados do cantor. É que João Gilberto mandou avisar por meio da imprensa que queria ter na platéia amigos de São Paulo que ele há muito tempo não via. Muitos vieram. Um deles foi Álvaro de Moya, jornalista, escritor, produtor, ilustrador e diretor de cinema e televisão, que trabalhou com o cantor na TV Excelsior nos anos 60.  Moya lembrou de quando o recebia no programa e se divertiu muito numa ocasião em que João e Orlando Silva (a quem ele imitava no início da carreira) se encontraram no programa. "Bibi Ferreira pediu para João imitar Orlando e ele imitou." O poeta Galvão, dos Novos Baianos, foi outro desses convidados e trouxe sua banda. "Não falei com ele esses dias, porque quando está perto de fazer show, é muito difícil encontrar João", disse. Galvão é um dos privilegiados a freqüentar a intimidade do pai da bossa nova. "Ele toca pra mim no apartamento, estou acostumado a vê-lo trabalhando nas canções, mas mesmo assim, toda vez que vou a show dele, sempre tem uma surpresa." No hall do Auditório figuravam ilustres, como Manuel Pires da Costa, presidente da Bienal, Roberto Civita, presidente do Grupo Abril, o publicitário Nizan Guanaes, o ator Wagner Moura e o produtor Nelson Motta. A expectativa pela apresentação de João Gilberto se seguiu até o último minuto. Quando a voz pré-gravada de uma locutora pediu "por favor, ocupem seus lugares", o público que esperava havia mais de uma hora explodiu em gargalhada. O show estava previsto para começar às 21 horas. Depois de uma breve apresentação de Homem de Melo, João Gilberto entrou no palco às 22h37, trazendo seu violão, bastante aplaudido. Sentou-se na cadeira de madeira que os contra-regras haviam trazido dez minutos antes, junto com um apoio para os pés, os dois microfones e um banquinho onde acomodaram uma toalha, uma garrafa de água e um copo. Desculpas O cantor começou o show às 22h38 pedindo desculpas pelo longo atraso. "Vocês me desculpem o atraso. Dizem que eu atraso, mas não atraso, não. É que tive de fazer uma viagem anteontem e cheguei atrasado", justificou. "Vocês me desculpem", repetiu. Em seguida, abriu o roteiro de canções com o clássico Aos Pés da Cruz, de Marino Pinto e Zé da Zilda. Perto do fim da música, para espanto geral, entrou o sinal sonoro de desligamento de um computador, provavelmente aquele utilizado antes para exibir a programação da casa. Foto: Eduardo Nicolau/AE E quem disse que show de João não tem surpresa? Pois foi o que aconteceu na segunda música, quando interpretou um bem-humorado e desconhecido samba que fala de uma "nega macumbeira" que "tem um 13 de ouro pendurado no pescoço" e "se vê um gato preto dá doce pra Cosme e Damião". O primeiro clássico da bossa nova veio em seguida, Wave, de Tom Jobim. Foi quando surgiram projeções de imagens caleidoscópicas no telão ao fundo, algo não muito comum nos shows de João, que em seguida cantou Caminhos Cruzados (também de Jobim, com Newton Mendonça). Ao final da canção, agradeceu: "Obrigado. São Paulo, I love you." Antes de interpretar Doralice, de Dorival Caymmi (a mais aplaudida até então), foi que João teceu loas a Henry Maksoud, elogiando o "castelo de hospitalidade" que é o hotel. "É tão lindo, aquela varanda." E continuou: "Me desculpem vocês, um beijo, Henry." Explicou também que a pulseira no punho esquerdo não era um enfeite, mas "um bracelete astrológico". Houve comentários de que o atraso não foi por conta de viagem nenhuma, mas que ele estava jantando com Maksoud no hotel. De todo modo, a espera compensou. Entre outros clássicos, ele ainda cantou Rosa Morena (Dorival Caymmi) e Desafinado (Tom Jobim/Vinicius de Moraes). Após 20 músicas, João Gilberto deixou o palco, mas retornou para o bis, presenteando o público com mais 10 canções e finalizando a apresentação, à 0h05, com Garota de Ipanema.

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