João Gilberto, a esfinge da bossa, volta a SP

João Gilberto toca amanhã no TomBrasil, casa que inaugurou há alguns anos. Seu último concertolá, em agosto do ano passado, não foi tão pacífico. Joãoreclamou do som da casa já na segunda música da noite. "Toqueiem muitos lugares. Fui à Sicília e tudo funcionouperfeitamente", reclamou. "Está bom para vocês aí?",perguntou, a certa altura. Da platéia, ouviram-se inúmeros"ótimo", "maravilhoso", mas ele não se deu por satisfeito:"Bom, aqui não tá."João Gilberto é uma espécie de perfeccionistaprofissional que desperta a voracidade da mídia pela obsessão emfazer um antimarketing. Só compôs sete canções em sua carreira,mas foram seu toque ao violão e a equação extraordinária quecriou para a combinação voz e instrumento que o tornaram o mitoque é hoje.Tem fama de ser um músico que não faz concessões, quenão apela para populismos. Mas, em seus shows em São Paulo,quando canta Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa, porexemplo, deixa uma brecha para a audiência entrar cantando junto, pede coro, canta diversas vezes a mesma canção. O mesmo públicoque ele desafia, às vezes ele bajula. Essas contradições sãoparte de sua personalidade?Muito provavelmente. Essa confusão entre o que o artistaoferece e o que o excêntrico esconde acaba turvando um pouco aavaliação da música de João Gilberto. Ele é uma vaca sagradainquestionável - até por que não se deixa questionar.Contam-se muitas esquisitices protagonizadas por João,muitas delas quase piadas populares - como aquela história deque teria ligado para Elba Ramalho, certa vez, para pedir-lhe umbaralho. Quando ela bateu à porta com o baralho, ele pediu queenfiasse cada carta por vez por debaixo da porta.Há uma outra, muito engraçada, que muitos amigos contam:às vezes ele liga para combinar um jantar "por telefone".Então, manda buscar a mesma comida que o amigo, lá na casa dele,vai comer, e ambos comem enquanto conversam ao telefone.Seus siricoticos com as condições técnicas dos shows,invariavelmente, fazem sentido, não são exageros de diva. Massuas reações às vezes são deselegantes. "Vou voltar para BuenosAires, onde eu nasci", disse, na famosa inauguração doCredicard Hall, referindo-se à acústica perfeita do teatro ondetinha feito concerto dias antes, na Argentina.Quando gravou o single Chega de Saudade, de Jobim eVinícius, em 10 de julho de 1958, com a faixa-título, eBim-Bom, de sua autoria, João criou uma espécie de credo, umtipo de religião bossa-novista que ele seguiria com afinco peloresto da vida. Para venerá-lo sem máculas, é preciso acreditarque essa crença é artística, que ele é uma espécie de Van Goghque, mesmo condenado à miséria ou ao desprezo dos seus pares,nunca se afastou de seus princípios - e não que ele seja apenasum tipo de fanático religioso, preso a um dogma.Faz 51 anos que ele começou a carreira discográfica.Gravou seu primeiro álbum, Garotos da Lua, em julho de 1951,pelo selo Todamerica, com as músicas Quando Você Recordar(Valter Souza e Milton Silva) e Amar É Bom (Zé Kéti e JorgeAbdala). Seu conceito de um concerto ao vivo é ortodoxo. Canta,invariavelmente, os standards da bossa, como Desafinado, OPato, Samba de Uma Nota só, Chega de Saudade eGarota de Ipanema. E algumas reinvenções mais particulares,como Estate, Doralice e até uma versão muito particulardo Hino Nacional Brasileiro.João Gilberto. Sexta e sábado, às 22 horas; e domingo, às 20 horas. De R$ 50,00 a R$ 100,00; de 25,00 a R$ 50,00 (estudantes). Tom Brasil. Rua das Olimpíadas, 66, tel. 3845-2326. Até domingo. Patrocínio: Volkswagen.

Agencia Estado,

01 de agosto de 2002 | 18h26

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