Leo Aversa
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João Fênix: voz e piano no novo 'Gotas de Sangue'

Álbum, que chega às plataformas digitais em 23 de julho, traz canções de Chico Buarque, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e outros

Danilo Casaletto, Especial para o Estadão

15 de julho de 2021 | 15h00

A fragilidade e a melancolia encontram um lugar de conforto na alma do cantor João Fênix. Não que ele seja uma pessoa triste – longe disso. Mas ele, nesse arriscado aconchego, consegue enxergar e extrair o belo. Por isso, quando a pandemia chegou, Fênix, ao observar a nova condição humana, achou que era o momento de expor esses sentimentos. E revelá-los aos poucos, gota por gota.

O resultado está no álbum Gotas de Sangue que chega às plataformas digitais no dia 23 de julho. Acompanhado apenas pelo pianista Luiz Otávio, Fênix interpreta canções de Chico Buarque, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Angela Ro Ro, Dolores Duran, Ivor Lancelotti, Zeca Veloso, entre outros.

Ao contrário do álbum anterior, Minha Boca Não Tem Nome, no qual ele abordava questões que estavam à sua volta, como sexualidade e liberdade religiosa, o novo trabalho parte de seu universo para atingir o todo. Todas as canções são regravações.

“São músicas que estavam no meu celular ou nas minhas anotações há tempos. Sempre as cantarolei. Foi algo bem natural. Quando comecei a gravar as primeiras, o Jaime Alem (produtor e violonista), dizia que já estava bom no primeiro take. Eu já estava querendo errar as letras de propósito só para poder gravar novamente. Ele queria muito mais a naturalidade do que a perfeição técnica”, diz, sobre o processo de gravação, feito ao vivo no estúdio.

Uma das que Fênix gravou de primeira é Lígia, clássico assinado apenas por Tom Jobim. A canção é a terceira do álbum – e todas elas estão postas em uma ordem que, pela concepção de Fênix, ajudam a percorrer um roteiro de sentimentos.

A que abre esse caminho é Quixeramobim, de Ivor Lancelotti e Roque Ferreira, fala em “quindins do meu querer” e da busca por um lugar onde se possa viver melhor, no caso, onde há chuva – e menos sofrimento - no sertão nordestino.

A segunda é Todo Homem, de Zeca Veloso, que, segundo Fênix, é o arco emocional do álbum e mostra toda a fragilidade do homem, independentemente de sua sexualidade, perante à vida e ao feminino. O registro do filho de Caetano, lançado em single de 2017, traz um registro agudo, de voz de cabeça – com menos potência – que ficou muito característico. Fênix percorreu outro caminho para dar sua personalidade à música.

“Eu fiz voz de peito (mais densa), começando pelo meu limite mais grave e, na segunda parte, no meu limite mais agudo, com notas mais curtas”, explica.

 

Além de Lígia, músicas como o afro samba Tristeza e Solidão, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, ganha interpretação mais contida, com o piano de Luiz Otávio reproduzindo o batuque do violão de Baden no refrão, quando a letra fala da busca da consolação na religião. Fênix considera essa sua melhor gravação no disco.

Outro clássico, Ternura Antiga, de Dolores Duran, que o cantor conheceu na voz de Nana Caymmi, liga-se ao cantor pelos versos A rua escura/ o vento frio/ Esta saudade, este vazio/ Esta vontade de chorar. “Isso é a minha cara”, diz Fênix.

A redenção desses sentimentos, depois de passar pelo Desalento, de Chico Buarque, acontece em O Portão, de Roberto e Erasmo Carlos, uma composição que fala de volta, de reconciliação com o passado. Nessa escolha também há uma questão pessoal. Assim como Ternura Antiga, Roberto gravou O Portão em seu álbum de 1974, ano de nascimento de Fênix. “Minha mãe, que eu perdi aos 5 anos, deve ter ouvido muito esse disco. Tem algo sobrenatural nessa canção, que eu sempre tive contato na minha vida. Para gravá-la, tive que segurar a minha emoção”, diz o cantor, que perdeu o pai aos 12 anos. Fênix foi criado pelos tios.

Gota de Sangue, de Angela Ro Ro, fecha o álbum e, depois do reencontro em O Portão, mostra um personagem mais seguro e assertivo em seus desejos. “Venha de manso ouvir o que eu tenho a contar”, diz um dos versos. A música saiu como single do álbum e já está disponível nas plataformas digitais.

O encontro com o pianista carioca Luiz Otávio, que acompanha Fênix em todas as canções, estava sendo ensaiado há algum tempo. Em 2020, os dois chegaram a ensaiar para um show só com músicas do compositor e escritor canadense Leonard Cohen – de Hallelujah – e gravaram algumas canções para um projeto de duetos de Fênix (leia mais abaixo). Ambos foram paralisados por conta da pandeia. “O Luiz é lindão, um black power incrível. Muito intuitivo, assertivo. Sempre chega pronto no estúdio”, diz o cantor. Luiz Otávio é cego.

O show Gotas de Sangue estreia em 23 de julho, mesmo dia do lançamento do álbum, no Teatro Rival Refit, no Rio de Janeiro, em apresentação com público – ao qual ele não encontra desde o carnaval do Recife de 2020. No dia 29, chega a São Paulo, no Galeria Café. A direção é de Elias Andreato e terá, além de músicas, fragmentos de textos, como um de Caio Fernando Abreu.

“O Elias tem uma doçura ao trabalhar com os artistas, a sensibilidade de potencializar o que um cantor tem para dizer a partir da voz. Estou ansioso para voltar aos palcos”, diz Fênix.

Duetos

Assim como grande parte dos artistas, Fênix também remanejou projetos para se adaptar às restrições trazidas pela pandemia. Antes dos encontros se tornarem um risco, ele trabalhava em um álbum audiovisual de duetos, que seria lançado pela gravadora Biscoito Fino.

A cantora Joanna era uma das que já haviam gravado sua participação na música Chama, sucesso dela. Ney Matogrosso, Teresa Cristina e Filipe Catto também estavam na lista. As gravações serão retomadas assim que possível. A seleção de repertório é do ex-deputado federal Jean Wylls. 

Dividindo-se entre o Rio de Janeiro e Washington, nos Estados Unidos, onde mora seu marido, o peruano Dante Negro, com quem está junto  há 10 anos, Fênix espera por dias melhores para, enfim, colocar todas os projetos em cena.

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