João Donato recebe Prêmio Shell no Canecão

O pianista e compositor João Donato tem, na ponta da língua, a resposta para a pergunta que todo mundo vem lhe fazendo nos últimos dias. "Estou achando ótimo ter sido indicado para o Prêmio Shell do ano 2000, porque é a primeira vez que ganho alguma coisa. Minha música é pouco comercial, meio difícil e, por isso, nem sempre fui lembrado", tem dito ele, sem o menor traço de amargura. "É natural que tenha demorado muito. Só admiti que música tinha letra em 1972, quando já tinha quase 40 anos de idade e 25 de profissão. E só depois disso minhas músicas ficaram populares."Donato recebe o prêmio nesta terça-feira, com um show no Canecão, onde estará com um grupo de sete músicos que habitualmente tocam com ele. Amigos de longa data como Joyce, Emílio Santiago e Ed Motta vão participar como convidados, assim como o filho dele, o Joãozinho, de 15 anos, que está adotando o nome artístico de Donato Jr. "Queria ter no palco todos os meus amigos, muita gente, mas o Túlio Feliciano, que dirige o show, me recomendou só chamar poucos amigos para não ficar confuso", adianta. "Entreguei os arranjos e a regência ao Laércio de Freitas, para ficar mais solto, ter menos trabalho, só me preocupar com o show na hora e não ter de ir a todos os ensaios."Aos 66 anos, João Donato está otimista e feliz, não só por ser o 20.º compositor a receber o Prêmio Shell de Música Popular Brasileira. Músico desde criança e profissional assim que se tornou adolescente, ele se orgulha de sempre ter vivido de música, só fazendo o que lhe agradava. "Como tenho meu trabalho de composição, que me dá uma renda suficiente para viver, nunca precisei acompanhar cantores; isso só ocorreu em situações que achava interessante", conta Donato. "Só fiz a música em que acreditava. A única concessão foi permitir que elas tivessem letra. Até o Agostinho dos Santos, um cantor maravilhoso, reclamar que sem letra não dava para cantar, eu achava que era dispensável."Bom para o público, para os cantores e o bom gosto em geral. Até meados dos anos 70, João Donato era meio lenda, todo mundo falava dele, pouca gente conhecia suas músicas, mas elas se tornaram hits e ganharam letras. O primeiro foi Lugar Comum, parceira com Gilberto Gil e sucesso na voz dele. "Até hoje, todo mundo canta essas músicas no show", comemora Donato. Depois vieram Amazonas, Até Quem Sabe, Simples Carinho e muitos outros. Essas foram selecionadas para o show, ao lado de algumas inéditas e outras menos conhecidas, que o autor gosta muito.Ele só se enrola ao contar quantas músicas fez. "Acho que são umas 100; tem 50 no songbook que o Chediak lançou, tem outras 23 novas que fiz para o disco Amazonas 2, outras que fiz para Café com Pão 2 e mais umas 70 que gravei até 1972, mas não tinham letra." Se é João Donato quem calcula, está "tudo certo, como dois e dois são cinco". A conta pode desagradar à matemática, mas traz boas notícias: João Donato continua compondo muito, tocando bastante e não tem planos de parar. "A música ocupa a minha cabeça; muitas vezes acho que faço gênero, mas é isso mesmo, não há lugar para muita coisa mais", conclui.

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