João Donato: Free Jazz é só o começo

No fim do ano passado, quando sofreu um enfarte, João Donato recebeu um aviso do médico: nada de ócio, nada de ansiedade. Desde então, ele segue a risca as suas recomendações. Tem ocupado o tempo produzindo música. Além do Free Jazz Festival, onde se apresenta com os músicos Cláudio Slon e Luiz Alves, no sábado, Donato está envolvido em três diferentes projetos de discos, cada qual num Estado. Em São Paulo, onde ficará mais alguns dias, por causa de outros shows - no dia 25 apresenta-se no Shopping Anália Franco e nos dias 27 e 28 no Sesc Pompéia -, grava o terceiro álbum pelo selo Elephant Records, do russo Vartan Tonoian, que reside em Denver. O primeiro CD, Amazonas, saiu em março. Já o segundo, ainda não lançado, é o resultado de um memorável concerto com a Orquestra Jazz Sinfônica, em abril. O novo disco mantém a formação de trio, composto por Donato, ao piano, Claudio Slon, à bateria e Luiz Alves, ao contrabaixo e, lógico, o espírito jazzístico.No Rio, o projeto é em família. O selo fonográfico Deckdisc, agora distribuído pela Abril Music, teve a idéia de registrar as novas parcerias de Donato com seu irmão, Lysias Ênio. Os dois têm mais de 20 músicas inéditas prontas. Para completar, convidaram a irmã, a artista plástica Eneyda, que fará a capa do álbum. A produção será do jovem Rafael Ramos, que trabalhou com Los Hermanos. Donato pretende chamar outros artistas para participar do CD, entre eles, Marisa Monte, Fernanda Abreu e Carlinhos Brown. Os novos CDs serão lançados em 2001. O terceiro projeto está sendo feito em Brasília. Chama-se I Love You. "Parece nome de disco da Madonna", diz João Donato, no seu característico tom de alegria, por telefone, do estúdio Zen, no Distrito Federal. I Love You começou a ser pensado no dia 3 de dezembro, quando Donato fez uma apresentação na casa Carpe Diem, em Brasília. Foi quando conheceu Ivone, o atual amor.Donato foi à Brasília a convite de um amigo, o compositor Heitor Reis, que havia assistido a um show seu no Rio. Ele lançava o seu songbook (lançado pela Editora Lumiar). "Heitor queria presentear seus amigos com coisas minhas, acabou me trazendo aqui e nesse dia aproveitei para fazer uma gravação do show, que foi muito feliz."No entanto, apesar de bonita, a gravação não ficou com qualidade técnica satisfatória. Donato compara o processo musical com o amor: "Ela tem de ser lapidada, tem de se desenvolver". Continua: "Quando se começa uma relação, não se observam os defeitos, é feito um sonho, um paraíso, e, por se ter amor, é importante ser tolerante, eliminar os defeitos aos poucos, com compreensão; com o tempo se aprende a amar mais ainda." No caso da gravação, segundo ele, para que se consigam ouvir as palavras, os pensamentos, os sons, a música, é preciso que esses defeitos técnicos sejam corrigidos, justamente porque o intuito não é exclusivamente comercial, mas de amor - e de amor ao Criador. "Quando se descobre que Ele está em primeiro lugar, consegue-se construir uma profissão com amor, seja ela música ou não", afirma.Donato está refazendo algumas faixas e aproveitando para incluir raridades no repertório. Uma delas é Nini. No Carpe Diem, ele reviu a primeira namorada, Nini. Era mais velha, tinha 8 anos e ele, 7. Nini chegou com amigos do Acre (onde ele nasceu). "Eles começaram a se lembrar dos meus pais e cantar a música, que Nini ensinou a todos", recorda. Era assim: "Não posso viver sem Nini, não posso viver sem amar." Nini perguntou ao antigo namorado se lembrava da canção. Donato respondeu afirmativamente. "Agora, eu tenho 66 e ela, com certeza, 67, mas tem ainda a mesma carinha, é uma menininha, o meu primeiro amorzinho." A música nunca foi gravada, antes. O disco, que será lançado pelo selo Acorde, de Brasília, tem canções de amor também para Ivone. Arquivo/AEO acreano João Donato na década de 80 I Love You marca ainda o encontro de Donato com a paz ("As palavras da Bíblia"). "Não acho que a minha música seja feita com princípios totalmente sagrados, mas tem sido baseada nesses fundamentos, na ternura", conta. "Não é uma coisa que apareça explicitamente na capa; como Senhor é tudo, não vou ficar anunciando que leio a Bíblia", esclarece. "Mas sou evangélico, sou crente e acredito que esse caminho trilhado desde dezembro está cheio de escolhas felizes." Nesse sentido, ele quer produzir os discos dos amigos Edson e Tita, que o apresentaram a leitura da Bíblia. Ele garante que o motivo não é somente esse - acontece que eles têm composições de qualidade. "Eu quero gravar somente suas lindas melodias e hamonias, sem letra mesmo", informa. "Elas transmitem muita paz, doçura, ternura, são uma injeção de alegria." Outra composição que pode entrar num desses três projetos é Driblando as Coronárias, provavelmente, em I Love You. Ela foi criada no período em que esteve no hospital, que mais lhe parecia um spa. "Trataram-me com muito carinho", lembra. "Além do mais, era um entra e sai, dia e noite, de amigos velhos, de amigos novos que eu não sabia que eram tão amigos", conta. "Eu nunca vi um hospital tão agitado." Num desses dias, o amigo Reco do Bandolim chegou com a primeira parte de um choro, feita com Hamilton de Holanda (que toca sexta no palco Club do Free Jazz). E assim, batizaram a música de Driblando as Coronárias.No disco que está fazendo com o irmão Lysias Ênio, Donato conta que está sugerindo temas para as letras dele. "Não me intrometo, mas digo a ele que não quero cantar coisas como ´mordendo o seu pescoço´, raivosas, violentas", antecipa. "Lysias bebe muito e não quero inspirações que venham da garrafa; não quero ser beato, mas toda vez que tomava um porre, não tinha pensamentos muito bons, pensava baixarias e hoje estou mais amoroso."Jazz - O repertório do Free Jazz não está definido. Podem entrar composições tanto de Amazonas quanto do disco gravado com Jazz Sinfônica - todas dele, em todo caso. Segundo o contrabaixista Luiz Alves, que integra o trio, a criatividade dos músicos é testada nesses momentos. "Num trabalho de trio, ainda mais feito com João, tudo é muito intenso", conta Alves. "Nos desdobramos nos espaços musicais criados por ele e temos liberdade para preenchê-los", diz. "Por isso, tocamos numa concepção jazzística, de improvisação e domínio do instrumento, já que ele é músico e compositor exigente e não segue regras, usa a liberdade."O jazz é simples, para João Donato. "Desde que me dei conta de que era gente, tamborilo um pianinho; sou assim, a música me absorve", declara. "E o jazz me me absorveu, com o tempo, não só pelo fato de ser um idioma compreendido no mundo inteiro; fui conquistado pelo jazz por sua simplicidade, por suas frases musicais adoráveis, que me parecem coisa de criança, uma simples palavrinha que diz tudo, de um jeito tão bonitinho."Duas histórias traduzem a percepção musical de João Donato. Lugar Comum, canção feita em parceria com Gilberto Gil, traz a lembrança de uma pessoa descendo numa canoa um rio do Acre. "Ela cantava com aquela tristezinha, um sentimento de ternura e uma melancolia que me encantou, de um jeito simples", conta. "Guardei a lembrança da melodia e mostrei a Gil." Minha Garotinha, que estará no disco em parceria com Lysias, nasceu do canto de uma menina de quatro anos. "A gente pode ouvir música de qualquer coisa da natureza, música é simples, são só sete notinhas", simplifica.Free Jazz Festival 2000. João Donato Trio apresenta-se no palco Club, sábado, às 22 horas. Ingressos esgotados. Jockey Club. Avenida Lineu de Paula Machado, s/n, tel. 0800-212223

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