João Donato cai nas graças da moçada

O músico João Donato faz 70 anos em 17 de agosto, mas a festa começa hoje, com três shows no Sesc Vila Mariana, quando ele recebe a bossa-novista Wanda Sá, o tropicalista Péricles Cavalcanti e o rapper Marcelo D2. No sábado será a vez do pernambucano Otto e do DJ Marcelinho da Lua e, no domingo, Donato toca com Leo Maia (filho do Tim) e o DJ Patife. Nos três dias, estará com sua banda de fé: Robertinho Silva na bateria, Luiz Alves no baixo, Ricardo Pontes e Jessé Sadoc nos sopros e seu filho, Donatinho, nos teclados. "Serão shows diferentes a cada dia, e isso sempre acontece porque eu improviso muito no palco. O repertório será definido nos ensaios", adianta Donato, lépido como tivesse 20 anos a menos. "O pessoal diz que pareço mais novo porque sou muito brincalhão, não me levo a sério." "A música acontece sozinha", diz ele, "não adianta ficar atrás". Lugar Comum, por exemplo, é uma melodia que ouvi quando criança, de um barqueiro lá no Acre, e ficou 40 anos na minha cabeça. Bananeira veio num assobio, enquanto eu arrumava a mala", conta, sem calcular quantas compôs. "Só no Songbook (feito em 1999, por Almir Chediak) tem 50." Donato criou uma batida toda sua, imitada aqui e no mundo inteiro, mas ensina que a melodia é primordial. "O ritmo vem automático, a melodia é essencial porque dá o formato da música, mas a gente não cria muita coisa", comenta, ilustrando o que diz. "Ganhei um relógio que a cada hora toca o canto de um pássaro. O do corrupião é esse (cantarola a introdução do Hino Nacional) e o do sabiá, quando tem filhote é assim (dedilha a primeira frase de Garota de Ipanema´no piano). É claro que o Tom Jobim ouviu o sabiá cantar (diz já tocando a música). Mas essa parte aqui é dele mesmo." Jobim foi amigo de adolescência, que Donato conheceu ao chegar do Acre, onde nasceu. Seu pai, piloto da Aeronáutica de quem ele herdou o nome, quis dar aos filhos mais chances de estudar. Donato já tocava acordeão e foi parar na Rádio Nacional. Os anos 40 terminavam e a música brasileira vivia seu período de ouro. "Conheci o Radamés (Gnattali, maestro e arranjador) e fiquei fã. Gostava de Orlando Silva, Elizeth Cardoso, Emilinha, mas o melhor era os grupos vocais, moda da época. Tinha os Garotos da Lua, onde o João Gilberto cantou, os Cariocas, juntos até hoje, e os Namorados da Lua, onde comecei. Depois fui tocar na noite e na Rádio Guanabara, no lugar do irmão do Zé Gonzaga, irmão do Luiz", lembra. Em 2000, ele foi o Prêmio Shell de Música. Agora, é a Medalha de Honra ao Mérito Cultural que receberá de Gilberto Gil, que além de ministro da Cultura é seu parceiro em hits como Lugar Comum e A Paz. Depois de passar os anos 70 e 80 quase sem gravar, engrenou os discos um atrás do outro. No último ano, foram três, com Emílio Santiago (dois prêmios Tim), com Wanda Sá e com o saxofonista Bud Shank, ainda não lançado. Este ano ainda faz mais um, com Maria Rita. João Donato. Teatro do Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, V. Mariana, tel. 5080-3000. 6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 30

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