João Carlos Martins supera limites e lança CD

Para o pianista João Carlos Martins, que desde o fim do ano passado sofre de atrofia definitiva de sua mão direita, esse não é o fim da carreira. Aliás, ele recomeça com um novíssimo projeto: lançar o primeiro CD mundial com repertório pianístico inteiramente escrito para ser tocado com a mão esquerda. Seu novo trabalho, Só para Mão Esquerda, será lançado neste mês pela gravadora Rainbow Records. João Carlos Martins está com 61 anos e é conhecido pela gravação integral da obra para teclado do compositor Johann Sebastian Bach. O pianista também desenvolveu sua carreira no exterior, principalmente nos EUA, onde participou de vários concertos no Carnegie Hall, em Nova York. Sua primeira apresentação na casa de espetáculos ocorreu quando tinha 20 anos. "O que eu fiz fora do Brasil teve até importância em termos de representar o País", afirma. Os problemas com a mão direita começaram quando Martins tinha 25 anos e teve um acidente em um jogo de futebol, que atingiu um nervo de sua mão. Ele foi operado em Nova York, fez fisioterapia, conseguiu levar sua carreira até 1970, quando participou de um recital sob a regência de Zubin Mehta. Mas ainda sentia algumas dificuldades e, por isso, resolveu interromper seus trabalhos para cuidar do problema. "Estava tocando com enorme sacrifício, não sentia o mesmo nível de antes e decidi parar", conta João Carlos Martins.Depois de oito anos, o pianista retomou. "A minha mão ficou natural novamente", garante. De 1979 a 1985, Martins realizou as dez primeiras gravações da obra de Bach, que no total são 21. "Foram os seis anos mais importantes da minha vida. Voltei a tocar no mundo inteiro", conta. Mas em maio de 1995, o pianista enfrentou um novo problema. Durante um assalto na Bulgária, Martins foi atingido na cabeça por uma barra de ferro e, desse modo, teve uma lesão cerebral que deixou seu braço direito inteiramente paralisado. João Carlos Martins tratou-se nos EUA onde fazia reprogramação cerebral. "Eu ficava com aparelhos no braço direito e tentava tocar em frente a um computador até estimular outras células do cérebro e, assim, retomar as funções. Novamente depois desse tratamento, voltei a tocar com naturalidade." A retomada foi com mais um concerto no Carnegie Hall.Apesar da volta, quando o pianista já contava 58 anos, apareceram mais uma vez os problemas com a mão direita e também com a fala. Sofreu mais uma cirurgia, mas "a mão direita parecia querer cair para fora do piano quando eu o tocava". Fez mais uma operação e participou do último concerto da sua vida em outubro do ano passado, quando se apresentou com os virtuoses de Praga em Cleveland, nos EUA.Como a mão direita ainda não tinha atrofiado totalmente, o pianista resolveu gravar seu último CD com as duas mãos. "Eu sabia que só tinha mais dois meses antes da atrofia total." Martins tocou com nove dedos porque seu dedo médio já estava imobilizado. Para tocar, era colocado um aparelho ortopédico que segurava seu dedo. Esse trabalho foi lançado somente nos EUA. Novo projeto - Agora, com o novo Só para Mão Esquerda, João Carlos Martins retoma mais uma vez sua carreira. No repertório estão Concerto para Mão Esquerda, de Ravel; Noturno opus 9 n.º 2, de Scriábin; seis estudos opus 135, de Saint - Saëns; e a peça de Bach Chacona suíte n.º 3, transcrita para piano por Johannes Brahms. O Concerto para Mão Esquerda, de Ravel, foi escrito para o pianista Paul Wittgenstein, que perdeu o braço direito durante a Primeira Guerra Mundial e pediu para vários compositores da época escreverem peças para ele poder voltar a tocar. O projeto ainda não está encerrado. João Carlos Martins contou em entrevista ao Estado que pretende gravar mais sete CDs. "Esse é o primeiro de uma série de oito. O próximo CD eu já vou começar as gravações no final de dezembro ou início de janeiro."O pianista também disse que está recebendo e-mails de vários compositores se oferecendo para escrever músicas para ele. "A gravadora está colocando na Internet que eu perdi definitivamente a mão direita, por isso recebi propostas de um compositor de Viena, de um russo, um argentino e um inglês.A idéia é fazer gravações com músicas atuais e de compositores dos cinco continentes. Já até gravei uma música do brasileiro Mário Ficarelli, que eu considero um dos melhores do País, mas não entrou nesse primeiro CD. Por isso, esta já está pronta para essa continuação", explica. Sobre Só para Mão Esquerda, João Carlos Martins afirma que o ponto mais importante é o concerto de Ravel. "Acho que eu coloquei quase que uma overdose de dramaticidade porque considero o concerto como um hino à força de vontade de uma pessoa que acredita em um objetivo e quer realizar a mesma mensagem musical, mas desta vez, só com uma mão", diz.

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