Lena Vettorazzo/Estadão
Jô Soares com João Lara Mesquita, em 1988, durante a gravação de seu programa na Rádio Eldorado Lena Vettorazzo/Estadão

Jô Soares amava a música e comandou programa de jazz na Rádio Eldorado

Entre os anos 1980 e 90, humorista comandou o Jazz Session, que será reapresentado hoje, às 21h

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

05 de agosto de 2022 | 11h23

Uma das qualidades artísticas do humorista Jô Soares, que morreu nesta sexta, 5, aos 84 anos, era seu profundo conhecimento musical. Ele demonstrou isso em diversas oportunidades, especialmente no programa Jô Soares Jam Sessions, que ele apresentou na rádio Eldorado entre o final da década de 1980 e início dos anos 1990. Um desses programas será reapresentado pela rádio Eldorado (107,3 FM) às 21h desta sexta, 5.

“Fiz o caminho inverso de meus companheiros, que começaram no rádio até chegar na televisão”, disse , no programa de estreia. “Mas, apesar de o blues ser lembrado como um ritmo triste, ele me provoca alegria, o que se aproxima do meu humor.”

gostava de tocar bongô e trompete, além de cantar. Seu conhecimento jazzístico era vasto, o que resultava em escolhas raras e importantes para o programa de rádio.

Experiência em música ele já tinha. Jô Soares começou na percussão ainda na adolescência, quando, aos 15 anos, período em que estudava na Suíça, conseguiu o feito de acompanhar um dos maiores pianista de jazz de todos os tempos, Oscar Peterson. Jô conta, em sua autobiografia, ter descoberto que Peterson estava hospedado na mesma cidade onde ele estudava. O músico usava o piano do hotel para suas oito horas diárias de ensaio. Foi então que o garoto, depois de muito ensaiar, chegou lá e, sem nenhuma vergonha, pediu para acompanhar o pianista.

Já o trompete foi descoberto mais tarde, depois que o humorista percebeu que não se dava bem com o saxofone.

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'Haja bunda no sofá', brincava Jô Soares sobre suas mais de 14 mil entrevistas

Humorista, que morreu aos 84 anos, manteve programa de conversas ao longo de 28 anos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2022 | 09h22
Atualizado 05 de agosto de 2022 | 10h59

“O programa era uma Disneylândia: fizemos tudo o que era possível porque o Jô topava tudo”, comentou o músico Derico, que formou o sexteto que acompanhou Jô Soares ao longo de seus programas de entrevistas. “Ele queria ser surpreendido, fosse entrevistado um presidente da República ou um cantor de rock.”

Jô, que morreu na madrugada desta sexta, 5, aos 84 anos, realizou exatas 14.138 entrevistas ao longo de 28 anos de exibição, tanto no SBT (Jô Soares Onze e Meia) e na Globo (Programa do Jô). “Haja bunda no sofá”, brincava ele.

Foi justamente a disposição de ter um talk show que o convenceu a deixar a Globo: Silvio Santos permitiu que ele mantivesse seu programa de humor e comandasse um de entrevistas, que estreou em 17 de agosto de 1988

O humorista criou fama ao falar, muitas vezes, mais que os entrevistados, o que curiosamente não aconteceu justamente na última conversa, com Ziraldo, que foi ao ar no final de 2016. Culto, bem humorado, era capaz de conversar com qualquer pessoa.

Poliglota, Jô fez entrevistas em diversos idiomas, o que permitiu conversar com figuras tão díspares como o cineasta Roman Polanski. Foi em seu programa que Fábio Porchat apareceu pela primeira vez na TV e ele manteve papos que logo se tornaram históricos, como com Luís Carlos Prestes ou aquela que se tornou uma de suas mais famosas: com Hebe Camargo, Lolita Rodrigues e Nair Bello.

 

Promoveu também encontros engraçados, como o dos “sósias” Rogério Ceni (então goleiro do São Paulo) e do apresentador Luciano Huck, em 2001. Ou, em outro momento histórico, com grandes humoristas, como Chico Anysio, José Vasconcelos e Paulo Silvino, em 2003.

O programa era normalmente gravado, mas, em uma oportunidade, foi transmitido ao vivo: em 2001, quando conversou com o ganhador do primeiro Big Brother Brasil, Kleber Bambam, em 2001.

Na exibição do último programa, em dezembro de 2016, Jô foi aplaudido de pé pela plateia (uma exigência dele era sempre o de ter pessoas acompanhando as conversas). E, ao invés de um adeus, ele repetiu uma das frases que marcavam o final das entrevistas: “Daqui a pouco a gente volta”.

 

 

Veja algumas das entrevistas feitas por Jô Soares

 

 

 

 

 

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Jô Soares morre aos 84 anos Tiago Queiroz|Estadão

Jô Soares morre aos 84 anos

Grande nome da televisão brasileira, Jô estava internado no Hospital Sírio-Libanês; relembre sua trajetória como humorista e apresentador

Redação , Estadão

Atualizado

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Jô Soares morre aos 84 anos Tiago Queiroz|Estadão

Jô Soares morreu às 2h20 desta sexta-feira, 5, aos 84 anos. Apresentador, escritor, humorista e diretor, Jô estava internado desde o dia 28 de julho no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. A informação foi confirmada nas redes sociais pela ex-mulher de Jô, Flavia Pedras, que foi casada com o apresentador durante 15 anos, e a causa da morte não foi revelada. 

Segundo Flávia, a despedida será reservada a amigos e familiares. O local do enterro e do velório não foram divulgados. 

Na publicação, a ex-mulher de Jô Soares deixou sua homenagem. "Viva você meu Bitiko, Bolota, Miudeza, Bichinho, Porcaria, Gorducho. Você é orgulho pra todo mundo que compartilhou de alguma forma a vida com você.  Agradeço aos senhores Tempo e Espaço, por terem me dado a sorte de deixar nossas vidas se cruzarem", escreveu no post. 

 

Jô Soares se preparava para estrear a peça À Meia-Luz em setembro. Nas redes sociais, amigos e artistas lamentaram a morte do apresentador. Confira as homenagens

A história de Jô Soares

Nascido José Eugênio Soares em 16 de janeiro de 1938, Jô Soares estudou em Lausanne, na Suíça. Pensava em ser diplomata e aprendeu várias línguas, o que lhe deu sólida formação cultural e intelectual. Viu televisão pela primeira vez em 1952, nos Estados Unidos, e começou a trabalhar no veículo seis anos depois, aos 20, escrevendo e atuando nas peças policiais de TV Mistério, programa da TV Rio protagonizado por Paulo Autran, Tônia Carrero e Adolfo Celi.

Mas só seria apresentado ao público como comediante pouco tempo depois, na TV Continental, e a capacidade de fazer rir o levaria a todos os canais de TV do Rio de Janeiro na época. Em 1960, substituiria José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, a convite do próprio, na redação do Simonetti Show, da TV Excelsior. Já na Record, em 1966, escrevia e atuava no lendário Família Trapo, sitcom que depois inspiraria tantas outras e faria a glória de Ronald Golias, Renata Fronzi, Renato Corte Real e Zeloni, além do próprio Jô. A redação era dividida com Carlos Alberto de Nóbrega, com quem combinava as cenas que caberiam a um e a outro, cada um na sua casa. Quando se encontravam, juntavam as duas partes e todo o enredo se encaixava perfeitamente, sem necessidade de ajustes.

Depois de ensaiar por algumas vezes sua saída da Record, Jô, que em 1969 foi processado pelo regime militar, estrearia na Globo em 1970. "Eu queria um programa de humor com uma nova cara", relata Boni, ex-chefão da emissora, em seu livro de memórias, O Livro do Boni. E continua: "Tinha um nome pronto na cabeça: 'Faça Humor, não faça a guerrra'. Havíamos contratado também o Renato Corte Real e o incluímos no projeto. As reuniões se sucederam com o Augusto César Vanucci, o Jô, o Renato, o Haroldo Barbosa, o Max Nunes e o João Lorêdo." O horário era o das noites de sexta, na vaga que antes cabia a Dercy Gonçalves. E, se Dercy alcançava, naquela época, 60% dos lares com televisão, Jô bateu nos 70% e Boni foi celebrado até pelo patrão, Roberto Marinho. Faça Humor, não Faça a Guerra ficou por três anos no ar e foi substituído por Satiricom, que durou mais três anos, sucedida por Planeta dos Homens, que seguiu liderando a audiência pelos cinco anos seguintes.

Foi em 1981, ainda segundo o próprio Boni, que Jô sugeriu que já fosse hora de ter um programa todo seu. Nasceu daí o Viva o Gordo, que lançou personagens lendários, alguns deles atuais mesmo hoje. Com maquiagem e figurino a caráter, Jô fez barulho como o Capitão Gay e Norminha, entre outros.

Em 1987, Jô pleiteou à direção da Globo, ainda na figura de Boni, um talk show. Não houve acerto e ele se mudou para o SBT, levando consigo seu fiel redator Max Nunes e também o programa humorístico, lá rebatizado como Veja o Gordo. Boni o ameaçou, chegou a dizer que ele não poderia usar a palavra "gordo", e Jô respondeu com um longo e bem argumentado texto no "Jornal do Brasil", lido também durante o Programa Silvio Santos, já seu novo patrão.

Anos depois, os dois retomariam a amizade. "Gritei, fiz ameaças, mas prevaleceu o carinho que sempre tive pelos dois (Jô e Max Nunes)", relata Boni. "Porém, profissionalmente, comprei a briga. Criei a sessão de cinema Tela Quente, que incinerou o Veja o Gordo, fazendo com que o programa saísse do ar", completa.

Sem o humorístico, Jô passou a se dedicar integralmente ao programa de entrevistas, que cresceu, apareceu e se tornou referência do gênero na TV brasileira, mesmo que cenário e formato em muito lembrassem a matriz americana, com Johnny Carlson, da poltrona à caneca. Entre 91 e 92, foi uma das vitrines mais fortes para a crise política que levaria o então presidente Fernando Collor ao impeachment, e essa postura seria cobrada do programa por todas as ocasiões seguintes em que a política merecesse foco prioritário.

Em 2000, Jô voltou para a Globo, com o mesmo talk show e estrutura melhor de cenário e equipe. Junto, levou seu quinteto, que anos depois se tornaria sexteto, os diretores Diléa Frate e Willen Van Verelt, e, de novo, Max Nunes, amigo que perdeu em junho (2014).

Desde sempre, sua trajetória televisiva foi acompanhada de expediente permanente no teatro, dirigindo outros ou, durante um bom tempo, montando seus próprios espetáculos, precursores que foram - no caso dele e de Chico Anysio - dos chamados stand up de hoje. 

Ninguém foi mais eclético do que Jô Soares. Ele também se debruçou sobre a produção literária, ao criar livros como O Astronauta Sem Regine, O Xangô de Baker Street!, que virou filme, O Homem que Matou Getúlio Vargas e Assassinato na Academia Brasileira de Letras. Esteve em clássicos do cinema como "O Homem do Sputnik (!959), de Carlos Manga, ao lado de Norma Bengel. 

Vida pessoal

Jô, eternizado em seus inesquecíveis bordões, teve algumas mulheres. Foi casado com Teresa Austregésilo, apresentadora da TV Tupi, com Flavinha, que viria a se tornar sua melhor amiga, e namorou as atrizes Cláudia Raia e Mika Lins. Deixa um filho.

Já de volta à Globo, foi acusado, por longo período de falar mais que o entrevistado, o que contestava. Foi vítima do quadro Sandálias da Humildade, do Pânico, e não era exatamente conhecido por sua simpatia. Não que não fosse simpático. Era, e sabia como seduzir seus interlocutores com seu vasto repertório. E não negava algum egocentrismo, vá lá. 

Em 2000, quando atendeu ao convite de Boni para escrever um depoimento para o livro 50/50 (Ed. Globo), organizado para celebrar os 50 anos da TV, registrou lá: "Devo confessar que me senti lisonjeado quando fui convidado para integrar este projeto, mas, sinceramente, acho que a minha participação não é a mais adequada. Digo isso sem falsa modéstia, pois com meus 115 quilos, sou um exibido' pela própria natureza. Também por força da própria profissão, já que a exerço numa vitrine."

Em processo de redução de peso, obra dos cuidados com sua saúde, Jô na época dizia que era "mais artista que intelectual". "Trabalho mais com a intuição do que com a razão. A TV não me preocupa, me ocupa." 

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Artistas lamentam a morte de Jô Soares; confira homenagens

Apresentador morreu na madrugada desta sexta-feira; ele estava internado no Hospital Sírio Libanês; políticos também citam a perda; confira homenagens

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2022 | 07h55

Personalidades e amigos lamentam a morte de Jô Soares. Nas redes sociais, prestaram homenagem e elogiaram a carreira do apresentador. Aos 84 anos, o escritor e humorista morreu na madrugada desta sexta-feira, 5. Ele estava internado desde o dia 28 de julho no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. A informação foi confirmada nas redes sociais pela ex-mulher de Jô, Flavia Pedras, que foi casada com o apresentador durante 15 anos. A causa da morte não foi revelada. A despedida será reservada a amigos e familiares.

Nas redes sociais, a apresentadora Ana Maria Braga enaltece a convivência com Jô Soares. "Eu tive a honra de conhecer e conviver com esse jornalista e humorista tão talentoso", disse ela.

A atriz e diretora Bárbara Paz também presta homenagem. "Aplausos e muitas risadas no céu", postou ela.

Além dela, a apresentadora Patrícia Poeta também lamentou a perda do humorista.

Ao confirmar a morte do apresentador, a ex-mulher de Jô, Flavia Pedras, que foi casada com ele durante 15 anos, também fez uma singela homenagem. "Viva você meu Bitiko, Bolota, Miudeza, Bichinho, Porcaria, Gorducho. Você é orgulho pra todo mundo que compartilhou de alguma forma a vida com você.  Agradeço aos senhores Tempo e Espaço, por terem me dado a sorte de deixar nossas vidas se cruzarem", escreveu no post.  

O humorista Paulinho Serra também postou homenagem ao apresentador. "Ooohhh meu amigo, como sou grato a você. Como o Brasil tem gratidão por você", disse ele.

Em entrevista à GloboNews, Derico Sciotti, saxofonista na banda Sexteto, que tocava no programa do Jô Soares, falou sobre a relação com o humorista. "Passei metade da minha vida tocando ao lado dele. No programa, ele ia da seriedade para o humor em um segundo. Jô tinha uma risada característica, que encantava todo mundo", disse ele.

O cantor Zeca Pagodinho também prestou homenagem ao humorista.

O cantor Thiaguinho destacou ter sido uma honra ser entrevistado por Jô Soares. Lamentou a perda e agradeceu por todo carinho recebido.

A apresentadora Adriane Galisteu também se manifestou sobre a morte de Jô Soares. "Você sempre foi cercado de amor e sempre será assim", disse ela.

"Como eu gostava do Jô! Sempre inteligente, divertido, inesperado e criativo", disse a atriz Lilia Cabral, nas redes sociais.

Pelé também prestou homenagem a Jô Soares. "Acordo muito triste com a notícia de que essa grande estrela nos deixou", postou ele.

O Fluminense, clube de coração de Jô Soares, também lamentou a perda.

Homenagem da Presidência de Portugal

Com o título “Adeus, Jô Soares”, o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, também emitiu uma nota oficial de pesar pela morte do humorista e apresentador. 

“Os seus sketches ficaram famosos, algumas expressões entraram mesmo na linguagem corrente, fez-nos rir e pensar durante anos, um grande obrigado a Jô Soares, que hoje saiu de cena, mas não dos nossos corações, nem das nossas memórias”, disse a nota. Jornais portugueses também destacou a morte do humorista brasileiro.

Políticos lamentam perda do humorista

Políticos também lamentaram nas redes sociais a morte do apresentador Jô Soares na madrugada desta sexta-feira.

O candidato à Presidência da República pelo PDT, o ex-ministro Ciro Gomes, destacou a perda do humorista.

Também candidata à Presidência da República, a senadora Simone Tebet (MDB) afirmou que o Brasil aprendeu muito com a inteligência do humorista.

 

Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à Presidência pelo PT, também destacou o talento de Jô Soares.

O ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSB), candidato à vice-presidência na chapa encabeçada por Lula, lamentou a perda do humorista.

"Independentemente de preferências ideológicas, Jô Soares foi uma grande personalidade brasileira que conquistou a todos com seu modo cômico de discutir assuntos profundos", escreveu nas redes sociais o presidente Jair Bolsonaro (PL), que concorre à reeleição. 

O candidato do PT ao Governo de São Paulo, ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, lembrou do legado deixado por Jô Soares.

O governador de São Paulo, Rodrigo Garcia (PSDB), também se solidarizou. "Jô Soares foi uma explosão de talento que inundou o Brasil por gerações com inteligência e graça, um gênio da raça", postou ele.

O ex-governador de São Paulo João Doria (PSDB) também citou a morte de Jô Soares.

Nas redes sociais, o ex-ministro Sérgio Moro (União Brasil) lamentou a perda.

"Jô Soares foi um dos símbolos da minha primeira juventude, com seu humor inteligente", disse Luís Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

A ex-presidente da República Dilma Rousseff também prestou homenagem.

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Tiago Queiroz| Estadão Tiago Queiroz| Estadão

Relembre os bordões de Jô Soares, que morreu aos 84 anos

Apresentador também foi ator, cineasta, escritor, artista plástico e músico

Redação , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Tiago Queiroz| Estadão Tiago Queiroz| Estadão

Ao longo de sua carreira, Jô Soares criou inúmeros bordões que se tornaram populares. Seja por meio de personagens, seja em seu programa de entrevistas, o humorista sabia captar o que as pessoas gostariam de ouvir e de repetir no seu dia a dia.

Confira algumas frases inesquecíveis de Jô Soares

  • "Beijo do Gordo!"

Usado nas despedidas do programa

  • “Não querendo te interromper, e já interrompendo..."

Durante suas entrevistas

  • "Vice não fala" 

Referência clara ao então vice-presidente Aureliano Chaves

  • "Vamos malhar?"

Professora de ginástica interpretada por ele, no auge de seu corpito

  • "Cala-te boca, tem pai que é cego"

A um pai que fingia não notar que o filho era homossexual, ao fazer cursos de maquiagem, balé e corte e costura

  • "É o meu jeitinho"

Rochinha, o tímido desengonçado que causava inveja nos homens por andar com o mulherão Liliane (Magda Cotrofe)

 

  • "Não quero meu nome em bocas Matildes"

Da sogra que conversava com a filha pelo telefone deitada numa banheira de espuma com uma toalha na cabeça

  • "Soniiinho"

Do bebê Filico, que rezava e esfregava os olhinhos quando ouvia comentários sobre assuntos de gente grande como a inflação brasileira

  • "Cala a boca, Batista"

Irmão Carmelo, que não deixava seu dentuço colega de sacristia (Eliezer Mota) pronunciar uma palavra

  • "Aproveita que eu tô calmo!"
  • "Vai sobrar pra mim!"
  • "Bótimo, melhor que bom, melhor que ótimo!"
  • "Me devolve pro tubo"

Paciente despertado do coma que encontrava o mundo de ponta-cabeça e pedia para ser novamente induzido à condição de inconsciente

 

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O dramaturgo, apresentador e humorista, em foto de 2018 Eduardo Nicolau/ Estadão

Jô Soares estrearia a peça 'À Meia Luz' em setembro

Humorista dirigia espetáculo com trama policial, que chegaria no Teatro Procópio Ferreira

Imagem Ubiratan Brasil

Ubiratan Brasil , O Estado de S.Paulo

Atualizado

O dramaturgo, apresentador e humorista, em foto de 2018 Eduardo Nicolau/ Estadão

Mesmo longe da televisão, Jô Soares continuava trabalhando: preparava um romance policial sobre um assassinato misterioso que envolvia toda a população de um edifício. E também estava finalizando a montagem da peça À Meia Luz, que tinha previsão de estreia no dia 9 de setembro, no Teatro Procópio Ferreira.

A peça conta a história de um homem que tenta fazer com que a mulher duvide da própria sanidade mental, a fim de mantê-la sob seu controle. Ele abaixa as luzes da casa onde vivem e nega qualquer alteração no entorno. A manobra do marido faz com que a jovem esposa acredite que está senil, duvidando de tudo que está a sua volta.

O texto foi escrito pelo inglês Patrick Hamilton, nos anos 1940, com o título original de Gas Light, e ganhou uma versão para o cinema, chamada À Meia Luz, sob a direção de Thorold Dickinson. O longa acabou gerando o termo “gaslighting”, atualmente usado para denominar a ação de um agressor que faz com que sua vítima, geralmente uma mulher, passe a duvidar de si mesma, de suas condições mentais e de sua sanidade.

 

 

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Análise: Ninguém foi mais eclético que Jô Soares

O apresentador estava internado no Hospital Sírio Libanês e morreu na madrugada desta sexta; a causa da morte não foi divulgada

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2022 | 07h31

Ninguém mais eclético que José Eugênio Soares, o Jô, nascido no Rio de Janeiro em 1938. Humorista, claro, mas também apresentador e entrevistador de talento, ator, cineasta (de um único filme), escritor, artista plástico, músico. Jô brincava nas onze - como se diz no jargão futebolístico. E, como entende de tudo, fazia de suas entrevistas diálogos com os entrevistados. Como se fossem conversas de bar. Não chamava ninguém de senhor e provoca uma intimidade instantânea, o que pode ser intimidante para gente mais travada. Perguntava e comentava no mesmo nível dos entrevistados. A piada recorrente, é que fala mais do que eles. Maldade. Acontece que estamos acostumados com entrevistadores passivos e submissos e Jô de fato sempre teve algo a dizer sobre qualquer assunto. Sua cultura era vasta e seu interesse, universal. Deveria ser louvado por essas qualidades e não criticado.

Mas aqui é Brasil, e sabemos o que isso significa.

A persona pública de Jô foi construída a partir da televisão, que é "o" veículo de comunicação no Brasil (no mundo, para falar a verdade).

Ninguém pode se considerar famoso a não ser que tenha sua imagem veiculada pela telinha. E Jô desde cedo a cultivou em programas humorísticos, nos quais contracenava com Ronald Golias e Otelo Zeloni, entre muitos outros, na inesquecível Família Trapo. Coisa dos anos 1960, mas que faz parte de qualquer antologia séria do humor à brasileira.

Ele fez vários outros humorísticos na TV Globo, como Faça Humor não Faça a Guerra, Satiricom, Viva o Gordo, Planeta dos Homens, além de participações na Praça da Alegria e no Chico Anysio Show.

Também no cinema tem passagem marcante. O primeiro filme em que aparece é Pé na Tábua (1958), de Victor Lima, com história de Chico Anysio. Participa de um clássico do humor como O Homem do Sputnik (1959), de Carlos Manga, de filmes típicos do cinema marginal como Hitler 3º Mundo (1968), de José Agripino de Paula, e A Mulher de Todos (1969), de Rogerio Sganzerla, títulos da nova onda paulistana (leia-se, da Vila Madalena), como Cidade Oculta (1986), de Chico Botelho, e até num dos melhores trabalhos do diretor Ugo Giorgetti, Sábado (1995). Neste, Jô faz o hilário habitante da casa de máquinas do elevador em um prédio decadente do centro de São Paulo.

Jô aventurou-se uma única vez na direção de cinema, com O Pai do Povo (1976), uma ficção científica satírica. Uma guerra nuclear devasta o planeta deixando estéreis os homens sobreviventes. Com exceção de apenas um deles, que, na hora das explosões, dormia num cano de chumbo e assim escapou à radiação. Ele se torna a única esperança de sobrevivência da espécie. Além de humorístico, o filme é crítico em relação à ditadura brasileira. Para driblar a censura, Jô a situava num país imaginário, a ilha de Silvéstria. Além de atuar e dirigir, Jô Soares também escreveu o roteiro de O Pai do Povo, em parceria com Alfredo Zema e Carlos Ebert.

Outras produções do artista chegaram à tela como seu romance O Xangô de Baker Street, paródia do personagem criado por Conan Doyle ambientada no Rio de Janeiro do século 19. O filme foi dirigido por Miguel Faria Jr. e conta com elenco internacional, os portugueses Maria de Medeiros e Joaquim de Almeida.

Jô Soares escreveu vários outros livros - O Astronauta Sem Regime (1985), Humor nos Tempos do Collor (1992), A Copa que Ninguém Viu e a que Não Queremos Lembrar (1994), O Homem que Matou Getúlio Vargas (1998), Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (2005) e As Esganadas (2011). O registro geral é cômico, às vezes paródico, e revela talento no manejo do texto. Não era um escritor ocasional, um diletante de domingo, mas praticante constante e profissional. Algo nesses textos lembra os de Woody Allen, que embora tenha se focado mais no cinema, é dono de um ecletismo similar ao de seu colega brasileiro.

Talvez a multiplicidade de talentos tenha no fundo contribuído para obscurecer o quanto Jô Soares era bom em cada uma de suas atividades.

Quem faz muita coisa paga esse preço. Ainda mais quando este alguém se torna uma figura pública, reconhecível em qualquer lugar do país em especial por uma dessas atividades, o humorismo. O Jô, o Gordo que aparecia na TV, tirava partido da obesidade e a fazia trabalhar em seu proveito. Mesmo quando por motivos de saúde precisou emagrecer, Jô continuava sendo o Gordo. Era assim que se referia a si mesmo, no melhor estilo autodepreciativo da stand-up comedy, gênero que também praticava como poucos.

Esse cérebro inquieto, o dom da graça e da ironia, a facilidade com idiomas, o domínio da escrita e o gênio de sacar o lado engraçado das coisas o tornaram um tipo inesquecível do imaginário brasileiro. Tanta inteligência, distribuída por tantos campos de atuação, o mantiveram à tona mesmo quando os tempos foram mudando. Jô fez sucesso durante mais de meio século, o que é reservado a poucos.

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Jô Soares, humorista, dramaturgo, artista plástico e apresentador Eduardo Nicolau/ Estadão

Jô Soares foi processado pelo regime militar, em 1969

Humorista, que morreu aos 84 anos, contou em sua autobiografia que texto sobre utilidades da cama incomodou militares

Imagem Ubiratan Brasil

Ubiratan Brasil , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Jô Soares, humorista, dramaturgo, artista plástico e apresentador Eduardo Nicolau/ Estadão

O humorista e apresentador Jô Soares, que morreu na madrugada desta sexta, 5, aos 84 anos, depois de uma carreira de mais de cinco décadas, contou que temia não conseguir mais trabalhar ao ser processado pelo regime militar, em 1969.

No segundo volume de O Livro de Jô - Uma Biografia Desautorizada (2018), ele lembrou do processo que sofreu, em 1969, do regime militar, incomodado com um bem-humorado texto sobre as várias utilidades da cama, publicado no semanário satírico Pasquim. De uma fase tão conturbada, aliás, Jô colecionava o que considera um dos momentos mais emocionantes de sua vida: uma carta de apoio, datilografada e assinada por Carlos Drummond de Andrade, que foi usada em sua defesa.

"O fato de estar sendo processado pelo regime militar havia me deixado inseguro; se fosse condenado, seguir minha profissão se tornaria difícil, duas condenações poderiam me levar à prisão ou eu seria obrigado a me autocensurar, o que é o mesmo que decretar o fim da carreira de humorista", contou ele, ao Estadão. Por fim, o processo não deu prosseguimento

Autobiografia

Essa é uma das várias histórias que constam nos dois volumes autobiográficos do humorista. O projeto levou muito tempo para ser executado pois Jô manteve durante vários anos um arquivo em seu computador com o nome de BIO - ali, pretendia escrever a sua autobiografia. "Mas o máximo que consegui foi colar um texto que o Millôr Fernandes fez sobre mim e uma ou outra frase", contou ele ao Estadão em 2017, sem esconder a frustração. A virada de jogo ocorreu quando recebeu a visita de Luiz Schwarcz e Matinas Suzuki Jr., da Companhia das Letras - incentivado pela dupla, Jô decidiu fazer a viagem pelo seu tempo.

Eram tantas histórias que só era possível publicar dois volumes. Afinal, mesmo tratando desde o nascimento do apresentador, em 1938, até o final da década de 1960, o primeiro livro é repleto de histórias incríveis, muitas esquecidas e resgatadas graças à prodigiosa memória de Jô e ao afinco de Matinas e sua equipe em pesquisar todos os detalhes. E não foi pouca coisa  - José Eugênio Soares não apenas testemunhou momentos determinantes da cultura brasileira como fez parte de boa parte deles.

"Sou a soma do que devo aos meus pais, Mercedes e Orlando, e também aos meus amigos", contou ele. "O livro é fruto do conjunto desses encontros." E são tantas as histórias que o repórter brincou com o apresentador, tratando-o como o Forrest Gump brasileiro, referência ao personagem (vivido por Tom Hanks no cinema) que presenciou os fatos mais importantes dos EUA. "Sim", concordou, para arrematar com um largo sorriso: "Mas um Forrest consciente".

Educação humanista

Filho único de pais de espírito livre, Jô recebeu uma educação humanista, voltada para as artes. Vivendo no Rio de Janeiro, acompanhou a trágica final da Copa de 1950, no Maracanã. Passou uma temporada em Nova York e estudou em colégio interno suíço, período em que acompanhou outro Mundial de futebol, o de 1954, e também desenvolveu o pendor para a música (jazz, em especial), as artes visuais (é fã, entre outras, da Pop Art) e a habilidade com o humor.

"Sempre fui um menino atrevido, que não se envergonhava em puxar conversa com celebridades", lembrou ele. Em um desses momentos, ele conseguiu conhecer o ateliê do pintor americano Roy Lichtenstein (1923-1997), um dos papas da arte moderna. "Adoro sua obra e, uma vez em Nova York, procurei seu nome na lista telefônica, liguei e ele foi muito gentil ao me receber", relembrou.

O primeiro volume resgata, portanto, momentos marcantes da vida e da carreira do apresentador, desde a infância vivida no Anexo do Copacabana Palace até a chegada na televisão, onde conviveu com nomes lendários como Silveira Sampaio e Nilton Travesso, sem se esquecer de locais famosos, como o Nick-Bar, ao lado do Teatro Brasileiro de Comédia, ou o Gigetto, em seu primeiro endereço, em frente ao Cultura Artística. "As lembranças mexeram com ele", contou Matinas ao Estadão. "Muitas vezes, além de chorar, Jô interrompia a conversa para telefonar para a pessoa da qual falávamos." Dois momentos sempre provocaram as lágrimas do apresentador: a lembrança do filho, Rafael, que tinha autismo e morreu em 2014, aos 51 anos, de câncer, e da mãe, Mercedes, que foi atropelada por um táxi, no Rio de Janeiro, em 1968.

E, se o primeiro volume da biografia é marcado por detalhes de sua formação como homem e artista, o segundo, apesar de cobrir o período mais importante de sua vida (a chegada à Globo, a perseguição da censura militar, a consagração como humorista e a opção por se tornar entrevistador), é recheado de fatos que provavelmente apenas amigos mais próximos sabiam.

Como sua religiosidade, intensificada por influência da primeira mulher, a atriz Theresa Austregésilo, e pelas dificuldades que ambos passaram com o filho, Rafael, que nasceu com autismo. "Eu não tinha formação espiritual tão intensa, mas fui sendo influenciado por Theresa, e as dificuldades iniciais com o Rafinha nos aproximaram ainda mais nesse sentido", escreveu Jô. Por conta disso, o humorista fez o Cursilho, um processo de evangelização, que o fez rever a própria fé. Isso o aproximou de diversos religiosos, entre eles, D. Hélder Câmara (1909-1999), arcebispo emérito de Olinda e do Recife e grande defensor dos direitos humanos durante a ditadura militar.

Ele contava que, como era ministro da Eucaristia, pediu ao padre para que o ajudasse, em uma certa missa, a distribuir a hóstia sagrada. Curiosamente, a fila para receber a oferenda das mãos do humorista era maior. "Você está fazendo uma concorrência muito grande, desviando meus fiéis", divertiu-se D. Hélder.

Parcerias

O livro destaca também a importância de vários parceiros em sua carreira. "Para quem trabalha com humor, o sucesso começa com o parceiro, que deve ser o primeiro a achar graça", ensinava ele, que dividiu a cena com talentos como Paulo Silvino, Agildo Ribeiro, Eliezer Motta, entre outros. "Silvino era maluco no bom sentido, sempre disposto a fazer brincadeiras no camarim. Já o Agildo era um humorista imbatível: engraçadíssimo, sabia como poucos o tempo do humor."

Jô também homenageia Max Nunes, médico que se tornou um dos maiores escritores humoristas do País. Juntos, criaram personagens clássicos como Norminha, a cantora suburbana em busca da fama, a atriz pornô Bo Francineide e o dr. Sardinha, ministro inspirado em Delfim Netto. Criaram também bordões logo adotados pela população, como "O macaco tá certo". Nunes também alertava Jô a deixar de andar de moto, que lhe provocou dois acidentes. "Se há algo que me arrependo na vida, foi não ter parado antes", contava ele.

 

 

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