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Jimi Hendrix: um anjo com a guitarra nas mãos

A habilidade de Hendrix com o instrumento era como Garrincha com a bola nos pés

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

31 de maio de 2015 | 04h55

Não existem registros de que Jimi Hendrix tivesse dedos tortos, acalme-se. A contraparte futebolística dele, contudo, era literalmente torta. Hendrix com uma guitarra nas mãos era como Garrincha com uma bola nos pés. 

O craque botafoguense e da seleção brasileira deslizava pelos gramados do mundo com a leveza de uma criança que brinca com a redonda, passava um pé para lá, outro para cá, fazia o adversário cair no chão. Hendrix, por sua vez, também fazia mínimo esforço para esfolar a guitarra como – e derrubar quem o ouvia. Nunca estudou música, mas o som que tirava do instrumento era capaz de intrigar qualquer exímio guitarrista. Impossível encontrar alguém, neste planeta, capaz de tocar Little Wing, canção doce e de melodia inacreditável gravada pelo Jimi Hendrix Experience, no disco Axis: Bold As Love (1967), com a alma e personalidade exibida pelo músico batizado de James Marshall Hendrix, nascido em um hospital em Seattle, às 10h15, do dia 27 de novembro de 1942. 

Hendrix não gastava nota ou esforço. Passava períodos inteiros em solos intermináveis – e, sim, se fossem infinitos, seriam bem-vindos. Justamente porque nada pareceria fora do lugar. Se estava fora de uma escala ou outra, fazia-se justificar. Seus solos estão entre os melhores de todos os tempos, como de canções como All Along the Watchtower e Voodoo Child (Slight Return), mas não são eles o legado de Hendrix. Não, ele não está em canções, que, hoje, qualquer um pode levar consigo, no smartphone. 

É preciso mergulhar nas viagens de Hendrix para sentir aquilo que ele mostrou ao mundo naqueles míseros quatro anos no fim da década de 1960. Sua guitarra mostrava os novos caminhos, mas também refletia a sociedade em ebulição. Sacudiu a cabeça dos Beatles, mexeu com os brios do blues como ninguém jamais sonhou. Garrincha foi chamado de anjo, mesmo com as pernas tortas. Hendrix colocou fogo numa guitarra e entrou para a história. Um anjo dos dedos longos, mas não tortos. Dois magos. 


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