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Jim Hall: quando o mínimo era o máximo

Jim Hall, um dos maiores guitarristas do jazz de todos os tempos, morreu enquanto dormia na manhã de terça em sua casa

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

11 de dezembro de 2013 | 16h30

Sem ele, teria sido muito mais difícil para Mike Stern, Pat Metheny, Bill Frisell, John Pizzarelli, Julian Lage, Lanny Gordin, John Scofield, entre outros inúmeros guitarristas que ele influenciou ao longo de meio século. Uma das maiores referências da guitarra em toda a história do instrumento, com sua abordagem minimalista e melódica, morreu ontem aos 83 anos o norte-americano Jim Hall.

Hall morreu em seu apartamento no Greenwich Village, em Nova York, após um período doente, segundo informou sua mulher, Jane Hall, que o acompanhou nos últimos 48 anos. Ao longo de 60 anos de carreira, ele acompanhou gente como Gerry Mulligan, Art Farmer, Lee Konitz, Ornette Coleman, Paul Desmond, Bill Evans, Red Mitchell, entre inúmeros outros.

“Muito triste ouvir que o grande guitarrista e maravilhoso ser humano e amigo, Jim Hall, morreu”, postou ontem no Twitter o gigante do contrabaixo, Charlie Haden. “Eu tive duas grandes influências em minha carreira: Jim Hall e Wes Montgomery”, disse Pat Metheny ao Estado.

Em 1992, a revista Guitar Player colocou Jim Hall entre os maiores do seu instrumento (numa lista de 25 heróis), ao lado de Jimi Hendrix e Eddie Van Halen. Em 2004, tornou-se o primeiro guitarrista a receber a distinção de Mestre do Jazz do National Endowment for the Arts dos Estados Unidos.

Em abril de 1960, quando Ella Fitzgerald veio pela primeira vez ao Brasil, tinha ao seu lado, entre seus músicos, o jovem Jim Hall. Ao regressar para os Estados Unidos, o guitarrista levaria consigo uma nova onda que estava acontecendo por aqui, a bossa nova. Convenceu o saxofonista Sonny Rollins a gravar um disco, What’s New, sob influência do gênero, e acabou sendo pioneiro nesse esforço nos Estados Unidos – logo depois, viriam os discos de Stan Getz, Charlie Byrd e Herbie Mann.

Em setembro de 1987, Jim Hall estava jogando tênis quando recebeu uma ligação do Brasil. Era um convite para vir tocar no Free Jazz Festival, substituindo Gil Evans (que tivera um problema de última hora). Ele aceitou com prazer e veio, e também deu um workshop de guitarra no antigo 150 Night Club do Maksoud Plaza. “Uma vez por semana, pelo menos, penso na importância do que faço. Proponho a todos que façam o mesmo”, disse aos alunos, na ocasião.

Jim Hall veio de uma família humilde de Cleveland (nascera em Buffalo, New York, em 1930, mas a família mudou-se quando ainda era menino). Filho de mãe solteira, ele começou a tocar violão quando tinha 9 anos, estimulado pela mãe. “Nós pagamos um dólar e 25 centavos a uma loja de Cleveland para ter lições. Acho que as lições custavam 65 centavos e o resto ia para o violão. Então eu levei cerca de um ano para pagar o instrumento”, lembrou.

Mais tarde, ele estudou composição e teoria musical no Cleveland Institute of Music numa época em que não havia ainda aula de guitarra no programa. Mas ele já queria ser guitarrista, então foi para Los Angeles, onde iniciou sua carreira no quinteto do baterista Chico Hamilton (que morreu no mês passado). Dois anos mais tarde, já era bandleader.

Em 1955, mudou-se para Nova York, e seu estilo chamou imediatamente a atenção do saxofonista Sonny Rollins, que o trouxe para seu grupo. “Tinha habilidade para ser o instrumentista dominante, um performer poderoso mas também muito sensível”, disse Rollins. Foi com esse grupo que o guitarrista sedimentou sua reputação como um músico que sabia como tocar pesado e também como deixar espaços entre as notas.

A interpretação de Jim Hall e Sonny Rollins da composição The Bridge, de Rollins, é um compêndio da moderna guitarra no jazz, um contraponto magnífico – como se fosse um jogo de tênis em que um sacava uma bola de basquete e o outro respondia com uma bola de vôlei de praia.

Suas fontes primárias de influência foram Django Reinhardt e Charlie Christian. “Busco inspiração em outras formas de arte, como a pintura e a literatura”, afirmou, em entrevista. Era admirador de Egberto Gismonti, mas nunca quis se meter a tocar temas de Egberto. “Se o fizesse, faria com sotaque. Minha cultura é jazzística”, afirmou no Brasil.

Jim Hall gravou por quase todos os grandes selos de jazz: Milestone, Concord, Music Masters e Telarc. No início deste ano, lançou CDs com gravações ao vivo de suas performances no Birdland de Nova York.  “Jim foi um dos mais importantes guitarristas improvisadores na história do jazz. Sua generosidade musical era um reflexo exato de sua profunda humanidade”, disse Pat Metheny.

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