Jewel Brown fala sobre a carreira e show que fará em São Paulo

Artista tinha 23 quando foi escolhida como cantora de sua banda

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

02 Dezembro 2014 | 03h00

Ela tinha 9 anos e era a caçula de seis irmãos quando participou de um concurso vocal em Houston, Texas, sua terra natal. Tinha a seu favor a experiência nos corais da Rosehill Baptist Church e queria apenas ganhar os US$ 25 do prêmio. Nat King Cole estava no júri. Ganhou e impressionou. Seu irmão, Ted Brown, que já tinha um grupo de jazz, a apresentou a Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan. Elas foram suas primeiras influências.

Aos 12 anos, tendo a cantora de blues Linda Hopkins e o vibrafonista Lionel Hampton como mentores, já era profissional. Hampton a levou consigo para uma excursão pela Europa. Aos 23 anos, uma beldade talentosa em ascensão, lhe foi dada a chance de escolher entre dois grupos para ingressar como cantora de turnê: o de Louis Armstrong ou o de Duke Ellington. Que dilema! Ela escolheu o grupo Louis Armstrong and His All-Stars.

“Havia sempre muito barulho em volta”, brinca hoje a cantora Jewel Brown, referindo-se aos flertes e cantadas que ouviu durante os 8 anos em que cantou com o trompetista. Falando ao Estado por telefone de Natal (RN), onde estava em turnê esta semana, a cantora disse que só duas coisas a motivam após 68 anos em cena: “Tudo que importa é agradar à plateia e ao promotor do show”, diz.

Hazel Brown (o apelido, Jewel, joia em inglês, foi dado pela mãe), canta nesta terça no Bourbon Street, em São Paulo, às 21h30. Aos 77 anos, é testemunha privilegiada (como poucas) de uma era de ouro do jazz. Ela recordou o ambiente em que o bandleader Armstrong reinava. “Tínhamos certas regras. Álcool e cigarros eram permitidos, mas não ao ponto de nos impedirem de darmos nosso melhor, de sermos inteiros no palco.”

Para Jewel, Louis Armstrong é certamente “um dos originadores” do jazz, além de ter sido um dos maiores performers que ela viu em cena em sua vida. Mas ela pessoalmente nunca ficou restrita somente ao gênero. Tem um leque de habilidades vocais que passa pelo R&B, pelo blues e pelo gospel. 

Após a morte de Armstrong, em 1971, Jewel tentou seguir com sua carreira. Manteve até uma temporada no cassino Harrah’s, em Las Vegas, ao lado de gente como Sarah Vaughan e Sammy Davis Jr. Mas um problema de saúde da mãe a fez voltar para Houston, onde ficou por algum tempo, estancando na profissão. Em 1972, abriu um salão de cabeleireiro com seu irmão Alphonse, que batizou como Sir Brown’s Hair Palace.

Voltou 15 anos depois e retomou as turnês, mas sem nunca ter recuperado o destaque merecido. “Quando eu comecei, havia muitas cantoras no meio jazzístico. Na minha opinião, Ella Fitzgerald foi uma das maiores. Talvez a melhor. Nunca se pode comparar cantoras, porque são essencialmente muito diferentes. Billie Holiday era a melhor no que fazia. Sarah Vaughan era a melhor no que fazia. Eu tento ser a melhor no que faço”, ela disse.

Um dos trabalhos recentes de maior destaque de Jewel foi uma temporada como outra lenda, o pianista Joe Sample, na Opera House de Galveston, construída em 1894. “Mas Joe ficou doente no meio do projeto. Após a morte dele, em setembro, segui com outros projetos.”

Um dos projetos é uma turnê pelo Japão, onde fará duas apresentações (também acaba de lançar um disco em Tóquio, gravado com o guitarrista Milton Hopkins em 2012), além de turnês que passarão no próximo ano pela Suécia e Suíça.

Jewel Brown lembra que já esteve em São Paulo com Louis Armstrong, nos anos 1960. Mas nunca tinha voltado. Segue vivendo no bairro onde iniciou tudo isso, Third Ward, em Houston, Texas. Uma coisa curiosa sobre ela: em 2011, ela foi convidada para ir a Moscou cantar na festa de aniversário de Vladimir Putin - aparentemente, as cantoras favoritas do todo-poderoso russo são Tina Turner e Jewel Brown.

JEWEL BROWN

Bourbon Street. Rua dos Chanés, 127, Moema, telefone 5095-6100. Terça, 21h30 (abertura, 20 h). R$ 95/ R$ 120.

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