Jethro Tull toca no Via Funchal em SP

Desembarca amanhã em São Paulo mais um capítulo da jurássica história do rock, o Jethro Tull, banda criada em fevereiro de 1968 que leva o nome de um pioneiro da agricultura inglesa do século 18, criador de um mecanismo de semeio revolucionário para a época.Liderado pelo escocês Ian Anderson, o Jethro Tull apresenta-se no Via Funchal, amanhã e terça-feira, com seu líder (que canta, toca flauta, violão, gaita e bandolim), além de Martin Barre (guitarra elétrica), Doane Perry (bateria), Andrew Giddins (teclados) e Jonathan Noyce (baixo).Anderson, de 53 anos, vive numa fazenda onde cria salmões e diz que sua banda não é de rock. Ele concedeu entrevista na semana passada ao Grupo Estado para falar de sua nova excursão ao Brasil, onde mantém uma legião considerável de fãs. "Tocar em São Paulo é um pouco diferente de tocar em Los Angeles ou no Rio", ele conta. "É uma cidade industrial, mais dura e fria, e enorme, mas a platéia tem uma reação muito boa."Grupo Estado - Quantas vezes vocês já estiveram no Brasil?Ian Anderson - Cinco vezes. A primeira foi no começo dos anos 80. Estivemos no Rio, em São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte. Minha impressão é que é um País... bem grande e bem confuso. Que é bom andar em certos lugares com o dinheiro bem escondido. O Rio, apesar das praias e das mulheres, não é o meu tipo de lugar. Eu adoro praias, mas não gosto de confusão. Na primeira vez que fui ao Brasil, uma repórter da TV no aeroporto pôs o microfone na minha cara e perguntou o que eu achava da música brasileira. Eu disse que não gostava porque não tinha ouvido ainda. No dia seguinte, aquilo foi manchete nos jornais. "Ian Anderson não gosta de música brasileira." Bem, depois daquilo eu ouvi muitas fitas e CDs que amigos me deram, com o jazz brasileiro, a MPB, o rock, o samba, a bossa nova. Hoje, posso dizer que amo a música brasileira. Não tanto por uma ou outra expressão musical em particular, mas pela mistura. Há elementos de música africana, francesa, americana. É do que eu gosto e é também o que gosto de fazer.Em janeiro haverá um grande festival aqui no Brasil, o Rock in Rio. Por que não estão lá?É um festival para roqueiros, gente de cabelos compridos, alguma droga, muito barulho. Não é o melhor lugar para nós, nós não somos só uma banda de rock. Temos tocado em festivais de rock também, mas o meu lugar favorito é uma sala de concertos, um teatro. Eu me divirto ouvindo rock, mas não suporto ouvir apenas rock. Nossa música tem influências e estilos diversos e é complexa. Todos os músicos se interessam por diversas técnicas e têm diferentes níveis de compreensão da música. Eu toco eventualmente peças de música erudita. Gosto de pensar em uma música que reflita algo do que sou e mostre para onde estou indo.Após 32 anos no palco, você tem planos de se aposentar algum dia?Não tenho planos. As platéias são o meu doutor, o meu médico. Quando elas acusarem que já não tenho condições, eu me retiro. Isso deverá acontecer mais dia menos dia.Haverá canções do seu novo disco-solo, The Secret Language of Birds neste show?Depende da gravadora. Eles ficaram de lançar, no dia 1.º, no Brasil o disco novo do Jethro Tull e o meu solo. Se isso acontecer, tocaremos duas canções de cada álbum e o restante será uma seleção de 32 anos de carreira.É verdade que você está numa guerra contra um sujeito da Califórnia que registrou na Internet o nome Jethrotull.com?Não é uma luta contra um homem. É uma luta contra um estado de coisas. Esse homem registrou dot.com os nomes John Lennon, Paul McCartney e por aí vai. Por oportunismo. A batalha não é comigo, mas por direitos legais. Eu sou um flautista, apenas toco flauta e só estou interessado na música.Você, que está há tanto tempo na estrada, como vê o futuro para a música com sistemas de trocas como o Napster na Internet?A solução para isso é muito simples: eles têm de pagar pela música. Devem pagar royalties, licensing, copyright, tudo que é direito. Porque é com esse dinheiro que as companhias pagam os artistas e os proprietários dos direitos intelectuais de Beethoven, Oasis, Alanis, Beatles. Todos esses grandes vendedores de discos, todo o establishment ajuda a subsidiar o surgimento de novas bandas. É dessa arrecadação que se desenvolve o mercado. Eu acredito na importância de novas bandas. Nos anos 70, nós investimos num selo que dispendeu US$ 2 milhões para promover novos grupos, sem retorno financeiro. Isso é importante, é desse modo que se ajuda a criar a música.

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