Leo Aversa
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'Jenufa', de Janácek, tem bons momentos, mas desafios da gestão são enormes

História foi adaptada do texto de Gabriela Preissová

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

10 Abril 2017 | 03h00

RIO - Tudo se resume ao segundo ato. A tragédia que nasce do choque entre o destino pessoal e a convenção social, com uma música que, de cores quase expressionistas, preenche de humanidade o espaço entre os dois extremos: a essência da Jenufa, de Janácek, está representada no encontro, sobre o palco, das duas protagonistas, Kostelnicka e Jenufa. E o mesmo vale para a montagem apresentada ao longo da semana passada pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Na história, que Janácek adaptou do texto de Gabriela Preissová, Jenufa se apaixona pelo mulherengo Steva. Kostelnicka quer livrar a enteada da vida de sofrimentos para a qual, acredita, ela se encaminha. Se há preocupação genuína, há também a sombra da frustração de sua própria existência. Mas Jenufa acredita: ela acabou de ter o filho ilegítimo de Steva. A falta de diálogo entre as duas é palpável. E leva Kostelnicka a matar a criança, um dos momentos mais assustadores da história da ópera. Em especial porque, em seguida, vemos Jenufa, que nada sabe, às voltas com o sonho de amor por Steva. E também porque fica claro um dos temas principais da ópera, a ideia de que a mulher existe apenas como projeção do desejo masculino. Se Steva não a quer, então Jenufa deve ser oferecida a Laca; mas, ele a aceitaria sabendo do bebê? 

Tudo isso, enfim, se dá no segundo ato. Não que haja algo de errado com o primeiro ou o terceiro ou com a concepção dada pelo diretor André Heller-Lopes. Neles, a ação se passa no espaço público; no segundo, porém, a cena acontece no espaço íntimo da casa de Kostelnicka e, por que não, dentro do universo de traumas e desejos dela e da enteada. E é nesse momento que o jogo de sombras da iluminação, a claustrofobia da cenografia, a leitura do maestro Marcelo de Jesus e a hábil direção de atores combinam-se de modo mais eficaz. 

E é aqui também que as duas protagonistas da história vivem seus melhores momentos. A Kostelnicka da soprano Eliane Coelho é um dos mais impressionantes trabalhos de construção de personagens da história recente da ópera brasileira. Por sua vez, Gabriella Pace, ao interpretar Jenufa, sai-se bem na mudança em direção a papéis mais pesados. Destaque ainda para a atuação de Eric Herrero como Laca, formando, ao lado da mezzo Carolina Faria, como a avó, o quarteto principal da montagem.

Crise. É difícil pensar na Jenufa fora do contexto em que a produção subiu ao palco. Há, de cara, um problema emergencial: os músicos da orquestra e do coro, servidores estaduais, estão trabalhando com meses de salários e benefícios atrasados. Mas, além disso, é preciso lembrar que a nova gestão, nomeada há cerca de um mês, com Heller-Lopes como diretor artístico, começa o trabalho em meio a velhos e conhecidos vícios: a troca de comando no teatro foi motivada por acomodações políticas e o secretário de Estado da Cultura, André Lazaroni, em suas primeiras declarações, questionou abertamente a vocação do Municipal como palco de óperas, balés e concertos, alegando a necessidade de popularização do espaço. Mais: após o cancelamento da agenda preparada pela gestão anterior, ainda não há uma temporada, cujo anúncio foi adiado indefinidamente. Jenufa é um grande espetáculo. Mas celebrá-lo não pode significar esquecer os enormes desafios que se tem pela frente - e o fato de que a nova gestão ainda tem que mostrar, com fatos concretos, a que veio.

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