Quantrell D. Colbert/MGM Pictures
Quantrell D. Colbert/MGM Pictures

Jennifer Hudson teve que aprender sobre Aretha Franklin para interpretar a cantora

Para atuar no filme 'Respect', atriz pesquisou a vida da amiga para entender as circunstâncias que a moldaram

Jon Pareles, The New York Times

17 de agosto de 2021 | 10h12

Jennifer Hudson teve muito tempo para pensar em como retratar Aretha Franklin na telona. Em 2007, logo depois de Jennifer ganhar o Oscar de melhor atriz coadjuvante - por interpretar uma cantora de um grupo musical feminino em Dreamgirls - Em busca de um sonho -, Aretha disse a Jennifer que ela deveria interpretá-la em um filme biográfico, dando início a uma amizade de dez anos recheada de conversas semanais.

Como Aretha, Jennifer cresceu cantando na igreja e usou a grande habilidade técnica do gospel nas canções pop. E, como Aretha, cuja mãe morreu aos 34 de um ataque cardíaco, Jennifer passou por uma perda repentina e devastadora: sua mãe, seu irmão e seu sobrinho foram assassinados em Chicago em 2008. Em sua carreira, Jennifer repetidamente prestou homenagem a Aretha, desde usar uma música de Aretha em sua audição no programa de TV American Idol em 2004 até cantar Amazing Grace no funeral de Aretha em 2018. Agora, Jennifer está interpretando Aretha no filme biográfico Respect, que chega aos cinemas americanos nesta semana - no Brasil, a estreia está prevista para 9 de setembro.

“Cada artista, cada músico tem que conhecer Aretha, principalmente se quiser ser bom”, disse Jennifer em uma entrevista por vídeo de Chicago, onde ela vive; seu gato cinza, Macavity, vagava ao fundo. “Ela sempre esteve presente em minha vida de alguma forma, até mesmo quando eu não sabia.”

Enquanto Jennifer explicava as escolhas que ocorreram em sua performance, ela disse que, por meio do filme, ela entendeu o quanto Aretha era um “modelo”. “Nossa música na igreja era baseada exclusivamente nela. A ‘Amazing Grace’ que cresci cantando na igreja veio de seu álbum ‘Amazing Grace’. Eu não me dei conta disso até fazer pesquisa para o filme.”

Jennifer, 39 anos, é a estrela e produtora executiva de Respect. O filme narra a vida de Aretha desde sua infância - como uma cantora prodígio cantando na igreja ao lado de seu pai, o famoso reverendo Clarence L. Franklin -, passando por sua gravidez aos 12 anos, seus anos frustrantes cantando standards de jazz na Columbia Records, sua revelação triunfante como a "rainha do soul" na Atlantic Records, além das pressões e dos porres que ameaçaram tudo o que ela havia conquistado. A história termina em 1972, com Aretha voltando às origens para gravar seu histórico álbum gospel ao vivo, Amazing Grace.

 

Respect é o primeiro filme dirigido por Liesl Tommy, que nasceu na África do Sul sob o apartheid e trabalhou extensivamente no teatro, dirigindo clássicos com novos conceitos e peças politicamente carregadas como Eclipsed, sobre mulheres durante a guerra civil na Libéria. (Ela foi indicada ao Tony para o prêmio de melhor diretor por essa produção.) Para escrever o roteiro de Respect, Liesl chamou a dramaturga Tracey Scott Wilson, cujo avô era pregador.

“Quando apresentei minha ideia do filme”, disse Liesl por telefone de Los Angeles, “a ideia era que ele deveria começar na igreja e terminar na igreja. O tema do filme era a mulher com a melhor voz do planeta, lutando para encontrar sua voz. Queria saber como uma pessoa canta com essa intensidade emocional.”

“Muitas pessoas têm vozes brilhantes”, ela continuou, “mas ela é a única que apresenta as músicas daquele jeito. Não acho que você se torna a rainha do soul tendo uma vida tranquila e sem passar por dificuldades. Houve uma experiência vivida que lhe permitiu cantar assim”.

Aretha foi celebrada outra vez após sua morte em 2018. O filme há muito tempo guardado de sua apresentação de quando gravou o álbum Amazing Grace”foi finalmente lançado naquele ano. E a National Geographic dedicou uma temporada completa de sua série de televisão Genius a Aretha, com Cynthia Erivo como protagonista. “Aretha Franklin viveu uma vida onde há espaço para muitas, muitas versões de muitas histórias a respeito dela”, disse Liesl. "Ela merece isso."

Respect coloca lado a lado as correntes pessoais e políticas da carreira de Aretha: criando um hino feminista com Respect enquanto lutava contra um marido abusivo, aparecendo regularmente com o reverendo Martin Luther King Jr., ao mesmo tempo em que apoiava figuras polêmicas como a ativista do movimento Black Power Angela Davis.

Uma das cenas mais impressionantes envolve Aretha cantando no funeral de Luther King Jr. “Imagine ser Aretha Franklin naquela época e Luther King Jr, de quem ela era tão próxima, ser assassinado”, disse Jennifer. “Imagine o sofrimento e a dor pelos quais ela estava passando. Mas em sua posição, ela ainda tinha que ser aquela pessoa para ser a luz em um momento tão sombrio. Isso é difícil."

Assista ao trailer de 'Respect':

Ainda assim, Jennifer e Liesl estavam determinadas a colocar a música de Aretha no centro do filme. “Todo mundo estava, tipo, ‘nunca vimos um filme biográfico com tanta música, em que você consegue ouvi-las’”, disse Jennifer. “Isso não é um musical. É um filme biográfico sobre artistas, músicos. Mas não consigo pensar em nenhum filme biográfico ou musical que tenha sido feito dessa maneira.”

Para criar imediatismo, Jennifer fez as performances de Aretha no palco cantando ao vivo para a câmera - sem dublagem ou efeitos de dublagem nos vocais depois. “Eu queria passar por isso assim como ela experimentou em vida”, disse Jennifer. “O que quer que estivéssemos reencenando e recriando o que ela fez em vida, se fosse ao vivo, saía assim, ‘Bem, vamos fazer isso ao vivo’. ‘Amazing Grace’ foi ao vivo. ‘Ain't No Way’ foi ao vivo. ‘Natural Woman’, vamos cantá-la ao vivo. Para que isso pudesse ser fidedigno ao que realmente era durante sua vida.”

Jennifer também refletiu a respeito de como reinterpretar as canções de Aretha. Suas vozes são diferentes: a de Jennifer é mais alta e clara, a de Aretha tem uma pegada mais de blues e rouca, e Jennifer queria parecer com Aretha sem copiá-la. “Eu estava usando o modo de agir dela, apenas permitindo que qualquer influência que ela teve sobre mim transparecesse, enquanto usava suas inflexões e diferentes nuances”, disse Jennifer. “Era mais sobre o sentimento do que combinar as notas.”

Assista o clipe da música 'Respect', com Aretha Franklin:


Apesar dos anos de conversas entre as duas, Jennifer ainda teve que pesquisar a respeito da amiga. “Aretha não era uma pessoa que verbalizava muito, a menos que fosse por meio da música”, disse ela.  “Sei disso pelas minhas experiências de estar perto dela, eu costumava ficar, tipo, eu realmente não sei o que ela pensa ou sente. Ela não te dizia muito." Então, Jennifer decidiu entender a época em que a cantora cresceu e outras circunstâncias para ter uma noção de como era ser mulher naquele tempo. “Só me dei conta, literalmente no meio das cenas, que as coisas que ela me dizia, estava falando por experiência própria. Sua maior expressão foi por meio de sua música - e isso era real.” / Tradução de Romina Cácia 

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