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Jeffrey Skidmore lança CD com suas aventuras pela música colonial brasileira

Em 'Brazilian Adventures', lançado agora internacionalmente, regente inglês resgata preciosidades da produção da época

João Marcos CoelhoESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2015 | 05h00

O namoro do regente inglês Jeffrey Skidmore, 64 anos, com a música colonial da América Latina começou em 2003. De lá para cá, três CDs com seu prestigiado grupo Ex-Cathedra, que fundou em 1969, mapearam o barroco da América Espanhola, com destaque para a música das missões bolivianas e do México. Pois ele acaba de mostrar o resultado de três criteriosas incursões pelo Brasil nos últimos anos num esplêndido CD para o selo inglês Hyperion, que está sendo internacionalmente lançado este mês (disponível para download em iTunes).

Brazilian Adventures faz uma amostragem significativa da produção colonial brasileira. Da gravação, feita na Inglaterra, participa o violinista brasileiro Rodolfo Richter, liderando o grupo instrumental que acompanha os ótimos cantores do Ex-Cathedra. Skidmore deu aulas nos últimos Festivais de Música de Curitiba, dirigidos por Richter.

Em primeiro lugar, destaque-se sua atitude aberta. Ele conversou com muitos pesquisadores da música colonial brasileira. Em São Paulo, com o pioneiro e mestre Régis Duprat, responsável pela descoberta da Missa a 8 Vozes, de André da Silva Gomes (1752-1844), mestre de capela da Catedral da Sé. Na cidade, também aprendeu com Paulo Castagna, pesquisador que resgatou o acervo musical do Museu de Mariana, em Minas.

Em Salvador, Skidmore trocou figurinhas com Paulo Costa Lima, compositor e pesquisador. E, no Rio, conheceu, na Biblioteca Nacional, a obra imponente e decisiva do Padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), resgatada por outra pioneira, Cleofe Person de Matos.

O eixo central da gravação está nas admiráveis performances destas duas obras capitais da música colonial brasileira, de Gomes e José Maurício. O maior espanto de Skidmore foi ter se deparado com música pré-clássica – jamais barroca, ao contrário da produção musical da América espanhola. Explica-se: por aqui, os primeiros manuscritos encontrados datam de meados do século 18, enquanto nos demais países latinos a ação dos jesuítas manteve quase intacta uma vasta produção de fato barroca. No Brasil, Haydn e Mozart eram ídolos de José Maurício; os compositores “importados” de Portugal respiravam a atmosfera clássica. “É uma música muito bela, mas europeia.” Nenhum problema: a intenção de José Maurício e dos demais era esta mesmo.

Outro espanto: ao visitar as igrejas coloniais de Ouro Preto e Salvador, ficou perplexo ao não ouvir nada da música colonial brasileira. Quase num desabafo, declarou em recente entrevista que “esta é a música que deveria ser interpretada e ouvida nelas. Se você a ouve em seu contexto original certamente a escutaria com ouvidos diferentes”. Por que não? A música brasileira colonial é de primeira qualidade e precisa ser mais conhecida do grande público nos próprios locais onde nasceu – ou seja, nas igrejas.

Peças curtas, mas bastante significativas, emolduram as missas. Castagna repassou raridades por ele descobertas a Skidmore. Como os dois villancicos anônimos inéditos cantados em português da região de Mogi das Cruzes, São Paulo. Um deles, Matais de Incêndios, abre o CD, com o coro acompanhado por violão e percussão.

Outra preciosidade que devemos a Castagna, assinada pelo português Luis Álvares Pinto (1719-?1789), que trabalhou no Recife: as encantadoras Beata Virgo e Oh! Pulchra est, que integram os Divertimentos Harmônicos, intercaladas com uma invenção a duas vozes das Lições de Solfejo para órgão. Belíssimos também os três Tercios de José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746-1805), preciosos duetos de sopranos: Padre Nosso, Ave Maria e Glória.

Existem, é certo, ótimos registros da Missa Pastoril, de José Maurício. Mas é igualmente certo que Skidmore e seu Ex-Cathedra construíram um CD mosaico representativo, inclusivo e fiel à diversidade da produção colonial brasileira. Em um nível interpretativo de excelência.

O grupo que tem sede em Birmingham, na Inglaterra, contabiliza 25 CDs em sua existência. Quatro de música latino-americana, com estas Brazilian Adventures. Pelo entusiasmo de Skidmore, o quinto poderá também ser de música brasileira.

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