Jeff Buckley, a voz além da tragédia, faria 40 anos hoje

Jeff Buckley faria 40 anos nesta sexta-feira. De popularidade um tanto restrita, ele vem ganhando admiradores a cada ano, como todo bom mito do rock que morreu jovem. O público em geral terá oportunidade de conhecer parte de sua história, provavelmente a mais dramática, quando o filme Mystery White Boy, há muito esperado pelos fãs (e criticado de antemão por alguns), chegar às telas. Baseado no que se sabe que Hollywood fez e faz com o componente trágico da vida de grandes ícones (Jim Morrison, Ray Charles, Johnny Cash), é de esperar que o filme não seja digno do arrebatamento musical do biografado. Compositor e guitarrista de inspirada beleza (facial, inclusive), cantor de voz pungente e afinada como a do pai, Tim Buckley, Jeff tinha uma carreira das mais promissoras do pop-rock alternativo americano dos anos 1990. Antes de integrar o obscuro Gods and Monsters, Buckley tocou em outras bandas de jazz, rock e punk. Não chegou a gravar com o Gods e partiu para carreira-solo quando o grupo estava prestes a assinar contrato com uma gravadora. No entanto, Buckley só teve a oportunidade de lançar um solitário álbum-solo de estúdio em vida, o mitológico Grace (1994), que não foi bem-sucedido comercialmente. Viveu o dilema de não ser comercial o suficiente para tocar nas FMs nem pesado para supostamente cair no gosto do público indie. Houve quem o classificasse de ´celestial´ demais, mas o tempo fez clássicas suas interpretações para canções etéreas como Corpus Christi Carol, Lilac Wine e a insuperável versão de Hallelujah (Leonard Cohen), depois popularizada pela (também boa) gravação de Rufus Wainwright na trilha da animação Shrek. Não por acaso ambos mantêm certas semelhanças com a melancolia outonal de Nick Drake (1948-1974), que morreu de overdose. Não é à toa que Grace ganhou o atributo de único não pela condição isolada na carreira de Buckley, mas por representar uma ´gota cristalina num mar de ruído´, como disse Bono, do U2. Virou objeto de culto e também bateu fundo na sensibilidade de outros astros como Bob Dylan, Paul McCartney, Jimmy Page e o próprio Wainwright. É um dos grandes discos da década passada e ficou entre os 500 melhores de todos os tempos na lista da revista Rolling Stone. Nos três anos e meio que se seguiram, Buckley compôs várias canções que não foram finalizadas como ele queria. Chamou Tom Verlaine, do Television, para produzir o sucessor de Grace, mas não gostou do resultado. Só que não teve tempo de retrabalhar as canções, que estão num de seus álbuns póstumos Sketches for ´My Sweetheart the Drunk´ (1998). Apesar do material inacabado, ainda assim é uma boa amostra do que poderia ser. O brilho de sua música acabou ofuscado pela morte trágica, por afogamento, na marina do Rio Wolf, em Memphis (Tennessee), no dia 29 de maio de 1997. Criou-se em torno disso uma aura de ´mistério´ desmentida veementemente por sua mãe, Mary Guibert. A morte foi acidental (ele estava nadando), não teve nada que ver com drogas, álcool, suicídio ou qualquer outro combustível para um escândalo cinematográfico. Outros ídolos do rock, Kurt Cobain (Nirvana), Ian Curtis (Joy Division), Michael Hutchence (INXS), todos mortos tragicamente, também estão na mira de Hollywood. Daí a desconfiança da mãe de Buckley, mais cética ainda depois de deparar com o sensacionalismo em cinebiografias recentes, como Ray e Johnny e June. ´Acreditem só o que vocês souberem por mim através de jeffbuckley.com´, avisa ela no site oficial do filho, mantido por ela. Portanto, há pouca certeza além do diretor (o pouco conhecido Brian Jun, de Steel City) e do título, Mystery White Boy, igual ao de um de seus álbuns póstumos, om registros de shows de 1995/96. Ao contrário do que se especulou, o roteiro não será uma adaptação do livro Dream Brother: The Lives and Music of Jeff and Tim Buckley, de David Browne, que obviamente trata da estranha relação de pai e filho. Eles conviveram apenas por uma semana, o suficiente para mexer com a cabeça de Jeff. Tim abandonou Mary logo depois que ela deu à luz e, com um histórico de infância conturbada, o filho relutou muito em cantar, por medo de comparação com o pai. Por uma daquelas incríveis coincidências, Tim também gravou pouco e virou lenda. Morreu de overdose em 1975 aos 28 anos. Quando se afogou, Jeff tinha 30.

Agencia Estado,

17 Novembro 2006 | 14h37

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